segunda-feira, 19 de julho de 2010

Crónicas de um país pimba (3)

Conjunto Musical Ponto Fixo no "Praça da Alegria"

Noite de sábado.
Regresso ao Porto, depois de um passeio à beira mar, ao fim da tarde, para apanhar um pouco de ar fresco e fazer uma refeição leve. Faço um percurso diferente do habitual para voltar a casa, entrando pelo Carvalhido. Perto da Igreja , iluminações despertam-me a curiosidade. À medida que me aproximo, um grande volume de decibéis invade o meu carro, entrando em conflito com a voz de Natasha St Pier que escolhera como companhia.
Há gente na rua ouvindo um conjunto que se esforça por animar a noite. Há pares de mulheres dançando no meio da rua. À minha frente um carro avança com esforço, a passo de caracol, por entre a multidão. Penso inverter a marcha mas, atrás de mim, já há dois carros e outros vêm em sentido contrário, tacteando o asfalto a medo. O condutor de um desses carros faz um comentário que não compreendo e de imediato é atacado por um galifão que salta de entre a populaça. Alguns populares agarram-no. O carro que segue à minha frente é mimoseado com vários murros no tejadilho. Viajo num descapotável e começo a temer o pior. No meio da multidão vejo um tipo esbracejar, tentando aproximar-se. Lança-me uns impropérios. “Bai p’rá discoteca, filho da p…! Isto aqui é pró pobo, num benhas chatear que ainda te f…. os cornos.”
Mantenho-me em silêncio, fingindo nada perceber . Respondo aos insultos com sorrisos e acenos. “ Oporto very nice!”Depois, com sotaque “ Muito bonito festa. Enjoy”. Os cabelos loiros e os olhos claros da minha companheira de viagem levam-nos a confundir-nos com turistas. A populaça diz ao murcon para se acalmar, porque somos turistas.“ Bai p´rá tua terra, cabrom! Podes deixar cá a garina c’a gente amassa-a bem” Ouço gargalhadas e vozes de reprovação. Um par de garinas põe-se a dançar acintosamente à frente do carro, impedindo a passagem. Vendo que não reajo à provocação, acabam por se afastar. Em boa hora, o carro atrás de mim lança uma buzinadela de protesto. As atenções voltam-se para ele e eu passo incólume. O conjunto musical continua a debitar decibéis.
Refeito do susto, confirmo que estou na segunda cidade do país, mas acabei de presenciar um episódio digno de uma aldeia de província. Não havia um polícia a regular o trânsito, não havia um aviso da festa, nem um cartaz a aconselhar um percurso alternativo. Quando cheguei a casa perguntei à minha mãe que festa era aquela. Disse-me tratar-se de uma homenagem a uma fonte de onde brota uma água milagrosa. Na manhã seguinte, pessoa avalizada em matéria canónica afiançou-me que se celebrava a festa do Senhor do Padrão (seja lá o que isso for).
Certo, certo, é que, depois de uma consulta internáutica fiquei a saber que ontem a festa foi abrilhantada pela actuação do conjunto musical Ponto Fixo. A avaliar pelas pernocas do elenco feminino, deve ter provocado um engarrafamento ainda mais problemático. E como não sou egoísta, aqui vos deixo com uma actuação deste reputado conjunto musical. ( Cabritinha)

7 comentários:

  1. Mau, mau Maria, Sr. CBO!
    Qu'é lá isso??
    Desconhecer a mais famosa festa de Carvalhido City, o inolvidável e religiosíssimo Senhor do Padrão, não é desconhecimento, é crime!
    Fosse o Padre Pacheco ainda vivo e dizia-lhe das boas, ai dizia, dizia!
    ;D

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  2. Carlos, que horror!
    Não sei se fiquei mais aterrorizada com a descrição da festa e dos modos educados da populaça, se com a actuação do conjunto (confesso que não aguentei mais de 20 segundos!).

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  3. Só não gostei do aldeia de provincia. Só se for de uma provincia de um país terceiro mundista, de outro continente, que não a Europa.

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  4. Apetece dizer "Há coisas fantásticas, não há?".

    Bem fez o Carlos: manter a compostura nestas alturas é sempre o melhor remédio.

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  5. Pois.
    Digo-lhe, igualmente, que a música deste conjunto costuma abrilhantar as greves em certas empresas.
    Até já postei sobre isso há imenso tempo.

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  6. Que aventura, Carlos! Sei bem que muitas vozes me condenarão, mas apenas constato uma realidade sem "maldade": o que é o Porto, que não uma aldeia grande?
    Da musica, (que tenho alguma dificuldade em comentar), digamos que o que me intriga mais é a letra... tem pouco conteúdo. E o cenário (recursos humanos incluídos) é um bocadinho pimba, mas há muita gente que gosta, portanto lá devem ter as suas qualidades. Abraço,
    Cristina

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