segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Funcionário público é parasita?

Fica bem no pensamento da nossa direita esquizofrénica, culpar o funcionário público pelos males do país. Para alguma gente que por aí escreve em blogs e colunas de opinião, o funcionário público é um parasita que vive à custa dos impostos, desbaratando o dinheiro que os funcionários da coisa privada preferiam gastar em viagens às Caraíbas e festas de espavento.
O funcionário da coisa privada esquece as prebendas de cartões de crédito sem plafonds e os passeios em automóveis topos de gama pagos pelos consumidores que compram os produtos e serviços das suas empresas a preços muito superiores ao seu valor real, para lhes alimentar os luxos.
Os impolutos funcionários da coisa privada, sejam meros respigadores ou altos funcionários, esquecem que todos os dias, quando depositam os filhos na escola pública às 8 da manhã e os resgatam às sete da tarde, obrigando-os a cumprir um horário de trabalho superior ao seu, deveriam estar agradecidos às funcionárias que os recebem de manhã, à porta da escola, com um sorriso, que os segue atentamente durante os tempos de recreio e tem sempre um gesto ou palavra de conforto, quando choram.
O funcionário público não é o mangas de alpaca, calaceiro avesso ao trabalho que muitos portugueses gostam de caricaturar.É o professor que se esforça por dar aos seus filhos uma formação que lhes permita singrar na vida, o director que, preocupado com o sub rendimento escolar de algum aluno convoca os pais para reuniões- a que a maioria falta- onde os procura alertar para as disfunções familiares e sociais que podem influenciar o rendimento educativo dos seus filhos.
O funcionário público é a educadora de infância que substitui as mães atarefadas na sua vida profissional, sem tempo para ouvir os queixumes dos filhos, o médico ou enfermeiro que socorre a criança que teve um acidente na escola, ou o polícia que a livrou de um assalto.
O funcionário público é o homem que nos recolhe o lixo todos os dias à porta de casa, o que ouve com paciência de Job os queixumes de gente desprevenida que se endividou sem nexo e agora procura que alguém a salve dos glutões, exigindo ( quantas vezes mal educadamente) uma solução para a sua incúria.
O funcionário público é aquele que passa os dias a trabalhar na defesa dos direitos dos cidadãos, propondo legislação que permita construir uma sociedade mais justa, ou se esforça a produzir informação sobre ambiente e as armadilhas que a sociedade de consumo reserva aos cidadãos.
O funcionário público é o jurista que os aconselha em momentos de aflição, é o obreiro de um país mais civilizado e mais justo, de que todos nos deveríamos orgulhar. É o funcionário do INEM que nos socorre num momento de aflição, o médico do serviço de urgência, o recepcionista que preenche a ficha de utente.
É contra estes cidadãos que a sociedade portuguesa afila os dentes, exigindo o seu despedimento e a redução dos seus salários. Será justo?

23 comentários:

  1. Carlos
    Estou de acordo com o manifesto.
    Embora me pareça que alguma animosidade que se sente na sociedade em relação aos funcionários publicos,´foi originada por actos que todos conhecemos efectuados por uma parte desta camada profissional. Pelo que me parece não se trata de um problema da generalidade, mas de uns tantos aqui e ali, que ao longo dos tempos se sentiram assim como que de uma "espécie superior" mas no geral o manifesto tem o meu acordo

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  3. Caro Carlos,
    participarei nesse movimento de valorização da função pública. Acho que o seu texto é oportuno e apenas lhe acrescento uma perspectiva de apreciação à vaga de textos opinativos e notícias até, visando desacreditar o funcionário público. Tal campanha é de extrema utilidade como suporte à anunciada privatização. Essa campanha não deve ser separada do discurso do "Estado pesado"; "Estado gordo" ; "Redução do peso do Estado"; "Redução das gorduras do Estado" etc. A melhor maneira de atacar o serviço público é fazer acreditar que quem nele trabalha é calão, parasita e que "vive acima das suas possibilidades", à nossa custa!

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  4. É costume dizer que temos a fama e não temos o proveito. Sinto por vezes essa desvalorização em relação ao funcionalismo público e se tenho direitos tenho muitos mais deveres que a função exige e a mim cumpre-me valoriza-la, nem que para isso tenha de colocar o nariz de palhaço.

    Se me permites irei imprimir e afixar o texto no gabinete (o de quatro paredes).

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  5. Como funcionária pública só tenho a dizer."Obrigado".
    Pela 1º vez estou a ler um post, reportagem, notícia, que não critica os fuincionários públicos.
    Obrigado Carlos

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  6. Amigo Carlos, obrigado por este texto, muito obrigado.
    Beijinhos

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  7. É o que acontece na caça às bruxas. Aponta-se o dedo para o mais fraco, para desviar atenções. No entanto, na minha opinião, deveriam mudar-se muitas coisas no sector público, coisas essas que vão desde compadrios a falsos concursos, que terminam em pseudo-profissionais sem a menor aptidão para o cargo que desempenham, entre tantas outras coisas. MAS, o que importa realmente referir, é que este não é um problema exclusivo da função pública, mas sim do profissionalismo português. O que se passa ali, é o que se passa em todo o lado.
    Quanto às situações que aponta, se já fui vítima da incompetência de um funcionário ou outro, foram bem mais as vezes em que vi funcionários serem mal tratados e insultados, repetidamente, por gente completamente ignorante. É muito triste este Portugal.

