sábado, 22 de janeiro de 2011

O ilusionista de Trapalhândia (7)

Capítulo 7: A Rendição
Capítulos anteriores (aqui)
Dois anos antes caíra o Muro de Berlim e atrás dele caíram os regimes comunistas.
Os jovens do mundo ocidental vivem empolgados o desenrolar dos acontecimentos de 89, (alguém, reparou que lido ao contrário é 68?) mas os ídolos e os ícones são diferentes. Cohn Bendit é preterido em favor de Karl Popper, em vez de flores na cabeça usam cartões de crédito nos bolsos, e trocam a leitura de
Salut Les Copains pelo Financial Times. Ao interesse pela evolução dos tops musicais, sucede-se uma crescente atenção às cotações da bolsa. É que os jovens do final dos anos oitenta já não são hippies. São yuppies e em vez dos jeans coçados envergam gravatas de padrões psicadélicos, fatos de marca e circulam em carros topo de gama, de telemóvel em riste.
A costa alentejana é atingida por uma maré negra, enquanto o País dança nas discotecas ao ritmo da Lambada. O telemóvel chega a Portugal e os portugueses lêem a "Crónica do Rei Pasmado". O novo aparelho é muito caro, apenas ao alcance de bolsas mais abonadas. Mas não tardará que se transforme numa praga e um restaurante lisboeta afixe à porta: "Proibida a entrada a cães e a telemóveis".
A Revisão Constitucional permite as nacionalizações totais de várias empresas e apenas com três letras se passa a escrever a palavra imposto (IRS).
No início da década de 90, em Trapalhândia, vai toda a gente ao "Baile do Rivoli" , mas "Não há estrelas no Céu". Quem o afirma é Rui Veloso. Por pouco também deixa de haver peixe. Um desastre ecológico destrói 100 toneladas no rio Tejo e uma maré negra atinge Porto Santo. Para nos dar as notícias nasce um novo diário: “ O Público”.
No ano em que o escudo adere ao Sistema Monetário Europeu (1992), Portugal estreia-se na Presidência da CEE e, em Lisboa, o polémico Centro Cultural de Belém é inaugurado. Para fechar logo de seguida e reabrir no ano seguinte. Ele há coisas assim em Trapalhândia...
Com os Jogos Olímpicos e a Expo -92 a realizarem-se em Espanha, os tugas passam o ano a saltar a fronteira, inaugurando as "escapadelas de três dias".
Quem também se escapa, mas por período mais longo, para os EUA, é o corrector da Bolsa Pedro Caldeira. O jogo da Bolsa dera para o torto e várias figuras públicas ficam sem umas massas valentes. Quem não anda muito bem de finanças são os estudantes. Novos actores da sociedade de consumo, os jovens não têm dinheiro para as propinas. Vai daí, manifestam-se em frente à AR. Derrubam o Ministro mas azar... os pais vão mesmo pagar propinas.
Finalmente a RTP deixa de ter o monopólio televisivo. A esperança numa televisão melhor nasce com a SIC, mas o sonho dura pouco tempo. A qualidade passa a ser nivelada por baixo. No entanto, a aposta no
"Poder do Dinheiro" revela-se acertada. Por meia dúzia de contos, qualquer um se despe em palco, mas desta vez os púdicos espectadores e os atentos Bispos não reagem contra a ofensa aos costumes perpetrada por filmes "demoníacos" como "O Império dos Sentidos" e "Pato com Laranja". A sociedade de consumo ri-se baixinho... enquanto as iras se voltam contra Saramago e o seu "Evangelho Segundo Jesus Cristo". Os tugas estão rendidos. O dinheiro é barato e o crédito fácil. O endividamento sobe de forma assustadora, mas os vampiros garantem que não há problema.

(Continua)

2 comentários:

  1. A maré negra que atingiu Almograve de uma forma avassaladora, parecia o prenuncio de todos os males que que estavam na forja....., é a minha zona de férias de eleição, tive uma comoção indescritível!.

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  2. Pegando no assunto das propinas e dos estudantes, acho indecente que o Estado aumente as propinas, retirando o direito de acesso ao ensino a muita gente, mas declare feliz da vida que aumentam as propinas, mas aumentam também as facilidades para pagar os estudos. Andam a fazer-se créditos de quantias absurdas para pagar os estudos, que se começam a pagar apenas quando estes terminarem. É uma forma muito perversa e errada de lançar os jovens para mundo do trabalho. Começam com saldo negativo em largos milhares. Começam a trabalhar, os que conseguirem, para pagar impostos e à banca. Pode ser uma nova forma de escravidão...

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