terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Desencontros


Há meses que ansiava conhecê-la. Quando via a fotografia no jornal, encabeçando o artigo semanal que ela escrevia, sentia o coração bater-lhe com mais força. Tentou engendrar uma maneira de a conhecer. Enviou algumas crónicas (péssimas, porque não tinha o dom da escrita, mas pediu ajuda a um amigo) propondo uma colaboração. Recebeu uma carta a agradecer, onde lamentavam a indisponibilidade financeira do jornal para pagar a mais colaboradores.
Uma noite, no bar onde costumava reunir-se com alguns amigos, bebeu mais do que o habitual. Estranharam a sua embriaguez. Nunca o tinham visto em tal estado. Confessou, em voz entaramelada, que sofria de mal de amor. Um amor cego que o torturava há meses, mas que se recusou a identificar.
Entrou um amigo que não via há tempos. Vinha encontrar-se com uma amiga. Sentou-se com ele ao balcão para uma última bebida. Quando a porta se abriu e ela entrou, estremeceu. Fizeram-se as apresentações. Ela sorriu o sorriso mais lindo que ele alguma vez vira. Tentou retribuir. Desajeitado, entornou o copo e o líquido derramou-se sobre o vestido dela. Tentou desculpar-se, mas ela percebeu o seu estado. Lançou-lhe um olhar de desprezo e comiseração e puxou o amigo para uma mesa. Ainda a ouviu perguntar " De onde é que conheces este bêbado?".
Regressou a casa amaldiçoando a má sorte. Tanto tempo à espera, para a encontrar na pior altura. Prometeu nunca mais voltar a beber.

11 comentários:

  1. O Carlos sabe como ninguém escrever histórias que me encantam ~ "Desencontros" é uma delas.
    Quanta cegueira há neste amor?!
    Mesmo sem estar com os copos, ele nunca conquistaria a miúda.
    Pobre diabo!

    Também gostei muito da imagem.
    Quem é o autor?

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  2. Tinham passado mais de 30 anos em que os seus olhares se cruzaram. Ela 13 anos ele 15. Tirando uma dança em que ele apertou demais e ficou a dançar só, nada mais. Ficou a memória daquela troca de olhares. A vida continuou sempre que se cruzavam ela baixava os olhos. Ele pensava que ela o odiava, mas procurava sempre voltar a cruzar aquele olhar o que não conseguia.
    Um dia naquele bar, ele já com uns vapores viu-a passar ao lado. Ela pura e simplesmente ignorou-o.
    Mais um copo para desinibir e aí vai ele. Pediu licença e sentou-se.
    Ficou a saber que ela estava Viuva há um par de anos. Ela ficou a saber que ele estava divorciado tambem há um par de anos.
    Trocaram numeros de telefone. No dia seguinte um convite para um café... Não sei se vão viver felizes para sempre, mas hoje vivem e já passaram 10 anos.
    Tudo porque naquele dia uns copos com uns amigos e mais um para desinibir e aí foi ele direito ao assunto
    Nem sempre uma bebedeira (naquele caso era só meia) acaba mal

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  3. Os desencontros amorosos são sempre tão tristes. Coitadinho desse rapaz. E ela cruel, como todas as mulheres sabem ser.
    Espero que não seja sintomático da zona, a avaliar pela história do meu conterrâneo folha seca, mas os copos também deram uma ajudita a uma relação que dura há quase 9 anos.
    Ela encostou-o à parede e disse: "Desculpa, mas acho que se não fizer isto vou arrepender-me para o resto da vida." O álcool tem cada coisa... Pelo menos, tenho uma história engraçada para contar aos sobrinhos e aos filhos dos sobrinhos. :-p

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  4. O que vou escrever, foi escrito minutos antes dos vapores do "folha seca"entrarem em acção.

    Á beia da noite este meu desejo noite calada, fria madrugada agora a meio duma noite qualquer, a minha solidão cansada quer adormecer, aguento a dor que me consome enquanto o mundo dorme.

    Desejo de todo o meu coração que possamos viver muitos 10 anos juntos. Ama-se porque se ama, não há qualquer razão para amar.
    Beijo

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  5. E ficou a ver a dobrar, o constrangimento e a verdade.

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  6. Cenas, sim...e tristes!

    E será que a musa merecia a triste fugura, ao menos?

    Saudações

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  7. Ele há bons e maus vinhos..., saber beber é uma arte.
    :)))

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  8. Há males que vêm por bem...
    Se ele deixou de beber já foi uma mais valia e melhores namoradas virão!
    xx

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  9. Ficar embriegado na hora errada e no local errado já é azar!

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