quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

A minha Pátria é o Mundo


( este post não deve ser lido por pessoas sensíveis)
Nunca tive a noção de Pátria. Pelo menos, enquanto baseada naquele conceito abstruso e redundante que me tentaram incutir desde pequenino e se reduzia ao dever de amar o país onde nasci. Para mim, é mais importante o apelo do sangue que me corre nas veias, do que o país onde nasci. Que me lembre, apenas uma vez vibrei a cantar o hino nacional. Foi em circunstâncias que não vou agora aqui recordar, mas em nada tiveram a ver com o amor à Pátria.
Cresci a odiarSalazar e aquilo que ele representava.
Rejeitei sempre as manifestações patrióticas, o espírito da Mocidade Portuguesa e nunca tive grande orgulho em ser português. ( Desculpem-me os patriotas...) Sempre desconfiei do Estado, que nunca vi como pessoa de bem. Nunca me empolguei com a vitória de Aljubarrota, um conto de fadas com uma faceta épica, nem com as campanhas em África, em defesa da unidade nacional.
O meu herói não foi Nun’Álvares Pereira, mas sim Símon Bolívar.
A minha Pátria é o sangue que me corre nas veias e nada tem a ver com Portugal. Tem a ver com o mundo, essa "abstracção" que me apaixona pela diversidade e pelos contrastes das civilizações que o compõem, que alguns aniquilaram em nome da globalização, cujo principal escopo é a imposição do pensamento único.
Há muitos anos que me "zanguei" com Portugal. Com o mesmo ardor com que o servi, enquanto funcionário público, o desprezei no momento em que percebi que os sucessivos governos não queriam servir o país, mas apenas servir-se dele. Quando percebi que o Estado não tem palavra e faz letra morta de acordos estabelecidos com os seus cidadãos, para servir os interesses de grupos económicos estrangeiros, renunciei. Como posso servir um grupo de gente sem palavra, que num dia faz uma lei e meses depois a altera, ao sabor das suas conveniências, frustrando expectativas que ajudou a criar?
Estamos em crise? Claro que sim. Mas, mais do que a crise financeira que nos assola e miserabiliza, preocupa-me a crise de valores. Morais e humanos. Preocupa-me a saúde da democracia. Em Portugal e na Europa.Esta ausência de regras ( ou melhor, a possibilidade de o Estado as poder alterar da noite para o dia, rasgando um contrato por cujas regras os cidadãos guiaram a sua vida) obriga-me a desrespeitar o Estado. Não confundo o País com o governo que me cobra os impostos, põe e dispõe do meu salário, da minha saúde, ou condiciona a minha educação. Os governos ( sejam eles quais forem) são, no entanto, os intérpretes do Estado e os primeiros a denegrir o país. Porque não respeitam a sua História, a sua Cultura, o seu Património Natural e Arquitectónico , menos ainda a sua honorabilidade. Como cidadão que se sente usurpado nos seus direitos e no seu património, violado na sua consciência de cidadania, não me sinto obrigado a respeitar um Estado sem palavra que me rouba, rasga contratos e zomba das regras que acordou comigo, esgrimindo como justificação para o livre arbítrio, o poder que lhe foi conferido pelos cidadãos em eleições democráticas.
Não vejo razões para celebrar o dia de hoje. Pior ainda, não consigo sentir nem um leve frémito de emoção quando me dizem que vivemos em democracia e “graças a Deus” somos independentes. São duas mentiras de uma assentada, propaladas com enorme desfaçatez que me fazem lembrar Goebbels, o ministro da informação de Hitler, cuja máxima era “ uma mentira muitas vezes repetida torna-se verdadeira”.
Portugal não é a minha Pátria. É um pacto que assinei com o Diabo no dia em que nasci e aqui me mantém como refém. Estou-me marimbando para esta independência da treta. O que eu gostava, mesmo, era de celebrar a independência dos cidadãos do mundo. Era de comemorar com eles a libertação do jugo deste capitalismo selvagem que nos oprime. Este modelo de barbárie, tão ou mais violento do que o pós Revolução Industrial, assenta no poder financeiro e não só tem magníficos intérpretes nos governos, como acérrimos defensores numa comunicação social servil que troca a sua verticalidade por meia dúzia de fofocas que façam aumentar as tiragens.
Por muito que me encante com as maravilhas naturais deste país, não posso amar uma Pátria que prossegue valores em que não me revejo.
Em tempo: Antes que alguém me pergunte porque não volto a emigrar, lembro que já expliquei isso num post escrito em Outubro. Não foi por falta de vontade,. Não foi por falta de oferta de trabalho. Foi apenas porque não posso abandonar quem, na sua provecta idade de 96 anos, se viu privada de quem cuidava dela e agora precisa de mim.

