sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Crónicas de Graça # 8

A pontualidade
Todos sabemos que a pontualidade não é propriamente um atributo dos portugueses. Aliás, na forma de viver lusa, o relógio não serve para ver as horas, mas sim de objecto decorativo. Seja ele de pulso ou de parede, o importante é que seja bonito, “fashion”, ou “fique mesmo bem em cima daquele móvel da sala”. É este apego pelo relógio, como elemento decorativo, que justifica o grande sucesso da “Boutique dos Relógios” onde se pode comprar um relógio por 240 mil euros. Convenhamos… qual é o interesse de comprar um relógio daquele preço para ver as horas, se qualquer computador ou telemóvel – objectos omnipresentes no nosso quotidiano- trazem um de borla?
Querem mais uma prova de que o relógio é um objecto ultrapassado? O Museu do Relógio em Serpa. Se o relógio não fosse um objecto obsoleto, como se explicaria a existência deste Museu?Na verdade, temos de reconhecer o sentido prático dos portugueses. Somos como somos e embora isso irrite muito os ingleses e os cidadãos de outros países da UE, somos felizes assim e faço votos para que não venha agora uma qualquer Directiva Comunitária obrigar-nos a cumprir rigorosamente os horários. Já basta a sardinha certificada para nos encher de orgulho, não precisamos agora de uma Directiva que nos promova a cidadãos pontuais. Por outro lado, quem anda num vaivém pelos corredores de Bruxelas,em ritmo ofegante à procura da sala onde se reúne a comissão de cujo nome já nem se lembra bem, mas que facilmente identifica porque dela faz parta uma italiana boazona, sentiria um certo desconforto se chegasse à sala e não ouvisse alguém dizer:
Pronto, já podemos começar a reunião. O português já chegou!”
Compreende-se. Se não fosse a nossa peculiar falta de pontualidade, ninguém nas comissões se apercebia que lá estavam portugueses.Por isso, senhores da Europa, deixem-nos ser felizes e continuar a não ser pontuais.É muito mais lógico e útil para os portugueses, que o significado da palavra “pontualidade” continue a ser “coisas pontuais”. Vai melhor connosco, com a nossa capacidade para improvisar e incapacidade para planear as coisas a médio ou longo prazo. É muito mais genuinamente português não planear nada e, por milagre, aparecerem alguns fora de série que conquistam medalhas olímpicas, do que planear tudo muito bem e, quando chega a hora da verdade, acontecer o fiasco.

Se planeássemos e fracassássemos,onde é que iríamos arranjar desculpas? Ainda nos JO de Pequim ficou bem demonstrada a nossa aversão ao planeamento. Tudo programado para trazermos uma catrefa de medalhas e quase toda a gente falhou, lançando o mau estar no seio da selecção olímpica e os ataques da comunicação social. Tudo se teria evitado, se a delegação portuguesa tivesse deixado correr o marfim sem grande preocupações.
Vejam o exemplo de Marcos Fortes, eliminado logo nas provas de qualificação. O rapaz estava habituado a treinar só de tarde e marcaram-lhe as provas para de manhã, claro que chegou atrasado e ensonado. Ora isso é natural, o que não é normal é que obriguem os nossos atletas a competir fora dos horários a que estão acostumados. Como se não bastasse terem de defrontar a diferença de fusos horários…
O português arranja justificações para tudo, adora improvisar,exulta com as acções pontuais, mesmo que desprovidas de qualquer lógica, porque sublinham a sua criatividade. É nesse ritmo de vida que se sente bem.Sendo o improviso uma das características marcantes do português, não é de estranhar que ao chegar atrasado a um encontro, tenha na ponta da língua a justificação adequada. Na verdade o português nunca se atrasa… chega atrasado, porque o autocarro teve uma avaria, o trânsito estava infernal, a tia avó teve uma doença súbita, a gata passou a noite com cólicas, porque estava calor, ou estava frio, chovia ou estava sol. Por isso se explica que, apesar da crise, o nosso primeiro-ministro ( um atrasado incorrigível) continue optimista. Havemos de encontrar uma solução e lá nos desenrascaremos. O importante é ter calma.

