terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Cartão de Boas Festas para o senhor Zé

Aviso: Não sei se vou ter tempo, este ano, para enviar os habituais cartões de boas festas. No entanto, não queria deixar de mandar um ao sr. Zé. Como, apesar da crise ( ou por causa dela...) pouco mudou, não vi necessidade de fazer grandes alterações ao que lhe escrevi no Natal de 2008.
Estimado senhor Zé
Permita-me que personifique na sua pessoa e na oficina de reparação automóvel “ Brisas de Enxofre”, de que é proprietário na Musgueira (Norte), o cartão de Boas Festas que gostaria de enviar a alguns pequenos empresários do nosso país. Refiro-me, obviamente, àqueles que, tal como o meu amigo, andam há anos a clamar contra o Estado por se intrometer nos vossos negócios e a quem acusam de “chulo” por ter a ousadia de vos exigir o pagamento do IVA.
Não falo das contribuições para a segurança social porque a sua empresa, como muitas outras neste país, é um pequeno negócio familiar onde, para além de si e do seu inseparável calendário da Pirelli, trabalha apenas o seu filho, o genro, o cunhado e agora um sobrinho que veio tentar a sorte para Lisboa e a quem o meu amigo, com a generosidade que todos lhe reconhecem, estendeu a mão “por um tempo”, para que ele possa aceder ao subsídio de desemprego, assim que a lei o permita.
“ Depois , com o subsídio de desemprego, o rapaz sempre vai ter tempo para ver se arranja um trabalho, coitadito!” – dizia-me você em 2008.
Tem toda a razão, sr. Zé. A vida é tal qual diz “ladrão que rouba a ladrão…”
Lamento o azar do seu sobrinho, sr. Zé... com a crise foi-se o emprego e o subsídio e lá teve ele de emigrar para a Suíça... Uma janela de oportunidade que se abriu para os dois. Ele vai trabalhar e o meu amigo, seguindo o exemplo do seu amigo Isaltino, não tarda nada está a depositar uns dinheiritos na conta do seu sobrinho, não é verdade? Espero é que já lhe tenha emprestado dinheiro para comprar o táxi, porque é sempre um bom investimento.
Todos reconhecemos a sua generosidade, senhor Zé. Por isso não lhe levamos a mal se, por engano, debita a um cliente um filtro de ar novo, quando afinal o que lá colocou tinha sido subtraído a um carro estacionado ao relento, numa rua da Alta de Lisboa. É por isso que compreendo todos os pequenos empresários, como Você, que clamam contra o Estado por não os deixar ganhar a vida “honestamente”. Como o seu amigo Joca, que tem uma frota de táxis com os taxímetros por homologar, porque aquilo é uma “despesona”. Isto para já não falar da D. Alice, da lavandaria “Enxota Moscas”, que tem uma empregada a quem paga todos os meses em dinheiro “vivo”, sem direito a recibo nem descontos, ou do Zeca estucador que joga consigo à sueca , cuja especialidade é perguntar aos clientes “ quer o trabalho com ou sem IVA”?
Tem razão, já me esquecia da Almerinda do café “O Sol quando nasce é para todos” que, pensando no interesse dos clientes, só paga aos seus fornecedores metade das entregas diárias mediante factura, evitando o pagamento de IVA no remanescente. Pronto, já estava mesmo a ver que me ia falar da Anabela da retrosaria! Coitada da rapariga, aquilo não está a dar nem para tremoços, porque razão é que ela, sendo proprietária da loja, havia agora de prescindir do subsídio de desemprego? Um disparate! Quem a acusa de oportunista são alguns invejosos como o Abel da tasca onde o meu amigo joga à sueca. Aquilo é só despeito por ter sido apanhado pela ASAE a vender vinho a martelo. Claro que ele já arranjou solução e agora , para compensar, é vê-lo correr todos os dias para os supermercados a comprar, a metade do preço, os produtos com etiqueta cor de rosa, que depois vende aos clientes fora de prazo, mas isso não tem importância nenhuma. Ele ainda outro dia me disse que já experimentou dar alguns daqueles produtos aos gatos e que, exceptuando uma “caganeirazita”, não lhes viu nada de anormal.
É preciso ser-se muito esquisito para exigir que os salgados, os sumos, ou a carne para os pregos e bifanas estejam dentro do prazo. Isso não passa de mariquices de gente fina, sr Zé!
Só lhe digo uma coisa. Está cheio de razão! Esses pindéricos que pagam o IVA, o IRS e descontam para a segurança social são uns parvos. Os pequenos empresários como o meu amigo é que interpretam à risca as regras da concorrência. Há dois anos o Estado era um empecilho que só servia para "roubar". Há dias, inflamado, exigia apoios do Estado para evitar a falência.
Aprecio a sua coerência, senhor Zé. É por isso que, neste Natal, não quero deixar de lhe dizer que apoio inteiramente a sua, aliás vossa, luta. Com a crise que anda por aí, o Estado tem de dar uma mãozinha, senão vai tudo à falência e vai ser uma desgraça!
Soube, pela Emilinha bordadeira, que o senhor Zé está muito esperançado no ano de 2011. Ao que ela me contou, o senhor já se inscreveu no curso "Novas Oportunidades" que o Estado lançou para empresários. Parece que está a contar aprender por lá a colocar os seus lucros em "off shores", como fazem os grandes empresários. Não o quero desanimar, senhor Zé, mas com a crise que por aí vai não me parece que isso faça parte da matéria. Se, quando terminar o curso, se sentir desiludido, por não ter aprendido novas formas de ludibriar as finanças e decidir fazer uma manifestação a pedir mais apoios ao Estado, conte comigo!
O Estado tem de apoiar os desfavorecidos. Como já faz com os pobres dos banqueiros, coitaditos, que tiveram aquele azar … Bem, mas sobre isso eu vou mandar um cartãozinho destes a outra pessoa, se não me levar a mal...
Um bom Natal e um Feliz 2011, com muitos apoios do Estado. Para si e para os seus colegas. Vocês merecem, porque dão uma boa imagem do País! Força, senhor Zé!
PS: Há dias o senhor dizia-me que queria fazer uma surpresa à sua esposa no Natal, mas não sabia como. Deixo-lhe aqui uma sugestão. Vá com ela até ao Rossio e divirtam-se...

