quarta-feira, 27 de outubro de 2010

A lição da Madeira

Na última quinta-feira, a Madeira voltou a ser assolada por um temporal, que me trouxe à memória um post que escrevi em 21 de Fevereiro, durante a tragédia que matou um número indeterminado de pessoas. (Digo indeterminado, porque não confio nos números oficiais apresentados pelo governo regional).
Persistem os erros que então apontei em vários posts sobre o assunto e não foram corrigidos, porque a pressa em alindar a ilha para a recepção aos turistas durante a Festa da Flor, resultou em intervenções mal feitas, de que resultaram as cheias da semana passada. O governo da Repúbica e a União Europeia ajudaram financeiramente, como lhes competia, mas não adianta atirar dinheiro para cima das tragédias, se ele não for aplicado na resolução correcta dos problemas, de molde a evitar catástrofes futuras.
Aqui fica a transcrição de um dos posts que escrevi na altura:
"Durante meia dúzia de anos (entre 1979 e 1985, se a memória não me atraiçoa) razões profissionais obrigaram-me a ir à Madeira em Janeiro ou Fevereiro, durante duas ou três semanas por ano. Pude, durante esse período, acompanhar o desenvolvimento inicial da ilha e afeiçoar-me ao território e à sua gente. A tragédia de ontem marcou-me, por isso, de forma muito profunda.Passaram cerca de 20 anos até voltar à Madeira. Espantei-me com o seu desenvolvimento, mas não deixei de dar ouvidos a alguns ambientalistas que me alertaram para atentados ambientais que prenunciavam a eventualidade de uma catástrofe de proporções muito superiores às de 1993. Aconteceu ontem. Infelizmente.
Não é altura de fazer recriminações, mas também não podemos fazer como a avestruz e fingir que o que se passou ficou a dever-se, apenas, à chuva excessiva. Catástrofes semelhantes vêm ocorrendo com frequência em vários pontos do globo, afectando especialmente as zonas costeiras, de forte crescimento turístico. Como vêm avisando há quase 20 anos vários cientistas prémios Nobel, estas catástrofes tornar-se-ão cada vez mais frequentes, mais violentas e localizadas. Uma das causas é o aquecimento dos oceanos, outra é resultante da actividade humana. Não é momento para criticar o crescimento desordenado do Funchal, mas também não é altura para exigir a quem foi perguntado sobre o assunto (como um dirigente da QUERCUS) que se cale e esconda a verdade. Não é o momento para tentar tirar dividendos políticos de uma tragédia, como o próprio AJJ fez questão de salientar. Atacar Jardim e o governo da Madeira por ter ignorado as Leis da Natureza é tão pornográfico como criticar Sócrates pelo facto de não se ter deslocado de imediato à Madeira, ignorando que não o podia fazer, porque o aeroporto do Funchal estava encerrado.É no entanto o momento oportuno para reflectir no que se passou e tentar tirar algumas ilações sobre o que se passa na nossa orla costeira, para evitar catástrofes anunciadas.
O temporal nas vésperas de Natal na Região Oeste foi um aviso para alguns perigos que corre a costa portuguesa, se não arrepiarmos caminho no desenvolvimento acéfalo e dominado apenas pelo lucro, ignorando as Leis da Natureza.É altura de pensar nos crimes ambientais que se cometem à sombra dos PIN (Projectos de Interesse Nacional) criados pelo governo de Sócrates, para alimentar o lucro sôfrego de alguns investidores na área do turismo e da indústria.
É o momento certo para repensar os Planos de Ordenamento da Orla Costeira. É chegada a altura de não ter medo. Urge derrubar construções clandestinas, em vez de permitir que sejam elas a derrubar membros do governo que desenvolveram exemplarmente as suas tarefas em prol do ambiente. Está na hora de impedir a construção de unidades hoteleiras, centros comercias, ou complexos turísticos em zonas que ocupam os leitos de rios e ribeiras, comprimindo-os de tal maneira, que um dia acabam por se revoltar . O que sucedeu nos últimos dias no Algarve é, apenas, um alerta para o que poderá ocorrer, a curto prazo, em toda a costa portuguesa, onde a construção clandestina e desordenada ameaça seriamente o futuro. "
Estão criadas as condições para qeu a tragédia da Madeira se repita. Esperemos que o bom senso seja capaz de a evitar.

4 comentários:

  1. Um texto que merece ser lido e repensar todas as posições do que se fez ultimamente na área da construção e protecção da natureza.

    Os erros pagam-se caros e depois não adiantam as lamentações.
    O Mar virá buscar o que lhe pertence, assim como os rios e as ribeiras.

    E as nossas florestas dizimadas sem respeito....?

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  2. Infelizmente lembro-me bem do texto que escreveu por ocasião dos temporais do início do ano, uma vez que por aqui também aconteceram tragédias do gênero, como em Angra dos Reis, no Rio de Janeiro.
    E desconfio que por aqui também não tenham sido tomadas as devidas providências por "n" razões. Como não moro no Rio não tenho como atestar se alguma coisa foi feita, mas conhecendo bem o nosso sistema arrisco em apostar numa negativa. Eu tenho medo deste próximo verão!

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  3. Também me lembro desse texto...
    Infelizmente tinhas razão!

    Abraço

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  4. Carissimo Carlos,
    enquanto o carérrimo Alberto estiver na ilha, nada de mal acontecerá!!!!
    Não sei se se lembra q os jornais locais afirmaram tudo estava bem ( a bem do turismo, claro).
    O homem tem força e pujança para travar mar, oceanos, ribeiras, montes e vales.
    Tudo o q diz não passou de uma infeliz encenação do continente!

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