quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Boas e más ditaduras

As ditaduras militares latino-americanas foram sempre aceites com alguma compreensão pela direita europeia e entusiasticamente apoiadas pelos Estados Unidos e pela Igreja Católica. Nunca os ouvi condenar a censura, os crimes hediondos das ditaduras militares do Chile ou da Argentina, as torturas, a subjugação dos povos indígenas. Pelo contrário, ouvi-os respirar com algum alívio quando Pinochet conseguiu escapar às malhas da justiça, com o seu velado apoio.
Quando os países latino-americanos começaram a tentar libertar-se das ditaduras, a imprensa ocidental começou logo a encontrar ditadores em cada um dos líderes democraticamente eleitos. Não me consta que Chavez tenha torturado e mandado matar os seus adversários políticos. O mesmo não se pode dizer de Uribe, o aliado dos EUA, que perseguiu e mandou matar vários sindicalistas. Não li uma linha sobre isso na imprensa portuguesa.
Curiosamente, também se calou poucos dias depois de uma trupe de militares ter expulso o presidente das Honduras, mas deu grande relevo ao encerramento de algumas rádios locais, ordenada por Chavez.
A Rádio Federal de Buenos Aires divulgou há tempos uma extensa lista de canções, cuja difusão foi proibida pela ditadura militar. Nem uma linha na imprensa portuguesa. Interessa-me pouco a liberdade de imprensa, quando vejo a morte de pessoas que me são queridas ser escamoteada, ou branqueada, com o conluio silencioso da imprensa nacional.
Ou quando não dá o devido relevo ao facto de as grandes multinacionais do desporto , como a Nike ou a Adidas, terem escrito a Hillary Clinton, pedindo “a restauração da democracia nas Honduras” quando perceberam que o apoio aos golpistas lhes estava a provocar incomensuráveis prejuízos.
Não faltam relatos sobre as sanguinolentas ditaduras latino-americanas mas, curiosamente, alguma imprensa portuguesa, especializada no copy paste do que se passa além fronteiras, insurge-se contra pretensos ditadores bolivarianos, cujo único crime é pretenderem libertar os seus povos do jugo americano e da exploração de multinacionais pouco escrupulosas.
Corre-me nas veias sangue de vítimas das ditaduras latino-americanas. Conheci, pessoalmente, alguns dos desaparecidos durante a ignóbil ditadura argentina, que enchia helicópteros com dissidentes, para os lançar nas águas do Atlântico, ao largo de Península Valdez. Isso impressiona-me muito mais do que o encerramento de algumas rádios locais. Penso que aos latino-americanos, também. Não me refiro aos imigrantes, descendentes de europeus, que para lá foram fazer a sua vida. É mesmo dos latino-americanos que falo.

15 comentários:

  1. Um texto claro, calmo e não panfletário
    Um texto necessário, lembrando-me outras situações e a minha primeira leitura, há muitos anos: "A Guerra das Bananas"...

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  2. Uma leitura diferente da mesma situação politica nos estados Latino.Americanos.
    Pior um pouco parece-me ser a distorção que fazem das notícias vendendo-nos gato por lebre.

    Lamento que a imprensa nacional seja tão limitada e submissa ao poder politico.

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  3. Nem sequer se trata da prática desonesta do "duplo padrão", porque não é possível comparar as situações.
    Os capatazes ao serviço das "boas ditaduras" sabem o que fazem e quando fazem.

    Nota. Aguardemos o desfecho do anunciado julgamento em Paris dos biltres chilenos.

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  4. Caro Carlos,
    Palavra por palavra, aqui tem o meu assino por baixo!
    O sangue mouro e a alma africana que, suspeito, me correm nas veias, não podia deixar de estar de acordo.
    Um abraço

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  5. Há boas ou más ditaduras? Vivi numa de direita....não gostei. Vivi numa de esquerda....não gostei. Qual delas a pior?!!!! Ditaduras más ou boas? Não! Ditadura..não!!! Venha ela de onde vier.

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  6. Anda um espectro pela Europa - o espectro do Comunismo. Todos os poderes da velha Europa se aliaram para uma santa caçada a este espectro, o papa e o tsar, Metternich e Guizot, radicais franceses e polícias alemães.
    Onde está o partido de oposição que não tivesse sido vilipendiado pelos seus adversários no governo como comunista, onde está o partido de oposição que não tivesse arremessado de volta, tanto contra os oposicionistas mais progressistas como contra os seus adversários reaccionários, a recriminação estigmatizante do comunismo?

    O Manifesto (do Partido) Comunista
    Friederich Engels e Karl Marx – 1848


    Não é preciso ir tão fundo na teoria, nem tão longe no tempo. A prática encarregou-se de comprovar que a “santa aliança” do séc. XIX perdura até aos nossos dias. Este texto, traduzindo para os dias de hoje a realidade de então e alargando-a a outros continentes, mantém-se actual.

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  7. Talvez a direita européia pense que atirar pessoas de aviões e helicópteros seja esporte olímpico, ainda patrocinado por alguma marca famosa.
    Do jeito que o mundo e a imprensa vão, não duvido nada.
    Mesmo aqui no Brasil, aonde também tivemos torturados políticos, é tudo muito pouco se comparado à Argentina.Talvez os torturados aqui fossem pouca coisa mais benevolentes.
    Se muitos ainda defendem que o holocausto não existiu, o que dizer que torturas e mortes na América Latina? Na verdade, só quem traz nas veias e no coração essas marcas é que pode aquilatar o tamanho desse disparate.

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  8. Acabei de ler o comentário do zecaparafuso e concordo com ele em todos os pontos e vírgulas, embora ele não as tenha usado.
    Maior ou menor, com mais ou menos conseqüencias, toda ditadura é ruim e algumas são bem piores.

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  9. Concordo totalmente com as tuas posições, Carlos! Como podem os EUA ficar tranquilos ante a possibilidade de verem países, que exploram e controlam, fugir às suas garras e procurar o seu caminho? Mas aquilo vai, e as vítimas incontáveis de crimes impunes serão vingadas pelo menos com uma vida digna e independente dos seus descendentes e amigos!
    Bem hajas, com as tuas chamadas de atenção!

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  10. É o business, o maldito business que tudo emporcalha e tudo aceita desde que lhe comprem os feijões. A imprensa nacional, muitas vezes nem no copy/ past são competentes, quanto mais virem agora desenterrar pecados velhos...

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  11. Esta das boas e más ditaduras faz-me lembrar Cavaco a falar em melhorar a qualidade da nossa Democracia como se estivesse a falar de uma peça de carne.
    Para mim não há dúvidas... há ou não há Ditadura, há ou não há Democracia... o resto, são... conversas da treta ;)

    Bjos

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  12. Revejo-me no seu texto

    mesmo considerando que as ditaduras económicas possam tantas veazes estar disfarçadas de democracias políticas

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  13. Não acrescento uma linha, sabe o que penso.

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  14. Não boas ditaduras, Carlos.
    Seja onde for, sejam de esquerda ou direita, são todas más.
    Muito más.

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