terça-feira, 26 de outubro de 2010

Às armas, às armas!

Na estação do Saldanha, entra um trio de velhotes. Ele senta-se ao meu lado e as duas senhoras ocupam os lugares em frente. Vinham em conversa animada mas eu, entretido com a leitura de “O Nosso GG em Havana”, de Pedro Gutierrez, não prestei atenção ao que diziam até ao momento em que o cavalheiro, elevando a voz ( talvez para dar mais força ao seu argumento, ou à espera que os restantes passageiros irrompessem numa salva de palmas aprovadora) sentenciou:
“ Pois é como lhes digo, isto só vai lá com uma Guerra Civil como a de Espanha em 37. Limpa-se o país dos “comunas” e desses tipos todos que só querem confusão e nem querem ouvir falar em trabalhar e vão ver se o país não vai em frente. Tudo o que fosse sindicalista devia ser fuzilado”.
Gelei ao ouvir a sentença. Há meia dúzia de anos, creio que era improvável ouvir uma conversa destas em público. Levantei os olhos do livro, ainda a tempo de ver a expressão das senhoras. Um misto de terror e conformismo, como quem comentava para os seus botões: “Pois se essa for a única solução, então que venha a Guerra”.
Por hábito não me meto nas conversas alheias, muito menos em transportes públicos. Desta vez, apeteceu-me mesmo dizer ao bárbaro que estava sentado ao meu lado, que a solução para a crise também passava por dar uma injecção atrás da orelha, ou enviar para apodrecimento num gulag, gente como ele. Contive-me. O homem,porém, precisava de aplausos e aquiescência para a sua teoria. Tocando-me com o cotovelo, perguntou:
- O senhor não concorda?
Respondi-lhe com uma pergunta:
- O senhor desculpe,mas que idade tem?
- Setenta e seis, meu amigo. E trabalhei no duro até aos 70. Foram 52 anos de trabalho e nunca faltei um dia.
-Então está a receber uma reforma, não está?
- Uma miséria. Não chega a mil euros, veja lá!
- Mas só começou a descontar depois do 25 de Abril, não é verdade?
- Pois, foi quando esses bandidos me começaram a descontar no ordenado. Até lá recebia o ordenado limpinho, sem ter de descontar para esses tipos andarem a gastar em automóveis e viagens e comesainas. É um fartar vilanagem!
- O senhor desculpe, mas se não descontasse, como é que queria que o Estado lhe pagasse a reforma?
- Ah, isso não sei, eu não sou político.
-Mas sabe que antes do 25 de Abril as pessoas não descontavam e também não tinham reformas pagas pelo Estado, não sabe?
- Olhe, mas vivíamos muito melhor nessa altura, porque poupávamos para a velhice!
-Pois vivíamos! As pessoas deixavam de trabalhar e morriam na miséria pouco tempo depois.
Uma das velhotas decidiu intervir.
- O senhor sabe quanto é que eu tenho de reforma? Não chega a cinquenta contos! Faz uma ideia da dificuldade que é viver com cinquenta contos por mês ?
- Felizmente não faço ideia e acho essas situações muito tristes, mas diga-me uma coisa: a senhora trabalhava?
- Trabalhava sim senhora, tive de cuidar de quatro filhos. Acha que isso não é trabalho?
-Mas nunca descontou para a segurança social, pois não?
- Se eu não ganhava ordenado como é que ia descontar? Olha qu’essa é boa!
- De qualquer modo recebe duzentos e cinquenta euros, não é verdade?
- 238! 238! Mais uns centavos, ou cêntimos, ou lá como é que se diz agora.
- Tem toda a razão, é muito pouco, mas há quantos anos está a receber essa pensão?
- Desde os 62. Tenho 78, faça o senhor as contas…
- São 16 anos. Há 16 anos que o Estado lhe está a pagar (uma miséria, é certo), mas a senhora nunca contribuiu em nada para a Segurança Social. E também não paga impostos, pois não? Sabe o que isso quer dizer? Que há 16 anos que o Estado está a pagar-lhe uma pensão e tem de retirar esse dinheiro de algum lado. Sabe onde tira? Àqueles que estão a fazer descontos (alguns há mais de 30 anos) a contar com uma reforma por inteiro, mas que não vão recebê-la porque o Estado tem que retirar-lhes, parte da pensão de reforma a que teriam direito, para pagar a pessoas como a senhora que nunca contribuíram com um tostão para o Estado.
( Pronunciei “para pagar a pessoas como a senhora” com especial ênfase. Acabava de lhe chamar parasita. Sabia que a minha argumentação não tinha qualquer base de sustentação, não tinha pés nem cabeça, mas foi a maneira que encontrei para humilhar quem se comportava daquela maneira infame . Mas ainda não tinha terminado…)
O velhote olhou para mim de soslaio, respirou fundo como a ganhar coragem para o que ia dizer a seguir:
- Já estou a ver que você ou é comunista ou é da pandilha do Sócrates e também anda a mamar.
- Sabe qual é a sua sorte? É que hoje esqueci-me da seringa em casa e não posso dar-lhe uma injecção atrás da orelha- respondi contendo a raiva.
Levantei-me e saí na paragem seguinte, percorrendo a pé o caminho até minha casa, para libertar a fúria. Quando estva na sala, a remoer a conversa, concluí que, afinal, ainda tenho de estar grato a estes velhotes, que me obrigaram a fazer uma caminhada suplementar.