18 comentários:

  1. Pois, pois, isso é muito romântico! mas o que tem a ver as pessoas que servem o país com a terra onde nascemos? Os valores que aprendeu tem alguma vez a ver com o Irão, ou com o Cazaquistão ou com o Nepal?

    Saudações!

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  2. Carlos
    Não assino por baixo de cruz. Porque há sentimentos expressos neste seu post que nunca tive. Mas cada vez mais somos postos perante as interrogações que o meu caro aqui trás.
    Tambem me interrogo e já hoje (muito ligeiramente) escrevi sobre isso. Orgulho de ser Português, porque razão havemos de o ter, quando deixámos que uns quaisqueres mangas de alpaca sentados em Bruxelas, decedissem o tamanho, até dos pepinos e tomates que podíamos ou não consumir?
    O seu post, pelo menos a mim pôe-me a pensar.

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  3. Ao contrário do que diz, entendo que este post deve ser lido por pessoas sensíveis, pois só estas, em minha opinião, que de tal não passa, poderão entender o que escreveu, concordando ou não.
    De acordo com a noção de pátria. Nunca consegui cantar o hino de principio ao fim, e, muito menos com ele alguma vez ter vibrado. Nem com a salazarenta “Angola é nossa”, de outros tempos. ..Jamais permiti à farda da Mocidade Portuguesa a violência de me ter vestido duas vezes. Uma chegou!
    Não sou dado a ódios, talvez por isso não possa afirmar com toda a clareza, que odiei Salazar, mas votei-o sempre ao desprezo com todas as minhas forças. Tentei sempre que os mais próximos de mim, familiares e amigos, igualmente o fizessem. Felizmente, com êxito.
    Nunca teve grande orgulho de ser português, diz. Terá tido, ou tem, algum, presumo. Mas isso é do seu foro intimo, em nada perturba, pelo menos a mim.
    “A minha pátria é o mundo”. A minha não. Desde que me conheço apenas tenho uma – a minha língua, a língua com que nasci, a língua portuguesa. Com ela me fiz, com ela encontrei outras, passando a conhece-las e dar-me com elas. Foi com ela que abri as janelas para o mundo. Mundo de que não gostei, nem gosto. Por isso não fiz dele a minha pátria. Não andei pelos quatro cantos do mundo, mas quase. Continuo à procura.
    Heróis? Não tenho, nunca tive, nem daqueles das revistas aos quadradinhos, como se dizia no meu tempo de menino leitor.
    Patriotas? Seja lá o que isso for, sempre os houve e haverá. Creio que Símon Bolívar foi um patriota quando se empenhou na luta de libertação da “América espanhola”, dela liberta querendo fazer a sua pátria. Objectivo não atingido por se lhe ter deparado, à volta, um vazio de valores morais, e forças externas opondo-se-lhe, que esvaziaram o seu sonho. Justamente o que acontece em Portugal, como o Carlos refere. E por toda a parte deste mundo de que não gosto, acrescento.
    O maior, único talvez, inimigo à formação de uma pátria livre, que possa ser a minha, é, sem dúvida, o capitalismo. Assim só, capitalismo. Selvagem sempre o foi.
    Desculpe o ter-me alongado.
    Um grande abraço.

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  4. Carlos, Já me conhece e sabe como eu sou a sintese do qque pensa o Meu Contrário em conflito, quase permanente com a Minha Alma. Não fosse a intervenção desta o meu discurso seria o seu, Mas Minha Alma diz-me: "sou Lusa, tens sangue mouro e coração celta, que queres tu ser?". Eu fico um minuto sem responder... depois vou alvitrando: "Que se cumpra a Jangada de Pedra" e que o resto que vá à merda!
    (desculpe a expressão, mas não me ocorre outra nesta ocasião...)

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  5. Carlos, queria saber: esse desamor não seria mesmo devido aos sucessivos governantes?
    Que, como você mesmo diz, não respeitam a sua História, a sua Cultura, o seu Património Natural e Arquitectónico , menos ainda a sua honorabilidade. Não é porque os governos não respeitam que isso não exista, que você acha?
    Sabe que também sou apaixonada pela diversidade e pelo contraste de civilizações que compõem o mundo?
    Isso muito me encanta, e aqui no Brasil, gosto de observar a diversidade que compõe esse país enorme... Parece que é formado por inúmeros países menores, tão diferentes são suas pessoas, culturas, ideias, histórias, etc....

