quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Que estará, desta vez, debaixo da calçada?


Hoje, os franceses voltam às ruas para protestar contra a alteração da idade da reforma dos 60 para os 62 anos.
Nos últimos dias, ouvi várias vozes estabelecerem uma comparação entre este movimento contestatário e o Maio de 68. Discordo em absoluto, por várias razões. Se quiserem saber o que penso sobre aquele mês que a geração de 60 içou ao altar do mito, convido-vos a ler isto.
Mas não são apenas as questões que aduzo naquele post que me levam a estabelecer uma destrinça entre estes dois momentos. Acima de tudo há uma diferença de valores, mas há também uma diversidade profunda na génese e na estética da contestação. É, aliás, da estética do Maio de 68, que preservo as melhores recordações. Quanto ao resto, estou com Cohn-Bendit: “ É melhor esquecê-lo a lembrá-lo”. Para não ter de recordar que Maio de 68 acabou com uma gigantesca manifestação de apoio a De Gaulle e ser levado a pensar que , desta vez, tudo acabe numa manifestação de apoio a Sarkozy.
Ao recordar Maio de 68 parece haver uma tendência para adulterar a realidade e conferir-lhe uma dimensão que nunca teve. Na verdade nunca houve “ uma praia debaixo da calçada”. Houve apenas uma amálgama de irreverência e devaneios juvenis, com consequências que não merecem muito a pena ser lembradas, salvo se pretendermos “dourar a pílula”.Querem apenas um exemplo? Então aqui vai. No Maio de 68, gritavam-se “slogans” sobre a liberdade sexual. Quarenta anos mais tarde, é mais fácil acabar com a carreira de um político ( ou uma figura pública) denunciando a sua infidelidade amorosa, do que acusando-o de corrupção.
Pensar sobre o que se terá ganho e perdido, entre as gerações de Maio de 68 e Outubro de 2010, é o desafio que vos deixo. Talvez seja na conclusão de que a geração de 60 traiu os seus valores, que esteja a explicação para a crise que actualmente vivemos.

7 comentários:

  1. Bom dia , Carlos...
    Gostei de o ler, como sempre, e penso que tem razão, apesar de em 68 ser uma adolescente, as mensagens de 68 e o que mais tarde aprendi, nada tem a ver com 2010 em França...
    Há coisas que a história não repete.
    :))

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  2. Talvez o único paralelismo que encontro será o da probabilidade de alguns dos filhos do Maio de 68, perto de atingirem a idade da reforma verem as suas expectativas defraudadas e contestarem estas políticas. Eu não vivi esse período conturbado com consciência de ter recordações pois ainda fazia nas fraldas, mas nos quarenta anos que permeiam estes acontecimentos é claro que muitos dos valores se adulteraram e outros simplesmente desapareceram. Desta vez, debaixo da calçada corre um rio de desespero e não de esperança.

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  3. Talvez seja na conclusão de que a geração de 60 traiu os seus valores, que esteja a explicação para a crise que actualmente vivemos.

    A geração de 60 não traiu os seus valores mas o que passou às gerações seguintes foi um facilitismo que não conduz a lugar nenhum, nem para eles (próprios), nem para os pais (nós) e pior... nem para os seus filhos que estão sem horizontes.

    Será que os manifestantes de hoje, em França, vão ter, daqui a 40 anos, a mesma sensação de frustração e fracasso que eu hoje sinto?

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  4. Não sejas tão duro. Sem Maio de 68 não teria havido a soap opera Sarkozy/Cecilia/Carla ;)

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  5. Na questão dos costumes, de facto assistimos à "americanização" da vida pública na Europa o que não é certamente uma coisa boa.

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  6. Penso que falar de traição de valores é capaz de ser uma palavra forte demais. A "revolução" foi feita por jovens irreverentes, que mais tarde seguiram "vidas normais" que os levaram a ter as mesmas preocupações que os seus próprios pais (que anteriormente tinham contestado). Trata-se de um processo de "crescimento" comum, não exactamente uma traição...

    Quanto à libertação da mulher, a mais significativa acção foi sem dúvida a das sufragistas, que lutaram pelo direito ao voto das mulheres. Ganha essa batalha, tudo o resto veio aos poucos, mas por acréscimo...

    Infelizmente, um político ficar mais prejudicado junto ao público devido à sua vida íntima do que por crimes de corrupção é uma constante. Que custa a engolir!

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  7. Carlos,

    Concordo em parte com a Teté, do comentário acima.

    E agravo ainda mais. Pois a geração de 68 esqueceu da luta, na minha opinião. Esqueceu da crítica, das liberdades, de tudo, justamente por "seguir com suas vidas" Pouco exemplo ficou. Os que eram líderes e exemplos em 68, onde estão? Não os vejo! Só vejo aproveitadores desse período.

    Beijo

    Carla

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