17 comentários:

  1. Então, Carlos, as mulheres que cuidam / cuidaram de quatro filhos são parasitas?

    Não há nada como um longo passeio para refrescar ideias...

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  2. Ematejoca:
    Como sabe muito bem, não penso isso, até porque a minha mãe criou CINCO. Agora quando ouço este tipo de discursos, salta-me a tampa...

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  3. Queria eu saber responder como você e com a calma necessária para contra argumentar.Eu acho que compreendi a sua colocação quanto àquela senhora. Ela não contribuiu economicamente e está reclamando do que recebe.Se ela criou quatro filhos, será que não tem nenhum que possa complementar o auxílio que o governo lhe dá? Ou é mais fácil deixar que o Estado lhe pague tudo. No Brasil reclamamos muito dos impostos e contribuições porque é sabido que por aqui se desvia muito dinheiro dos cofres públicos.Porque se tudo o que pagamos fosse de forma justa distribuído seríamos um país ideal.Eu ainda sonho!

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  4. Carlos
    A mim o que me preocupa é este tipo de conversa se começar a ouvir em voz alta e por muito sitio.
    Mas sobretudo há gerações mais novas com este de "discurso" que denota que há "ensinamentos" que funcionaram. Ou seja o Salazarismo deixou mais "seguidores" do que se suponha.

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  5. Saltou-lhe a tampa e eu até o apoio nesse salto.
    Posso falar bem alto porque acumulei tudo, dona de casa, mãe, professora, esposa, filha,... e durante largos anos sem ajudas de empregadas, era uma questão de organização.
    Para mim (já estou muito perto dos 70 como sabe) o pior não são os mais idosos pensarem assim,a esses já ninguém, quando não querem ver, lhes consegue mostrar nada, são os mais jovens, que antes de "trabalharem" já querem ter imensas regalias e são uns revoltados...
    Sobre este assunto muito há para dizer, a discriminação, o olhar para o próprio umbigo,a galinha da minha vizinha é melhor que a minha (também quero)...ainda está muito incrustado nas "gentes"

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  6. Lá que o velho se queira alistar em guerras e declarar execuções psicóticas é lá com ele. Lá que a senhora se ache no direito de reclamar sem ter de aceitar que o Estado Social lhe dá algum para viver, é lá com ela. E eu, bem vistas as coisas até chegar a minha vez será que vai sobrar alguma coisa? Em casa onde não há pão todos reclamam e ninguém tem razão.

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  7. Confesso, Carlos, o que me chocou, foi "injecção atrás da orelha". Sempre que alguém me irrita ou pensa de maneira diferente da minha, levasse uma injecção atrás da orelha, a Alemanha, mas muito especialmente Portugal, eram países com poucos habitantes. Neste momento, até era a minha filha mais nova que levava a injecção.
    Espero que o Carlos também não me queira aplicar uma injecção atrás da orelha, uma vez que é muito raro estarmos de acordo.

