quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

O falhanço da Luta Contra a Pobreza

Está a chegar ao fim o Ano Europeu de Luta Contra a Pobreza e a Exclusão. Por estes dias, a pobreza tem sido pretexto para troca de alfinetadas entre candidatos à PR e José Sócrates também decidiu entrar no desafio.
Sempre desprezei quem anda continuamente com a pobreza na boca, se serve dela de forma farisaica, mas fica à espera que a caridadezinha resolva os problemas, enquanto continua a usufruir de forma escandalosa, de prebendas pagas pelos contribuintes. Ou não se coíbe de distribuir carros e motoristas à fartazana pelos assessores, que os utilizam para a sua vida particular, com a maior desfaçatez.
Contrastando com países ricos como a Noruega, Finlândia, ou mesmo Inglaterra, onde os membros do governo não utilizam automóveis, a não ser para cerimónias oficiais, por aqui os carros distribuídos pelos gabinetes ministeriais e pelo palácio de Belém servem para levar os filhos à escola, ir jantar com os amigos, levar as esposas aos seus empregos e até a empregada doméstica ao supermercado para fazer compras.
Não tenho quaisquer expectativas que as coisas se alterem mas, em jeito de balanço ao Ano Euopeu, aproveito para lembrar que Portugal é um dos dos países europeus com maior risco de pobreza. Risco que aumentou no último ano, passando de 18 para 23 por cento nos jovens e crianças até aos 17 anos e atingindo os 22 por cento nos idosos com mais de 65 anos.
Não sendo novidade, continua a causar-me algum incómodo que, nos últimos 20 anos de Democracia,a situação se tenha sucessivamente agravado, aumentando o risco de pobreza e o fosso entre pobres e ricos. Ora, fazendo as contas, facilmente se conclui que a entrada de Portugal na União Europeia não conseguiu diminuir esse fosso. Ou seja: apesar de diariamente entrarem em Portugal milhões de euros para ajudar o país a reduzir as assimetrias com os restantes parceiros da UE, a verdade é que não o conseguimos.
Portugal não é um caso isolado. Em países como a China ou a Índia, cujo desenvolvimento económico justifica a inclusão no grupo dos que mais têm crescido e vão continuar a crescer na próxima década, têm-se acentuado as desigualdades e cavado o fosso entre ricos e pobres. Esta realidade contraria, na prática, a tese dos que defendem ser o enriquecimento dos países, uma garantia de combate à pobreza e à exclusão. `
Se o enriquecimento dos países não se traduz numa diminuição da pobreza, se a globalização não conseguiu diminuir as desigualdades e se o Estado Social é incapaz de garantir por muito mais tempo o apoio aos cidadãos, chegou a altura de repensar tudo. Neste Ano Europeu de Combate à Pobreza e Exclusão Social era preciso, em primeiro lugar, acudir aos problemas de pobreza extrema, mas tinha sido importante, igualmente, colocar o tema no centro da agenda política, levando a sociedade civil a fazer uma reflexão profunda sobre os novos pobres. Por outro lado, em vez dos sucessivos discursos lamuriosos dos governantes e das declarações factuais do PR, teria valido a pena tomar medidas para impedir o aumento da pobreza em escalões etários e classes sociais que, há uma década, julgávamos incólumes. Quer a pobreza resultante do modelo de desenvolvimento iníquo das sociedades modernas, quer a pobreza que ameaça afectar um número indiscriminado de velhos, apanhados de surpresa com a falência do Estado Social, incapaz de garantir as pensões de reforma que prometeu durante mais de 30 anos, são problemas que não podem ser ignorados.
Se o debate não se fizer, a Europa (e particularmente Portugal) irá enfrentar um grave problema.O aumento da expectativa de vida não pode significar diminuição da qualidade de vida. Voltar a olhar para os velhos como um estorvo é um retrocesso inaceitável, mas essa parece ser uma realidade incontornável, no momento de fazer o balanço do Ano Europeu de Luta Contra a Pobreza.
Em tempo: recomendo a leitura do muito bem documentado post da Ana Paula Fitas sobre este tema, que nos deve merecer uma séria reflexão.

12 comentários:

  1. Acho que fazer o mundo repensar na direcção que está a tomar, enquanto aquela "máfia" está bem assente no poleiro, será uma coisa muito complicada. Ou, pelo menos, não vejo como será possível um "repensar" pacífico.

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  2. Carlos
    Como eu gostava de classificar este post de pessimista, mas não, é apenas realista. Aliás não sei onde é que vai buscar matéria para os prometidos posts optimistas para 2011, a não ser que? O meu caro sabe.

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  3. Uma vergonha , simplesmente uma vergonha.
    nem sequer conseguiram manter os mesmos níveis, pois aumentou o número de excluídos!!

    Bom final de ano e feliz 2011 para si e para os seus, meu caro.

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  4. Tens razão!
    Há que repensar o nosso modelo de sociedade!
    Assim é que não podemos continuar...
    O fosso entre pobres e ricos está a aumentar vergonhosamente!
    É só olharmos para a televisão e lermos alguns títulos de jornais.
    Enquanto uns procuram comida no lixo, outros procuram uma toilette para o réveillon num lugar bem caro e de preferência fora do país! :-((

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  5. Por várias razões deixei de ouvir ou ler debates ou comentários de políticos porque, de facto, se traduzem apenas em palavras e não se transformam em acções. Até a forma como falam, como discursam me soa a falso com aqueles ares, aqueles maneirismos, as entoações da voz... a falta de naturalidade...

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  6. Se resolver
    rever
    este seu texto
    e retirar a expressão
    "Não tenho quaisquer expectativas que as coisas se alterem..."
    eu assino por baixo...
    É que fazer denúncia
    sem combate militante
    passa por ser
    diletante
    (e eu sei que não é. Né?)

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  7. Também estou pessimista para 2011, e este seu excelente post confirmou isso mesmo.
    Mas temos que manter e renovar sempre os nossos desejos de um Feliz Ano Novo! Até lá!

    Beijinhos

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  8. Temos que repensar o mundo, sim. Mas se calhar devemos começar por repensar a nossa própria vida. Nem só os ricos serão os culpados. Nós, os remediados, se calhar também temos que mudar. Olhar para dentro de nós e perceber qual pode ser o nosso contributo pessoal para a mudança.

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  9. Carlos , hoje não venho comentar , mas apenas desejar-lhe um BOM ANO com muita saúde e depois tudo o que de bom queira .
    Venha ás aulas de desenho , vai ver que existe um mundo não cinzento aqui em Lisboa :) e para eu dizer isto ......
    BOM ANO 2011 !!!!!!!!

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  10. CARLOS, e como diz uma canção brasi
    leira, eu repito:¨Para o mundo, que
    eu quero descer¨.

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  11. Carlos,
    Faço link num Leituras Especial :)
    Penso que vai gostar...
    ... e, sinceramente, agradeço muito a referência!
    Feliz Ano Novo, Carlos!
    Um beijinho.

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  12. Resumindo: a intenção podia ter sido louvável, mas na prática nada fizeram para minorar esses problemas, pelo contrário só ajudaram a agravá-los...

    E depois entram naquela pedinchice sistemática, como se a caridadezinha resolvesse!

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