sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

O ilusionista de Trapalhândia (6)

Capítulo 6: a chegada do Vampiro

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Entusiasmado, o povo deu-lhe a maioria e Hannibal começou a governar. Ao fim de algum tempo, constatou que as promessas daquele senhor esguio e com problemas de dicção se estavam a cumprir. Aqueles cartõezinhos magnéticos que permitiam adiar para os meses seguintes o pagamento da parafernália de produtos que ele prometera eram mesmo mágicos, e os lares encheram-se de coisas que o povo não percebia muito bem como funcionavam, nem para o que serviam, mas que com o tempo passaram a ser indispensáveis.
Quatro anos depois o povo, satisfeito, voltou a elegê-lo quase por aclamação. Por essa altura Trapalhândia vivia em plena euforia bolsista e os tugas aprendiam novas siglas: OPV e OPA fazem parte do novo léxico.Os hipermercados são a nova sala de visitas domingueira dos tugas que não querem perder, ao fim de semana, o hábito dos engarrafamentos de trânsito. A festa do consumo já chegou e os tugas divertem-se. Renderam-se aos encantos da sociedade de consumo e começam a endividar-se.
Entrementes, Hannibal ia prosseguindo o seu trabalho. Andava tenso e crispado, mas simultaneamente feliz. Maria não estranhava o comportamento do marido, mas ficou preocupada quando uma noite, enquanto passeavam ao luar de Cryingmount ele a beijou no pescoço. Sentiu uma leve picada que pensou ser um "chupão". Depois, perdeu as forças e desmaiou.
Na manhã seguinte, ao acordar, estava invulgarmente bem disposta, mas não conseguia lembrar-se de nada do que ocorrera na véspera. Levantou-se. Quando estava diante do espelho, a custo reprimiu um grito. Tinha uma pequena cicatriz no pescoço...
Chamou Hannibal, mas não obteve resposta. Vestiu-se, tomou o pequeno almoço sozinha e foi ao jardim, onde encontrou o marido em grande azáfama. Estava ainda mais crispado do que nos últimos dias.
- Que estás a fazer, Hannibal?
- Estou a arrancar os cravos. Já não suporto estas malditas flores que não me deixam trabalhar.
- Mas eram tão bonitos...
- Bonitos? Tu achas os cravos bonitos? Pois fica sabendo que são umas flores daninhas que só criam problemas. Estão a dar cabo do jardim que me tem dado tanto trabalho a construir.
- E o que vais plantar no lugar dos cravos?
- Papoilas! Quero o país inundado de papoilas para fazer os tugas felizes.
A voz crispada de Hannibal deixou Maria inquieta. Aproximou-se um pouco mais para lhe fazer uma carícia. Enlaçou os braços em volta do pescoço dele e, quando o ia beijar, reparou que os incisivos de Hannibal tinham crescido de forma desmesurada.
(Continua)

4 comentários:

  1. Os Hannibals ou Hannibais ou Vampiros têm vida eterna e se optarem por uma dieta herbívora – que no caso do vampirismo se traduz pelo consumo de sangue de animais irracionais e não de humanos– até conseguem coexistir com os humanos num ambiente harmonioso.... Será o caso? É o que se passa nos livros de Stephanie Meyer sobre vampiros!!! : ) Esta família de vampiros – os Cullens – para além destas características adquiridas (o consumo de sangue animal, etc, etc) – são de um riqueza incalculável; a certa altura a narradora diz que, só em casa, têm dinheiro suficiente para governarem uma nação!... Alguma semelhança!? : )

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  2. O regresso dos vampiros que chegam a toda a parte, pousam nos prédios, pousam nas calçadas e nada os prende às vidas acabadas... (no texto o beijo a Maria é apenas um inofensivo treino. Ou estou enganado?)

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  3. Ahahah, agora virou vampiro? OK, deve ser para entrar na onda da moda, como a questão do endividamento - chupar todo o sangue (ou dinheiro) do povinho até ao fim!

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  4. Esta sua blogonovela ainda pode vir a ser um grande concorrente dos best-sellers vampirescos da Stephenie Meyer. :)

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