sexta-feira, 22 de outubro de 2010

A lição da bailarina espanhola


Aviso prévio: este post não é sobre futebol. Apenas o chama à colação, para mostrar outra faceta da vida real .
Agosto de 1995
- Chego a Istambul, ao final da tarde, a bordo de um barco que me trouxe desde Éfeso. O pôr de sol deslumbrante desperta-me para a magia das noites turcas. Desembarco e vou directo para o hotel. Preciso de tomar um banho e mudar de roupa. Formalidades higiénicas cumpridas vou jantar, com dança do ventre incluída na ementa. O vinho corre livremente, atenuando os efeitos do picante gastronómico. Terminado o jantar, saio disposto a dar uma volta pela cidade. Assim que transponho a porta, entro em pânico. Uma multidão ululante, empenhando bandeiras que desconheço, percorre as ruas da cidade em transe. Um petardo arremessado de uma camioneta zumbe nos meus ouvidos, não me atingindo por milagre. Regresso ao restaurante assustado. Pergunto o que se passa. Terei sido apanhado no meio de uma revolução? A última coisa que eu desejava era ser surpreendido por uma revolução na Turquia, num momento em que estava a viver um período de euforia.
À minha pergunta, o proprietário do restaurante tranquiliza-me. Não há razões para alarme. A população ululante nas ruas, está apenas a manifestar a sua euforia pelo apuramento do Besiktas para a Liga dos Campeões Europeus, feito inédito na vida do clube.O proprietário do restaurante apresenta-se como adepto, não militante, do Galatasaray. Na verdade não gosta de futebol, por isso verbera o espectáculo das ruas.“ Pobre povo deste país que vibra desta maneira com o futebol, mas é incapaz de sair à rua para lutar pelos seus direitos”- diz com uma certa ponta de ironia.
Não percebia, à época, absolutamente nada do futebol turco. Perante a minha ignorância , Kahill diz-me que os clubes turcos aliciam os árbitros nas competições europeias, oferecendo-lhes noites de luxúria na companhia de odeliscas. Perante o meu descrédito diz-me que o Besiktas foi apurado, porque o árbitro assinalou um penalty inexistente a favor da equipa turca. Percebendo que permaneço na dúvida, estende-me um cartão de um night club.
“ Vá lá, e vai ver como encontra o árbitro do jogo desta noite. O clube é privado, mas com este cartão tem entrada livre e direito a duas bebidas”.
Não fui. Preferi atravessar o Bósforo e ver outra face da noite de Istambul. Além disso aquele adepto do Galatasaray, com toda aquela prosápia, provavelmente só me queria convencer a ir a um local de que deveria ser proprietário. E não gostei da forma como se refriu ao clube adversário. Na Europa torço por todos os clubes portugueses, pensava que os turcos seriam iguais. E se calhar até são, mas apanhei uma má rês. Por cá também há exemplares destes.
Outubro de 2010: o FC Porto vai a Istambul, jogar com o Besiktas. Entra no jogo mandão, domina a seu bel prazer e o primeiro golo surge naturalmente. É nessa altura que uma bailarina espanhola vestida simbolicamente de vermelho e mascarada de árbitro, decide tornar-se protagonista de um espectáculo para que tinha sido convidada pelo anfitrião. Quando a equipa portuguesa marca o segundo golo ( limpinho!) a bailarina espanhola decide invalidá-lo. Logo de seguida expulsa ( bem) um defesa azul e branco, por ter empurrado um adversário que se encaminhava isolado para a baliza portista. Poucos minutos depois, Falcão está isolado na área turca, é placado por um adversário e a bailarina espanhola, com trejeitos efeminados, manda seguir o jogo.
Quem não gostou da coreografia e decidiu vingar-se da duplicidade de critérios foi Hulk que, na segunda parte, marcou dois golos portentosos elevando o marcador para 0-3 favoráveis aos portistas. Os milhares de adeptos turcos não lhe reagtearam aplausos, o que me leva a acreditar que a minha teoria sobre o adepto do Galatasaray que conheci há 25 anos, devia estar certa.
A bailarina espanhola estava estarrecida. Via fugir-lhe uma noite gloriosa na companhia das soberbas odeliscas turcas e decidiu jogar uma última cartada, expulsando inexplicavelmente mais um jogador azul e branco.Os turcos ainda reduzem para 1-3, mas nada mais havia a fazer. Não sei se, para premiar o esforço, o árbitro terá tido direito a uma noite com uma odalisca num bordel rasca.
Felizmente na UEFA não há dirigentes da arbitragem dispostos a fazer figura de palhaços e sair a terreiro criticando o desempenho de um colega de profissão, só porque um dirigente de um clube que pretende ser intocável, impôr as suas regras e vencer a qualquer preço, mobiliza a imprensa desportiva e, com o seu apoio, tenta adulterar a verdade desportiva.
No final do jogo de Istambul o placard assinalava, inapelável, BES 1- POR 3.Desta vez Portugal levou a melhor sobre um Banco. Mas isso foi no futebol. Na vida real, continuamos a ser derrotados pelo poder financeiro.Era bom que aprendêssemos a lição e, bravamente, lutássemos contra os árbitros de Bruxelas que nos querem condenar a uma vida de míngua, obrigando-nos a claudicar perante as exigências da odalisca Merkel, cuja volúpia irá conduzir a Europa ao abismo.Saibamos ser bravos. Insurjamo-nos contra a injustiça, como os azuis e brancos fizeram em Istambul, perante uma bailarna espanhola apostada em derrotar –nos, pervertendo as leis do futebol, numa demonstração de despotismo desavergonhado.
Tal como no futebol, também na vida podemos lutar contra as adversidades e derrotar aqueles que, obnubilados por uma noite de luxúria, exigem que dobremos a espinha às suas exigências perversas, alterando as regras do jogo democrático. A alta finança, que está a esmagar os trabalhadores e a perverter as regras do jogo da Democracia, só poderá ser derrotada se nos unirmos e tivermos força para mostrar que rejeitamos a batota.