7 comentários:

  1. Um sentido de humor sarcástico muito oportuno!
    Todos nós lidamos com pessoas como as que retrataste...

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  2. Não tinha lido o ano passado, portanto, adorei!

    Podes continuar, que há por aí mais uns Zés a precisarem de uns cartõezitos... Sei Lá!

    Beijoca

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  3. Nossa!
    Quie sugestão bacana!
    com carinmho Monica

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  4. Ao Rossio? Com esta recomendação ao senhor Zé lembrei-me do seguinte, quando num dos seus textos falou no "Luna Park" em Lisboa, não sei bem porquê, pensei que falava "brincando". No sábado andei na passeata e fiquei estarrecida...a beleza do Rossio foi-se, aquela pista de patinagem mal plantada entre a fonte e a estátua brada aos céus, será que vai ficar lá até às calendas?

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  5. Quem é que fala em alguns Zés? Apesar de neste caso as estatísticas faltarem e falharem, são bem mais de 25%. Não contando com os Zés há os Manéis espertos que pensam que ganham por não pagarem IVA. Acabam de pagá-lo depois nos produtos alimentares, porque ele de algum lado tem de vir. Assim como os que não querem pagar portagens nas falsas SCUT´s, acabam por gastar mais dinheiro em combustível nas alternativas, além de pagarem também mais impostos, porque as concessionárias têm o seu garantido, acabam por pagar de outra maneira.
    Ainda há farmácias que perguntam se quer recibo. Quando alguém diz que não quer, olho logo para ele, e penso logo que me está a roubar. E há ainda a maioria que não põe o nome, o que permite que a fact/rec. seja utilizada por quem mais proveito tire dele. Mas pior ainda seria se acabassem as deduções no IRS, então é que era um fartar vilanagem nas farmácias. Porque apesar de haver algum controlo informático, seria um ver se te avias, a fabricarem medicamentos para venderem sem factura.
    Também há os que sempre reclamaram que tinha reformas pequenas mas gabavam-se de descontar o mínimo que
    pudessem para a S.Social. Se não fossem as melhorias alguns quase nem tinham direito a reforma.
    No tempo do cavaco para beneficiar muitos amigos, além dos retornados, podia-se reformar uma pessoa com apenas três anos de inscrição e apenas alguns meses com uns dias de descontos, no caso de Invalidez e cinco anos no caso de Velhice. Fora os que compraram reformas pagando uns anos de retroactivos com base no salário mínimo nacional, na altura. Ele soube tão bem o que fez que uns dias antes de sair do governo publicou uns quantos D/L que alteraram isso e até passou a afectar uma % da receita a determinada despesa, apesar disso não servir para nada, porque sai tudo do mesmo bolo.
    Portanto autores e comentadores de blogues peçam facturas e alertem consciências não critiquem só. Directa ou indirectamente acabam sempre por pagar, e não venham depois queixar-se e exigir que o Governo faça o que compete aos cidadãos.
    Bonito postal sr. Carlos, "sorrindo a porca da vida leva-se muito melhor", já dizia o Alegre Sileno.
    E já agora não fale em grandes empresas, porque é pecado. Diga só
    médias, pequenas e micro empresas, incluido as sociedades unipessoais.

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  6. Óptimo!
    Este poste é com ou sem recibo?...
    ;)

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  7. Adorei... só tenho pena que o Zé não leia o postal lol

    Bjos

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