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  8. Carlos,

    Como funcionária pública, não posso deixar de agradecê-lo por este efusivo manifesto. Concordo com tudo o que você escreveu, acho até que as pessoas têm é inveja mesmo, rsrsrsrs. E querem nos culpar por seus próprias gastos excessivos e sistemas de vida que os conduzem à bancarrota. Cada um tem suas dificuldades, mas enxugar a máquina estatal a custa de redução de salário de trabalhadores não é nem um pouco justo. São outras as formas de enxugar o gasto do Estado, bem o sabemos.
    Muito lúcido o seu artigo, caro Carlos

    Beijos

    Carla

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  9. Caro Carlos,

    Fiz link para "A Carta a Garcia".
    Obrigado.
    OC

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  10. Eu quero que quem denigre o funcionalismo público se escafeda nas profundas da sua ignorância, do seu preconceito e da sua estupidez!!!

    Boa semana.

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  11. Não foi por acaso que esta ideia surgiu, desde sempre muitos funcionários públicos se acomodaram, porque sabiam que o emprego estava garantido, a avaliação que era feita todos os anos era praticamente igual para todos.Daí a generalizar foi um pequeno passo.
    No entanto gostei imenso e concordo com o que escreveu, "correu em sua defesa porque, felizmente, há muitos que a merecem.

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  12. Subscrevo e assino tudo o que escreveu! Aliás magnificamente como sempre.
    Um texto a que não tiro uma vírgula!
    Parabéns!

    Beijinhos e boa semana

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  13. Muita da gente que blasfema contra os funcionários públicos, sofre de estrabismo social, isto é, coloca no mesmo saco o fncionário da Repartição de Finanças ou da Câmara Municipal e o gestor da empresa pública, o vogal do conselho de administração do banco A, B, ou c, ou o presidente do organismo independente, c, d, ou e.
    Mas não é assim, como todos nós sabemos muito bem. Seria bom que alguém, de alguma forma, explicasse a esse POVO como são as coisas

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  14. Eu faço parte de uma direita esquizofrénica, mas NUNCA culpei o funcionário público pelos males do país, pois tão parva também não sou.
    Desta vez, estou 100% de acordo com este seu EXCELENTE artigo, que vou mandar por @-mail a diversos funcionários públicos (a maior parte professores), que também vão gritar como eu:

    BRAVO! BRAVO! BRAVO!

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  15. O cidadão-eleitor tuga ataca o funcionário público enquanto a elite neoliberal ataca o Estado.
    Completam-se...

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  16. Funcionários públicos (ou privados) há bons, maus e assim assim, no que toca a competência. As generalizações são sempre perigosas, pela injustiça de pagarem um pelos outros, mesmo que em maioria... ;)

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  17. Este país sempre teve de ter os seus bodes expiatórios para esconder a sua própria culpa.

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  18. Verdadeira "Ode ao Funcionário Público"...No fundo, o que todos invejamos é o emprego para a vida, a força reivindicativa, as melhores condições de reforma que o regime geral, os benefícios da ADSE até agora em vigor e por aí fora. No fundo no fundo, todos queríamos ser funcionários públicos.

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  19. Trabalhei no sector empresarial do Estado e em empresas privadas, parasitas encontreios por todo o lado.

    A administração pública essa está cheia de senhores que se esqueceram de tudo quando foram nomeados alternadamente pelo PS ora do PSD para funcionários públicos. Quando a mama se lhes acabar contam sempre com o sector privado, e gira, gira a hipocrisia.

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  20. É fácil bater no funcionário público, Carlos.
    Em Portugal e não só....

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  21. funcionario publico vagabundo eh pleonasmo

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  22. Eu também tenho muita, mesmo muita pena deles! O comum dos mortais trabalhamos parapagar as suas férias nas Caraibas ou no raio que os parta. Eu tenho de trabalhar o ano todo para poder pagar o mês que supostamente tenho de férias. Em fim até quando isto vai durar!
    Adorei o blog.
    Beijinhos duma estrangeira a viver em Portugal e a trabalhar para um Portugal melhor e não para os funcionárias parasitas (embora haja algumas excepções).
    Viva Portugal!!

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  23. Eu também tenho muita, mesmo muita pena deles! O comum dos mortais trabalha para pagar as suas férias nas Caraibas ou no raio que os parta. Eu tenho de trabalhar o ano todo para poder pagar o mês que supostamente tenho de férias. Emfim até quando isto vai durar!
    Adorei o blog.
    Beijinhos duma estrangeira a viver em Portugal e a trabalhar para um Portugal melhor e não para os funcionárias parasitas (embora haja algumas excepções).
    Viva Portugal!!

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