11 comentários:

  1. Carlos
    Excelente! Tive que reler para perceber o enquadramento, mas valeu a pena.
    Acho que há capacidade para nos unirmos e rejeitar a batota.
    A quetão está em como!

    ResponderEliminar
  2. Estou em absoluto acordo: não temos que nos vergar às batotas como se fossem ditames divinos...seja em que áream for.

    Um bom final de semana.

    ResponderEliminar
  3. "Tal como no futebol, também na vida podemos lutar contra as adversidades e derrotar aqueles que, obnubilados por uma noite de luxúria, exigem que dobremos a espinha às suas exigências perversas, alterando as regras do jogo democrático."

    Meu amigo, espero e desejo que este seu apelo à unidade ( um dos melhores e mais bem conseguidos que já li) seja digno de celebração e vitória.
    Embora não perceba nada de futebol, assim como de política, sei aplaudir e vibrar quando vejo um "bom jogo" e vaiar quando vejo batota.
    Parabéns uma vez mais, por nos proporcionar outro excelente texto.
    Até Novembro com mais 5 minutos ;-)


    Beijinhos

    ResponderEliminar
  4. Bom post com excelente enquadramento politico. Mas fico-me por aqui no que se refere a odalicas....
    :)))

    ResponderEliminar
  5. Vai ser difícil essa união para a luta. Mais parece união de rebanho de ovelhas que se deixa levar mansamente ao matadouro com a promessa duma boa janta no fim... Só que a janta não é para as ovelhas.

    ResponderEliminar
  6. Perfeitamente acordo Carlos, e cá para nós nem que encomendassem um toureiro nada faria parar o incrível.

    Agora uma coisa completamente diferente mas que pode muito bem enquadrar-se no tema. Ouvi agora a notícia que dona Carolina terá sido condenada a trabalho comunitário. Sabendo da escassez de emprego no nosso país e atendendo ao currículo da senhora, que recomenda-la ao night club de Istambul?

    ResponderEliminar
  7. Concordo que só unidos teremos força para derrotar quem subverte as regras democráticas. Mas para nos unirmos há que tomar consciência. E tão poucos têm consciência de que amudança está nas nossas mãos unidas!

    ResponderEliminar
  8. Uma vida inteira tenho me pautado por agir de forma mais democrática possível, pois é aquilo no que acredito.Seria muito difícil que outros fizessem assim? Tem dias em que desanimo ao ler as notícias.O autoritarismo aparece em nosso dia a dia de diversas formas e muitos parecem não perceber.Não suporto subterfúgios, mentiras e pressões.Mas hoje não estou num dia de muito bom humor.

    ResponderEliminar
  9. Esse turco a falar de turcos parecia estar a falar de portugueses: mais empenhados nos seus clubes futebolísticos do que em lutar pelos seus direitos.

    Quanto ao jogo, não vi, mas acredito que o árbitro fosse mau (quiçá até comprado). Não será a primeira vez e desconfio que nem a última!

    Mas a verdadeira questão é se ficamos todos de braços cruzados ou não, perante tanto autoritarismo político e financeiro! E como céptica, desconfio que nos vamos deixar levar no "rebanho" ordeiramente. Há uns apelos à revolução no FB, mas não são sérios, apenas uns desabafos...

    O futebol é o actual ópio do povo, 'tá visto... :/

    ResponderEliminar
  10. Nem com batota, Carlos.
    O Porto está mesmo muito forte!!!

    ResponderEliminar