quarta-feira, 1 de setembro de 2010

O país a preto e branco


Estação de Metro da Cidade Universitária. O tempo não me permite comer mais do que uma bucha antes de ir ao Hospital. Decido parar no café do Metro. Ao balcão dois homens conversam alto, amparados em minis. Um é preto, o outro branco.
Enquanto sou aviado, ouço a conversa. O preto, de voz enrolada denunciando depósito atestado de álcool, vocifera contra “este país”. Reclama mais apoios do governo. Elogia o governo do seu país, que não deixa as pessoas ao abandono. O branco tem sotaque revelador das suas origens: o leste europeu. Ri-se e abana a cabeça, perante os argumentos do parceiro de conversa. A determinada altura pergunta:
- Onde você nasceu?
- Na Guiné.
- E quando veio para Portugal?
- Faz tempo. Há mais de vinte anos.
- Então porque não volta, se ali é tão bom e aqui tão mau?
O preto balbucia algo imperceptível, numa voz movida a álcool.
-Olhe, quer um conselho? Se isto é tão mau, pegue o metro e vá até ao rio. Lá tem muito barco. Apanhe um e volte para o seu país- recomenda o imigrante de Leste.
-Ah, isso não, que lá tem guerra e as pessoas andam nas ruas aos tiros, responde o africano.
O branco soltou uma sonora gargalhada e pediu mais uma mini.
O tempo escasseava. Paguei e fui em passo de corrida para o Hospital Santa Maria. Com pena de não ter assistido ao desenrolar da conversa.

7 comentários:

  1. Interessante conversa a preto e branco! :-))
    Espero que a ida ao HSM fosse apenas uma visita de rotina.
    É um local que frequentei com alguma assiduidade (infelizmente) e onde vou agora para exames de rotina. Só tenho a dizer bem dos médicos, pessoal de enfermagem,pessoal auxiliar...

    Abraço

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  2. Sabe, Carlos, Vejo muito isso em São Paulo. Pessoas que, vindas de fora, xingam, falam horrores da vida naquela cidade, mas que não se vão dela... E os que mais reclamam são os que menos (ou nada) fazem para melhorar o lugar aonde vivem.

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  3. Essa conversa é "normal" entre as muitas "cores" que existem no nosso país...Fala-se muito mas não se sabe o que se está a dizer...escuta-se muito mas não se ouve...
    Tem a sua mãe doente? (desculpe mas já por duas vezes o ouvi falar nas idas ao HSM)
    Abracinho

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  4. Olá Carlos
    Vivo em Angola há alguns anos.
    Apesar de haver aqui um esforço grande para a melhoria das condições de saúde da população, verifica-se ainda a existência de grandes e graves falhas nesse sector. Quando aqui adoecemos, pensamos de imediato no "nosso" SNS e como as coisas são fáceis, e fiáveis, em Portugal nesse aspecto.
    Pena é que quando aí vivemos a maior parte de nós só saiba dizer mal. Viver no estrangeiro faz muito bem para apreciarmos as diferenças existentes entre os países e ter uma noção mais correcta do que é "bom" e "mau" em Portugal.
    O que digo em relação à saúde aplica-se a outros campo muito importante, a educação.
    1 abraço

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  5. Não tenho nada contra aqueles que procuraram (ou procuram) oportunidades de uma vida mais digna no nosso país, mas confesso que esse género de conversa me chateia: se a terra deles era melhor, porque não ficaram por lá? Ou, mesmo que desiludidos por oportunidades que não chegaram a ter cá, não voltaram às suas terras?

    A ingratidão não advém do álcool!

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  6. Meu Caro,

    Excelente prosa...
    Fiz link para "A Carta a Garcia".
    Obrigado.
    Abraço,
    Osvaldo Castro

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  7. DEVE TER SIDO UMA CONVERSA E TANTO...ALCOOL

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