segunda-feira, 1 de novembro de 2010

De seringueira a presidente do Brasil


“De seringueira a presidente do Brasil”. Este bem poderia ter sido o título de alguns jornais brasileiros e do mundo inteiro, hoje, se Marina Silva tivesse abdicado dos seus valores e tivesse aceitado ser a candidata do PT à presidência do Brasil. Mas Marina Silva rejeitou trocar os seus valores e as suas convicções pelas honrarias que poderiam estar ao seu dispor no palácio do Planalto.Não se encontram, no mundo inteiro, muitas pessoas com o carácter de Marina e, muito menos, políticos que mantenham as suas convicções, vão à luta e mostrem ao mundo inteiro que, pelo menos 1 em cada 5 brasileiros partilham da sua opinião.
Dirão alguns que Marina nada ganhou. Não é verdade. Ganhou ainda mais respeito na cena política internacional e granjeou uma onda de simpatia em seu redor. Se tivesse chegado ao Planalto, seria o rosto de uma mudança radical no modelo de desenvolvimento do Brasil e de uma grande parte do globo. Filha de seringueiros, nasceu em 1958 num seringal, no coração do Brasil verde. Teve uma infância igual à da maioria das crianças da região. O seu único direito era trabalhar, ajudando os pais no sustento da família. Condenada a ser analfabeta, o seu destino mudou aos 15 anos. Uma hepatite levou-a para Rio Branco, onde foi acolhida numa missão católica. Queria ser freira e aprender a ler. Aos 16 anos iniciou a sua alfabetização e nunca mais parou, até concluir uma licenciatura em História e tornar-se professora.
Foi através da Igreja Católica que deu os primeiros passos na política, mas o activismo nas organizações populares de base levou-a a perceber que o seu caminho passaria por outras vias: a luta contra o regime militar que governava o Brasil. O teatro amador proporcionou-lhe os primeiros contactos com o Partido Revolucionário Comunista – que integrava o PT. Rapidamente entrou nas lutas do movimento sindical fundando em 1985, com Chico Mendes, a central Única dos Trabalhadores, na província de Acre. A sua ascensão política foi rápida. Em 1988 foi eleita vereadora em Rio Branco e, em 1995, senadora pelo PT. Em 2003, Lula escolhe-a para ministra do ambiente. Conhecedora da realidade amazónica e das implicações ambientais resultantes da sua destruição, desenvolveu um trabalho notável. Perseverante, proibiu a comercialização e cultivo de organismos geneticamente modificados e tomou medidas arrojadas em diversas áreas, contrariando interesses económicos e criminalizando as empresas que, na cadeia produtiva, se comportavam como predadoras. Cerca de 1500 empresas foram obrigadas a alterar os seus procedimentos. Contrária à visão passadista que vê nas políticas ambientais um entrave ao desenvolvimento, procurou tomar medidas estruturantes que se reflectissem num modelo de desenvolvimento sustentável. Confrontada com as contradições de desenvolvimento seguidas pelo governo e com os entraves colocados às suas medidas de protecção ambiental, terá entrado em ruptura com Lula, optando por abandonar o governo em 2008 e o PT em 2009.
Numa entrevista a Jô Soares, reiterou a sua fidelidade ao PT, onde militou durante mais de 20 anos, e construiu a sua consciência cidadã. Na mesma entrevista afirmou que não saiu do governo para combater o PT. Fê-lo para provocar um maior debate sobre as questões ambientais. Aparentemente, conseguiu o objectivo. Mobilizou os media brasileiros em torno do debate sobre a temática ambiental e conquistou o voto de um em cada cinco brasileiros.
A luta que tem travado na defesa das questões ambientais não teve apenas repercussão no Brasil. Em 2007 recebeu o prémio “Champions of the Earth” – o mais importante atribuído pelas Nações Unidas na área do ambiente. Em 2008, a WWF entregou-lhe, em Londres, o mais prestigiado prémio da organização, como reconhecimento pelo seu trabalho em defesa da Amazónia. Em 2009 deslocou-se a Oslo para receber o prémio da fundação Sophie, criada pelo autor de “O mundo de Sofia”.
O reconhecimento internacional da relevância do seu trabalho em questões de desenvolvimento sustentável está bem patente na distinção que lhe foi atribuída pelo “The Guardian” que a considerou uma das 50 pessoas com melhores condições para salvar o planeta.
Não foi desta ( palpita-me que Dilma terá sido ontem eleita presidentA do Brasil) mas Marina Silva há-de chegar um dia ao Palácio do Planalto e, nesse dia, o mundo vai mudar.

11 comentários:

  1. Quem sabe se alguns políticos não possam APRENDER algo com Marina...

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  2. Há-de chegar ao Planalto, sim. Marina tem um sorriso lindo, vê-se que está de bem com ela e com a vida. Oxalá possa conservá-lo assim por muitos e muitos anos.

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  3. Marina Silva foi sem duvida a grande vitoriosa desta campanha eleitoral.

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  4. Talvez Dilma seja a Marina possível e isso é bom para o Brasil.

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  5. Só espero que até lá o mundo vá mudando. Mal de nós se dependessemos de uma só pessoa, para isso já bastam as religiões. O mundo mudará na justa medida do contributo de cada um de nós, com ou sem Marina ou sem Dilma. Sem José Serra demora um pouco menos.

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  6. Seria interessante que Marina sucedesse a Dilma, sim. Penso que o mundo melhorará quando houver mais mulheres em lugares-chaves de decisão. Só espero que ela não misture religião com pol+itica!

    Uma boa semana.

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  7. Que assim seja, Carlos!
    Como você já não cansou de ler, eu sou Marina e ponto :o)

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  8. Que os amigos brasileiros perdoem a minha intromissão em casa alheia.
    Se eu fosse brasileiro, colocado por Marina entre a espada e a parede, isto é, escolher entre Serra e Dilma, não hesitaria, dava o meu voto a Dilma.
    Dilma não parece ter a pujança e o carisma de Lula. Vamos ver se ela consegue limpar sem atirar o lixo para debaixo do tapete...
    Quanto a Marina só agora começou, verdadeiramente, a sua caminhada política. É grande o capital político adquirido. Espero que não o perca e que o Brasil e o mundo a venham a ter no Palácio do Planalto, aquando das próximas eleições.
    Abraço

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  9. Eu ler este seu artigo, Carlos, ouvi música no meu coração.
    OBRIGADA!

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