segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Que nunca descanse em paz!


Já escrevi aqui, diversas vezes, sobre a sangrenta ditadura argentina (1976-1983). Já enalteci a coragem do governo argentino ao decidir julgar e condenar os mais perversos executantes dessas páginas negras da história da Argentina. No passado dia 8 morreu o maior déspota desse período de tirania militar: Emílio Massera.
Foi ele o cérebro de uma das mais nauseabundas e sanguinárias práticas desse período. Daquela cabeça conspurcada brotou a ideia dos tristemente célebres “Voos da Morte”, que lançaram ao mar, vivos, milhares de resistentes argentinos.
Mas nem só os resistentes e adversários políticos eram alvo da sua tirania. O marido da sua amante também foi lançado ao mar, depois de ter sido convidado para uma cerimónia no iate da Marinha. Muitos bebés eram roubados às grávidas resistentes, para serem entregues a casais estéreis afectos ao regime.
Condenado a prisão perpétua em 1985, por crimes contra a humanidade, Massera foi amnistiado e mandado libertar por Carlos Menem, o vigarista que conduziu a Argentina à ruína no início deste século.
Voltaria a ser julgado e condenado anos mais tarde, acusado de outros crimes mas, em 2002, foi considerado demente e inimputável, tendo vivido em liberdade até à sua morte, na semana passada. Os argentinos viram-se finalmente livre de um dos seus maiores tiranos, mas nunca esquecerão os seus crimes.
Embora a cerimónia da cremação tenha sido rodeada de secretismo, para evitar manifestações populares, os comentários dos leitores nos jornais argentinos deixam transparecer de forma bem clara o júbilo com que a notícia da morte foi recebida pela população. O único lamento é que não seja possível cumprir os votos do historiador Osvaldo Bayer:
“Sobre a sua tumba cairá o cuspo de um povo ultrajado, como se fora chuva intermitente”.
Fica o consolo de saber que a sua morte foi antecedida de um longo período de sofrimento. Que nunca descanse em paz!

11 comentários:

  1. O título que escolheu para este texto é o DESEJO de todos os Homens para este homem e para muitos outros como ele que, infelizmente, não foi, não é, nem será o único!

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  2. Concordo plenamente contigo em todos os parágrafos deste texto.
    Os ditadores só merecem o nosso desprezo!

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  3. No sábado vi um filme argentino, de que a Teté já tinha falado no blogue dela, mas isso não é o que interessa. Falo aqui desse filme, porque é mesmo muito importante para compreender melhor alguns desfechos, que o crime se passa em 1974, numa Argentina dominada pelo governo de Isabel Perón - e foi o marido dela que nomeou Emílio Eduardo Massera como admiral - não esquecendo as acções constantes da "Triple A" (Aliança Anticomunista Argentina), grupo de repressão do Estado que recrutou gente da pior espécie, entre oficiais de polícia demitidos por delitos, civis com fichas criminais e assassinos pagos.

    Ditaduras, quer sejam da Direita ou da Esquerda são pura e simplesmente HORRÍVEIS! E Estaline também não ganhou o céu!

    Na antiga República Democrática Alemã (em alemão Deutsche Demokratische Republik - DDR)também foram roubados muitos bebés e crianças aos pais que eram contra o governo, para serem entregues a casais estéreis amigos do regime.

    INFELIZMENTE, não há lá em cima um Deus para castigar todos estes PATIFES!

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  4. Meu amigo:
    Até arrepia saber que existem ser humanos capazes de tanta malvadez.
    Infelizmente não é caso único e o inferno deve estar cheio deles.

    Beijinhos e boa semana

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  5. Carlos, foi através do livro de Montalbán , Quinteto de Buenos Aires, que soube das barbaridades que se cometeram na Argentina. Um nojo de gente que não merece repousar em paz.

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  6. E se houver inferno que o infernize para sempre.

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  7. Carlos, seu artigo me fez lembrar do livro "A Festa do Bode", de Mario Vargas Llosa, que conta a história do tirânico ditador da República Dominicana, Rafael Trujillo. Nesse livro, há a descrição de uma das piores cenas de tortura que eu já vi. Me dá arrepios de constatar a insanidade mental dessa gente que, em algum momento da história, chega ao poder. E, imbuído desse poder, pratica as maiores crueldades, assim como Emílio Massera e tantos outros.
    Que nunca descansarão em paz, tenho a certeza disso. A carga de ódio, rancor, ressentimento e dor que carregam em seus ombros os impede de descansar em paz.

    Beijos, mais um excelente texto!

    Carla

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  8. Que a terra lhe seja pesada, que eu se pudesse dançava encima da sua campa.

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