domingo, 14 de novembro de 2010

Aconteceu no Oeste


Aproveitei o último fim de semana prolongado para uma incursão ao Oeste. Precisava de aliviar o espírito no meio de livros e escritos dispersos, num ambiente confortável e repousado, por isso fui para uma unidade hoteleira de 5 estrelas, beneficiando de uma promoção apelativa.
O hotel é agradável e está localizado num ambiente convidativo para as minhas caminhadas matinais. Tudo parecia correr de feição para me proporcionar o fim de semana tranquilo que procurava. No entanto, a surpresa veio na noite de sábado.
Terminado o jantar, despedi-me com um “até amanhã” e aí começaram as minhas surpresas. Fiquei a saber que o restaurante estaria fechado no domingo para o jantar e, à hora do almoço, só serviria um prato:cozido à portuguesa. Reagi de forma intempestiva, interrogando o chefe de mesa sobre as razões de o restaurante estar fechado ao jantar, na véspera de um feriado, e qual era a política gastronómica de uma unidade hoteleira que apenas disponibilizava cozido à portuguesa para um almoço de domingo.Entre explicações esfarrapadas e mesuras, o chefe de mesa chamou a directora do hotel que me explicou estar o hotel a iniciar, ( para meu azar nesse fim de semana) um novo conceito gastronómico.
“ É uma experiência que estamos a ensaiar”- disse-me, convicta da sua superioridade.
“E não há nenhuma alternativa para quem não seja apreciador de cozido?"- perguntei, na expectativa de uma solução airosa.
“ Só temos uma alternativa para crianças. Uns bifinhos moídos. Mas pode ir à nossa coffee- shop…”
Passar o dia a comer na coffee shop do hotel não era propriamente o que estava à espera daquele fim de semana, mas lá fui ver a ementa. A escolha resumia-se a um robalo, um bacalhau à Braz, pizzas e bifes. Descoroçoado insisti na falta de senso revelada pelos responsáveis do hotel, não só na escolha da ementa do almoço, como no encerramento numa noite de domingo, véspera de feriado. Inabalável, a senhora afivelou um sorriso de desprezo e voltou a aconselhar-me a coffee shop como alternativa.
Não devo ter sido o único a manifestar irritação. O hotel tinha bastantes hóspedes que também não devem ter apreciado este modelo de gestão e manifestaram o seu desapontamento. Foi por isso, com algum alívio, que na manhã de domingo fui informado que, excepcionalmente, iriam abrir para jantar.
Reconfortado com a notícia dirigi-me à recepção, depois do pequeno almoço, para saber onde podia comprar jornais.
- “ Que jornal deseja?”
- “O Público”.
- "São 2,90 €".
- “ Como? O preço do jornal é 1,60€!”
Devo ter ficado com um ar tão aparvalhado, que o homem se viu obrigado a dar-me uma explicação.
- “Nós não vendemos jornais, mas quando algum cliente está interessado nós fazemos a impressão do jornal que o cliente pretende. São todos ao mesmo preço”.
Os meus olhos arregalaram-se ainda mais. De espanto e indignação. Prescindi do serviço e perguntei onde podia arranjar um jornal nas imediações. Teria de ir a Torres Vedras. Saí para espairecer um pouco, aproveitando o amainar da intempérie que se fizera sentir durante a noite. Enquanto deambulava, não me saía da cabeça o slogan da campanha “Faça férias cá dentro”. Eu até gosto de fazer, mas detesto ser tratado desta maneira numa unidade hoteleira de 5 estrelas. Por norma, nestes hotéis, os jornais ( sem serem impressos) são oferecidos e colocados à porta dos quartos a horas temperanas. Mas estamos sempre a aprender com os novos modelos de gestão do turismo à portuguesa.

16 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Esse hotel tem uma política um bocado estranha! Adoro cozido à portuguesa, mas não acho que seja solução ter um prato único - não só porque há gente que não gosta, mas também porque a ideia primordial de um restaurante é o cliente poder escolher um prato de um menu variado! O estilo "cantina" de prato único não se adequa a um hotel, muito menos de 5 estrelas.

    A história do jornal é sintomática de uma autêntica esperteza saloia. A continuar por esse caminho, o referido hotel qualquer dia está às moscas, por mais promoções que faça... :)))

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  3. Realmente foi mesmo uma aventura no oeste. Acho q devia divulgar o nome da unidade 5*...

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  4. Carlos
    Quando comecei a ler o post e pelo sugestivo titulo, já estava a ver o meu caro no meio da rua a resolver a situação num duelo com omdirector do hotel.
    Não sendo um grande utilizador da nossa hotelaria (nem de outras)quando há uma escapadinha fico no Oeste, num sitio que tem um som de mar por fundo unico, pertinho ao da sua estória. Só que tenho um problema, gosto de um bom tinto e a companhia tambem. Aí complica-se porque em geral nestes estalecimentos o preço praticado é de facto um assalto tipo do "Oeste" mas parece generalizado, poi noutras regiões acontece o mesmo.

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  5. Mas que azar, Carlos!
    Talvez um ambiente mais familiar lhe proporcionasse uma estadia muito mais agradável! Locais pequenos mas acolhedores onde os gerentes/proprietários dão prioridade aos clientes.

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  6. Pois é, Carlos, ao invés de priorizar o atendimento, personalizar o atendimento, padronizam o almoço... é o fim. E a gente é obrigado a aceitar, como se fosse gado indo pro abatedouro, sem questionar. Fico com uma raiva quando propagandeiam serviços cinco estrelas e oferecem meia perna de estrela em troca.
    Por aqui se diz: é o fim da picada!

    Beijos

    Carla

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  7. Já vi que posso confiar nas suas indicações hoteleiras!!! Logo mais devo precisar delas :o)

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  8. Essa de disponibilizarem o print do jornal por 2,90 euros, não lembra ao careca mas pelos vistos lembrou a essa excelsa administração... e depois admiram-se de que as pessoas prefiram atravessar a fronteira para, pelo mesmo preço, terem muito melhor serviço.

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  9. Grande filme. Em duplo sentido.

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  10. Sou da opinião do Rogério:
    Baixe para 4 estrelas... ou até para nenhuma estrela!!!

    A falência deste hotel já está programada, e a gerente não vai ter a oportunidade de fazer novas experiências com os clientes.

    Saudações portistas!

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  11. Ana:
    Tem toda a razão, esqueci-me de mencionar o nome do hotel:
    The Hotel Campo Real Golf & Spa.
    Bempodiam encurtar no nome e aumentar a qualidade do serviço, né?

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  12. Acho que ainda não fiquei num hotel de cinco estrelas, mas pelo exemplo deste, parecem-me melhores os de três e quatro :)

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  13. O sector hoteleiro bem que pode carpir mágoas da crise que os afecta se não prestam um serviço consentâneo com o preço que cobram, mas acho que as palavras mágicas golf e spa já dizem tudo!

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  14. Há cá hoteis com menos estrelas, bem melhores que os de 5... há estrelas e estrelas ;)

    Bjos

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