sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Alkimias de Outono

( cenário: Figueira da Foz, numa tarde soalheira de Outono)
O nome ( Alkimia) sublinhado pela palavra “creperie” chamou-me a atenção. Vinha mesmo a calhar um crepe àquela hora tardia para almoçar e ainda temperana para a janta. Entrei, resoluto. A lista contemplava apenas meia dúzia de ofertas. Variedade escassa para uma “creperie”, mas enfim... decidi-me por um crepe tropical ( fiambre queijo e ananás) .
A proprietária, senhora idosa, franziu o sobrolho e perguntou:
- Não prefere um Florestal?
Remirei a lista, mas os ingredientes não me despertaram qualquer salivar . As papilas gustativas mostravam-se indiferentes à proposta.
- Não, prefiro mesmo o Tropical.
A sexagenária hesitou e depois, enfrentando-me “olhos nos olhos” disse de sua justiça:
- Esse não lho posso fazer. Sabe, tinha que abrir uma lata de ananás e depois, se não vierem mais clientes pedir um igual , fico com a lata aberta e tenho que a deitar fora. É muito prejuízo!
Apreciei a sinceridade da senhora ( poderia ter dito simplesmente que não tinha ananás e o assunto ficava por ali). Optou por ser sincera mas, ao mesmo tempo, pôs-me a reflectir sobre a realidade dos negócios familiares em Portugal. Falta profissionalismo, sobra ganância e subsidiodependência. Não é assim que vamos lá...

9 comentários:

  1. Carlos
    Tambem há a outra face da moeda. Imagine que aceitava a proposta da senhora e fica a gostar.
    A mim aconteceu-me. Carne de Borrego e afins, nem pensar. Isto até perto dos 30 Anos. Um dia cheio de fome parei num restaurante em Monte-Mor-o-Novo. Áquela hora só ensopado de Borrego. A fome era tanta que tive que aceitar. Adorei e fiquei fã. Ainda hoje.
    Há coisas.

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  2. A sinceridade da senhora até é de louvar, mas eu também acho que assim não vai conseguir dinamizar a creperie ;-)
    Agora deu-me cá uma vontade de comer um crepe ;-)

    beijinhos e bom fim de semana

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  3. Não é a primeira vez que leio isto por aqui...são os sinais...
    ...sinais que talvez não eu deva procurar por crepes em Potugal :o)

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  4. Seja como for "quem não é competente não se estabelece" - já ouvi isto muitas vezes e nem sei de onde veio a expressão!

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  5. Falta de imaginação e de conhecimentos também. Com o ananás podem-se improvisar imensas sobremesas que a senhora podia vender na Alkimias...

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  6. Crepes! Hum… deliciosamente caros em Paris! Vou tentar confeccionar uns quantos neste preciso momento. São servidos?!

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  7. Não é fácil manter um pequeno negócio, Carlos.
    Na Figueira, conheci muitos semelhantes.
    E há dois que nunca mais esquecerei.
    Uma padaria que fabricava uma variedade de pão excepcional.
    E vianas, e pinhas, e roscas deliciosas.
    Mais, os melhores rissóis que comi na vida.
    Tudo, pelo menos, duas vezes por dia.
    Como vendia queijinho fresco e fiambre, era um festim para o palato.
    Um pouco mais abaixo, junto ao picadeiro, havia a Bijou.
    Que fazia os bijous e os fofinhos.
    Tudo isso desapareceu com o desaparecimento dos donos.
    E deixou-me muita saudade.
    Não só a comida, mas também o convívio com as pessoas, o ritual de ir lá com os meus pais, o meu padrinho.
    E sem a ASAE ou quejandos.

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  8. Esta já a lera por aqui, mas vem muito a calhar agora.

    Até fiquei com vontade de crêpe de ananás: ainda tenho latas pequeninas em casa.

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  9. Apetece-me louvar a lata da senhora. Que o negócio a conserve e não lhe prejudique a sinceridade. Onde já se viu pedir um crepe tropical em pleno Outono! :)

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