    A Trilogia Suja de Havana é o único livro que conheço do cubano Pedro Gutierrez, que está escrito numa línguagem muito forte e viva.

    Beijinhos outonais, com cheirinho a amizade!

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  8. Ematejoca:
    Os comunistas ( que o velhote queria ver MORTOS)é que são normalmente acusados, por este tipo de gente, de "comerem criancinhas ao pequeno almoço" e matarem os velhos "com uma injecção atrás da orelha". Daí a minha resposta.
    Aceito sempre a discordância civilizada, minha cara amiga. Já não tenho é idade para aturar gente com aquele espírito, que acha que a melhor maneira de resolver os problemas do país é matar os "comunas". Isso lembra-me tempos que não queria voltar a viver.
    Beijinhos também para si. Com o mesmo odor, mas primaveris.

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  9. Os velhotes emprenham pelos ouvidos e pelos olhos. Basta ler os títulos dos jornais e ver meia dúzia de minutos dos inenarráveis canais nacionais para percebermos a nossa soi disant cultura democrática.
    Agora quem escreve isto " Em Espanha - como em Portugal - os socialistas estão no poder, governam em minoria e conduziram o país ao descalabro económico." (fiz copy/paste de um excerto) não tem desculpa. Omite propositadamente que foi o PP de Aznar e Rajoy que alimentou a bolha imobiliária e alimentou artificialmente o crescimento exponencial da Espanha.
    Procura num blog perto de ti;)

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  10. Apesar dos comentários... gostei da estória do seu trajeto...
    Quem o conhece sabe bem aonde quis chegar...
    Temos que voltar a ser interventivos... em qualquer lugar...

    Ainda hoje, um eminente PROF. que tenho de ESTUDOS MARITIMOS, na minha Associação em Cascais, que desempenhou altos cargos a nível de estudos da orla maritima neste país , com muita pedra partida... e frustração, mas muito talento, Biologo Carlos Sousa Reis, dizia em mais uma das suas estórias de vida " estou farto de ser roubado desde o tempo de Salazar até aos dias de hoje"...
    O cansaço e a frustração a que os politicos e interesses instalados conduzem, levam a dizer o que a razão e o coração sentem de forma magoada...
    Continuo, Carlos.
    :))

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  11. Carlos, o velhote mereceu ouvir essa da injecção atrás da orelha. Porque mais uma vez, com essa idade, não estava a contar ser ele ir para as armas, os jovens que fossem, e acabassem com esses "malditos comunistas".

    No discurso desta gente que fez parte de uma juventude salazarista encontra-se sempre um resquício dos discursos bolorentos do seu lider: só é por nós, quem pensa como nós. Os restantes são para "abater".

    Um passeiozinho a pé é sempre agradável, especialmente como remédio para a irritação... :)

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  12. Pois é Carlos, o melhor de tudo foi o passeio!
    Há muita gente a repetir frases sem sentido :))))



    PS: já lá tenho o vídeo será mesmo oportuno para descontrair!

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  13. E há tanta gente que pensa assim...
    Só de ler fiquei furiosa.

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  14. Carlos, já vi que a politica de apo
    sentadoria é igual, tanto em Portu-
    gal como no Brasil. Há muito descon
    trole, na arrecadação e distribui-
    ção, o que gera injustiças.

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  15. Tinha quase a certeza de ter deixado aqui um post, devo ter saído sem publicar. O problema dos velhotes é o Correio da Manhã. Papam aquilo tudo que nem ginjas. O resultado é este.

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  16. Excelente poste.
    Apenas acrescento que, o pior é que esta gente vota...

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  17. Tem razão , também não percebo como quem nunca trabalhou nem fez descontos para a segurança social recebe reforma. Mas conheço casos .
    O antigo dito popular de "casa onde não há pão todos ralham e ninguém tem razão" está no auge .
    Uma maçada viver num pais pobre e mal governado .

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