domingo, 18 de julho de 2010

A esquina da memória (8)

Repórteres de Verão
O Verão não traz apenas calor, férias e praia. Traz também incêndios e, com eles, notícias espantosas veiculadas por repórteres televisivos dotados de grande imaginação. Os jornais das 20 horas, da última terça- feira, foram pródigos em surpresas. Na RTP , uma ofegante ( apesar de estar parada) repórter dava notícias de um incêndio a lavrar na serra de Aire. Depois de enaltecer a acção dos bombeiros, invocou a providência divina que, aliada ao esforço dos bombeiros, “impediu que as chamas entrassem no distrito de Ourém”. Desculpe lá, Ana Rita Freitas, mas essa de Ourém ter sido promovida a distrito deve ter sido milagre dos pastorinhos, ainda ufanos com a beatificação!
Melhor ainda esteve a TVI. Numa notícia sobre o incêndio em Castilla La Mancha ( imediatamente traduzido para Castela a Mancha!!!!) uma voz off , masculina, afirmava de forma peremptória, mas levemente emocionada: “Próximo de Guadalajara , as chamas fizeram 11 mortos, todos voluntários...”
Eu já sabia que em Espanha há gente para tudo, mas voluntários para a morte é que nunca me ocorrera!Admito que as intervenções destes dois repórteres tenham sido fortemente influencidas pela conferência que Mark Kramer proferiu há dias na Escola Superior de Comunicação Social. Advogando que a crise do jornalismo de imprensa- sentida em todo o mundo- pode ser ultrapassada com uma forma de escrever que esteja mais perto dos leitores, Kramer defendeu a ideia de um jornalismo narrativo que “prenda” os leitores à notícia.
Mas caramba, senhores repórteres, também não é preciso exagerar! Jornalismo narrativo não é sinónimo de “criativo” ou “inventivo”! Por isso, o melhor mesmo, é reconduzir Ourém à sua condição de concelho e esclarecer os espectadores de que os 11 mortos de Guadalajara eram efectivamente voluntários, mas apenas enquanto bombeiros! Tanto quanto julgo saber, voluntários para a morte, apenas alguns radicais da Al –Qaeda ou organizações similares. Pelo menos para já!....
( Em 2005, foi assim. Este ano, como será?)

6 comentários:

  1. Quem sabe?
    O "tratamento" das notícias têm vindo a baixar de qualidade e rigor...isto verifico eu.

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  2. Carlos,
    Realmente temos cada jornalista!Eu já deixei de ver os noticiários. Vejo na TV a EuroNews, leio o Expresso e o Público ao fim de semana e...chega para ter uma ideia do estado da Nação. E no fundo no fundo eu sou, infelizmente, uma descrente da política. Leio, com prazer, os seus artigos!!!
    Um beijo

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  3. Contráriament a este seu post,
    o meu postal dá boa-nova:
    Se Alvega arder
    Não se perde a escola
    nem a farmácia
    (já lá não estão...)

    Aliás, creio que quase todo o interior, a partir de <ourém, podia arder...
    Nada de muito importante se iria perder...

    Porque se hão-de perder vidas a defender o nada, por coisa nenhuma?

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  4. Também é muito giro quando os "pinhais de eucaliptos" estão em perigo.

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  5. Isso não é jornalismo narrativo, nem criativo nem inventivo. É ignorância pura e dura e falta de profissionalismo! O que sempre me irrita...

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  6. Com todo o respeito pelos mortos e seus familiares, a notícia fez-me sorrir...
    Boa semana

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