terça-feira, 25 de janeiro de 2011

O ilusionista de Trapalhândia (10)

Capítulo 10: No Palácio de Belo- Além
Capítulos anteriores (aqui)
Foram de euforia os primeiros dias no palácio do Belo- Além. Maria andava numa azáfama a mudar bibelots de um lado para o outro e um dia encantou-se por uns naperons que, afiançaram-lhe, tinham sido feitos por uma bordadeira de Salazar. Não conteve a emoção ao pensar na sorte do ditador que tinha tão fiéis serviçais.Ficou longos dias a suspirar por aqueles tempos em que Portugal era um país de gente ordeira, nada comparável com os arruaceiros que agora enchiam as ruas, por tudo e por nada, para fazer manifestações de protesto.

Quando despertou ainda quis dar um salto à cozinha para arrumar os tachos mas já era tarde. Quando se lembrou disso, já Hannibal os tinha distribuído criteriosamente, entre os fiéis amigos que tinham contribuído para a sua eleição. Noites do Padeiro ficou muito sensibilizado com o seu e telefonou de imediato ao pai :
- Pai! O Hannibal deu-me um tacho de Conselheiro. É um tacho sem grande valor pecuniário, mas tem muito valor estimativo.
- Então vê lá se o guardas bem. Ouvi dizer que esses tachos são muito apreciados em Porto Rico- respondeu o ancião.
Feitas as arrumações no Palácio do Belo- Além os dias seguiram-se pachorrentos. Num final de tarde, estava o casal na biblioteca mergulhado em leituras, ( ela lia a Taras e ele a biografia de Salazar) quando Maria interrompeu o silêncio:
- Ai, Hannibal, se eu sabia que ser primeira dama era esta chatice, não te tinha deixado candidatar. Que grande pasmaceira! Não podes fazer nada para animar isto?
- Poder posso, mas também não sei bem o quê. Que sugeres Maria?
- E se usasses a bomba atómica?
- Isso está fora de questão! Essas coisas só se fazem no segundo mandato...
- Ó filho! Isto ainda agora começou e é tão chato, não sei se aguento um segundo mandato.
- E se fossemos à Ilha do Caruncho? O Jasmim é um tipo divertido arranja de certeza alguma coisa para nos entreter.
Foram… Adalberto Jasmim fez os seus habituais espectáculos circenses e o casal animou-se. Hannibal andava tão distraído e bem disposto, que nem se importou com o facto de Jasmim o ter impedido de cumprimentar os políticos do Caruncho, que garantia serem todos loucos. “São coisas da democracia, não devemos interferir”- desabafaria para os jornalistas suaves.
O efeito das férias em Caruncho durou pouco tempo. Ao fim de algum tempo o casal precisava de novas emoções. Um dia, antes de ir para férias, Hannibal decidiu animar os tugas com uma comunicação ao país, feita de improviso. Durante alguns minutos queixou-se do Parlamento de Trapalhândia. Não suportava a ideia de lhe terem tirado poderes sobre as ilhas dos Aviadores, onde o Cherne tinha servido de mordomo a Bush. Era tudo tanga, mas Hannibal precisava de qualquer coisa que o animasse antes de ir para férias.
No doce remanso da Coelha – cujo espaço aéreo resolveu interditar para que os jornalistas não percebessem que todos os dias recebia Manuela à hora do chá- teve uma discussão com Maria

- Olha lá, Hannibal. Essas reuniões todos os dias com a Manuela Rançosa já me estão a cheirar mal. Vê lá se paras com isso, antes que a Taras comece para aí a publicar fotografias e os jornalistas inventem algum mexerico.
- Estás com ciúmes, fofinha? Já sabes que não te troco por ninguém.Olha, mas se estás preocupada com os mexericos dos jornalistas, arranjo já uma solução. Vou ligar ao Amando dos Fretes.


(Continua)

2 comentários:

  1. Essa de interditar o espaço aéreo, porque estava de férias, foi mesmo uma saloiice de primeira...

    Mas enfim, no geral lembro-me bem de alguns destes episódios, mais do que caricatos!

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