    Bom texto, excelente reflexão, meu querido

    Carla

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  6. Não sei se é do sol... do mar... sei que há países onde eu não me ia sentir bem... e obrigarem-me a sair daqui... sei que me doía... porquê? nem sei bem...
    Talvez... o mesmo que sente uma planta transplantada... podia pegar... ou não ;)

    Bjos

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  7. Como não sou uma pessoa sensível, li este post!

    O Carlos pode pensar e escrever o que quiser sobre a nossa pátria.
    Só tenho uma pergunta:
    Qual é o país que tem os valores com que o Carlos sonha desde criança?
    Já encontrou nas suas viagens o Paraíso à face da terra?
    Diga-me o nome de um país, onde tudo é um mar de rosas, onde não há injustiças, onde o povo é completamente livre e feliz; então, faço as minhas malas, abandono o país da Merkel, e vou consigo até lá.
    Está bem?!

    O Carlos é um romântico, um sonhador, um idealista.
    Claro que é muito bom, que haja, embora poucas, pessoas como o Carlos, que querem modificar o mundo. Até agora, nem Jesus, nem o Marx, nem o Che, nem o Fidel, nem a Merkel o conseguiram!!!

    Saudações!

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  8. Tal como deixei no post abaixo, esta independência emprestada, só serviu alguns..., a questão é que não é politicamente correcto dizê-lo, a maioria das pessoas choca-se, não querem ouvir, e é natural, ninguém gosta de se sentir enganado.

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  9. Carlos, partilho com muitas das ideias que aqui nos expressa. Podia-mos até formar um "partido" - Cidadãos do Mundo. A hipocrisia, a injustiça, a fome de muitos devida à fartura de outros tantos... Evito até pensar nas sociedades e seus sistemas porque me sinto impotente e descrente. Olhando para a história, parece que nada funciona: socialismo, comunismo, democracia, liberalismo, capitalismo, etç. - tudo parece falhar - Será a humanidade um absoluto projecto falhado?
    Amor à Pátria : até posso entender e respeitar quem diz que o sente, apesar de me dizer pouco ou nada - parece-me um conceito demasiado limitado, (a mim parece). A felicidade e bem estar não depende por si só do sitio onde estamos, mas do que nos fazem sentir nele. Sou mais pelo amor ao mundo, ao outro, pela pura ilusão e romantismo de um mundo de todos e para todos! Sonho porque na realidade todos os sistemas sucumbem.

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  10. Subscrevo inteiramente este post.
    Tal como Pessoa, a minha pátria é a língua portuguesa.
    Irrita-me a atitude nacionaleira do nosso povo, a qual é irrealista e duma ignorância atroz.

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  11. Como eu me revejo neste post!...
    Achei interessante a etiqueta "país das maravilhas"- sentido de humor, acima de tudo!
    Beijos, uma boa semana.

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  12. Ouvi há tempos uma frase que se pode aqui aplicar, a propósito ou a despropósito:

    “Os ingleses adoram ser ingleses mas odeiam a Inglaterra. Os portugueses odeiam ser portugueses mas adoram Portugal”.

    Não sei se é totalmente verdade, mas cada povo tem o país (ou a pátria) que merece.

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  13. A viver longe de Portugal, como o Carlos bem sabe, num local que tão bem conhece, não sei se sou patriota.
    Sei que o sangue que me corre nas veias é português.
    Mas esse facto não me confina às fronteiras do rectângulo, do rochedo.
    Longe disso.
    Mas, ao contrário de malta que para aqui vejo, não seria capaz de adormecer português para acordar, nestes casos, chinês.
    Por puro oportunismo.
    Acho que não é patriotismo.
    É o sangue.
    E a dignidade.

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  14. Costumo dizer que a minha Pátria é aquela onde me tratam bem.
    Estou de acordo e percebo os seus porques, Carlos.
    Qualquer "amargo" que alguém possa sentir, pelo texto que escreveu, deveria ter curta duração, pelo doce final do mesmo. Comoveu-me muito, embora perceba que não foi essa a sua intenção.

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  15. Quase, quase que assino em baixo do que escreveu.
    E sou uma pessoa sensível, que faria se não fosse....

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