terça-feira, 8 de junho de 2010

Esquina da memória (4)

Não tencionava falar do “chip” que o governo quer colocar nas matrículas dos automóveis. No entanto, como sonhei com isso enquanto dormia a sesta e acordei estremunhado, corri para o computador a dar-vos conta dos meus receios.
Eu acredito que aquele ar de cachorrinho indefeso de um membro do governo na Assembleia da República, quando toda a oposição atacava a ideia, seja sincero. Eu não ponho em dúvida que a intenção do governo seja a mais piedosa e que o "chip” sirva apenas para o que o governo diz ( o que, convenhamos, já não é pouco).Não deixo, porém , de manifestar os meus receios.
Em primeiro lugar, porque um dos objectivos é obter informação para o planeamento de infra-estruturas. Ora já estou a ver a cena... um tipo qualquer descobre que há muita gente a ir para uma praia escondida, por um caminho de terra batida onde só é possível chegar num 4x4 e alvitra: “Eh pá e se construíssemos ali uma estrada, para evitar que esta malta estrague os automóveis?” A ideia até parece boa e piedosa, mas eu não gostaria de a ver em prática, pois assim qualquer dia as raríssimas praias onde se pode estar mais ou menos sossegado durante o verão desaparecem. Depois, há que pensar em quem vai gerir a coisa. Num país onde o segredo de justiça é constantemente violado, sem que nunca se descubra quem foi o “bufo”, quem me garante a mim que um dia não receba uma carta de um chantagista qualquer a informar:
“ passas para cá 10 mil euros, ou digo à tua mulher que estavas a namorar com outra num pinhal esconso. Está tudo lá no chip!”
A videovigilância nos prédios, nos parques de estacionamento, nas caixas multibanco, quiçá em breve em algumas ruas, não é suficiente?As hipóteses de invasão da privacidade de cada um poderiam multiplicar-se, mas termino com esta. Que garantias me dá o governo de que se um dia o poder cair nas mãos erradas, não vai utilizar os “chips” para fins menos recomendáveis? Nenhuma. Ora isso assusta-me e – depois de tudo quanto me foi revelado durante a sesta- chega para concluir que esta história do “chip” é uma pulhice. Ou então, não durmo mais a sesta, para não ter destes pesadelos.
Adenda: Este post foi publicado em Julho de 2008, quando o governo era maioritário e a proposta foi aprovada perante os protestos de toda a oposição. Hoje em minoria, Sócrates volta a ser confrontado pela oposição, empenhada em acabar com o chip. Não há casmurrice que dure eternamente. Para bem de todos nós.

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