A falta de pontualidade dos portugueses já não me irrita, porque me deixa os nervos em franja. Por isso delirei quando, há tempos, o António Fagundes impediu que os retardatários vissem o seu espectáculo no Pavilhão Atlântico mas, dois dias depois, mergulhei numa grande depressão, quando fui ao cinema e me obrigaram a levantar meia dúzia de vezes, após o começo do filme, para deixar passar os atrasados.
Em Portugal nada se faz a horas: perdem-se tempos intermináveis em consultórios de médicos pagos a peso de ouro; desespera-se pela entrega da mobília, do televisor, da peça de roupa, ou de um simples par de óculos,certamente porque as empresas que fornecem estes produtos são como algumas pessoas finas que gostam de chegar atrasadas a todo o lado, para dar nas vistas.
Saúdo,pois, a iniciativa de um grupo de cidadãos que decidiu apresentar uma petição na Assembleia da República, no intuito de tornar os portugueses mais pontuais. O problema é que, graças à falta de pontualidade dos nosso deputados, ainda não houve tempo para a analisar.
Já agora, se chegarem atrasados a um encontro, porque estiveram a ler esta insípida CG, podem atirar as culpas para cima de mim à vontade. Com uma condição: têm de obrigar a pessoa que fizeram esperar, a lê-la.
Já agora, digam-lhe também para ler a da minha parceira, que deve ter muito mais graça do que esta.

25 comentários:

  1. Ó Carlos eu ainda estou rindo com:

    “Pronto, já podemos começar a reunião. O português já chegou!

    A reunião ia ter muito mais graça e ninguém ia reparar na italiana boazuda (é assim que se diz por aqui) hehehe

    Já fui ler a crônica da parceira mas estava atrasada para um compromisso e não pude comentar. Fiquei em voltar entre tres ou cinco horas. hehehehe

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  2. Carlos , li primeiro a da sua parceira e concordo consigo , tem muito mais graça :-).
    No cinema ,as pipocas e os atrasados dão cabo do prazer de ir ver um filme.
    Um belo fim de semana .

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  3. Carlos, noto que se esboçam, entre nós, em matéria de pontualidade, algumas tendências interessantes. Assim, pontualidade começa a significar, na vida profissional, chegar à hora marcada e, na vida social, chegar uma hora depois. Parece-me um compromisso aceitável, desde que todos nos sintonizemos quanto a conceitos. ;-)

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  4. Essa é uma característica que me põe fora de mim - e logo por azar, eu que - não possuindo relógio - ando sempre a olhar para o telemóvel, para não chegar atrasada, farto-me de apanhar banhadas de falta de pontualidade, por vezes enormes, a começar por quase toda a família...

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  5. Eu já desconfiava que era cá dos meus...

    Quanto à peça dos Fagundes, havia de ver o pessoal todo a olhar para trás a ver as portas a fecharem-se, confirmando se era mesmo verdade que que mais ninguém entraria.

    Esta falta de pontualidade é caso de internamente em algumas pessoas, e o pior é a falta de consciência do que isso pode afectar grandemente os outros em muitos casos.

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  6. Eu , que tenho a mania de cumprir horários, quando dou Formação começo sempre a horas.
    O que já me valeu algumas caras enjoadas, rrss

    Bom fim de semana.

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  7. Carlos,
    Estamos de acordo em quase tudo, aqui enste post.
    irrita-me a falta de pontualidade, os atrasos - mas ainda me irrita mais as desculpas para justificar o atraso, seja trânsito ou sei lá o que mais.Cinema vs atrasados... IRRA!
    Relógios, o meu preferido foi-me oferecido, não tem grande valor comercial, mas tem com ele um bocado de mim. não o uso, mas guardo-o numa caixa, daquelas onde se guardam as coisas invisíveis, como as que o meia-noite descrevia...
    Vou ler a vizinha.

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  8. Essa do ...português já chegou!
    É fantástica!
    A falta de pontualidade arrasta consigo uma série de outros "pequenos" defeitos também irritantes:
    não conseguir dizer que não...,
    não se organizar,enfim não gosto nada de esperar!!!

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  9. Uma sintonia de um relógio Suiço com a presidentA: na imagem e no exemplo do António Fagundes...
    Como disse à Patti só uma hora de chegada, a combinada.
    Para mim os relógios são um adereço muito importante, ou seja, tenho relógios diferentes para diferentes ocasiões e roupa.Um vicio danado de caro, mas como sabem deste meu gosto, vou tendo umas prendas bem interessantes, no Natal foram dois bem bonitos.

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  10. Uma sintonia de um relógio Suiço com a presidentA: na imagem e no exemplo do António Fagundes...
    Como disse à Patti só uma hora de chegada, a combinada.
    Para mim os relógios são um adereço muito importante, ou seja, tenho relógios diferentes para diferentes ocasiões e roupa.Um vicio danado de caro, mas como sabem deste meu gosto, vou tendo umas prendas bem interessantes, no Natal foram dois bem bonitos.

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  11. Engraçado que uma crónica sobre a pontualidade, chegou um pouco atrasada... (a julgar pelo texto anterior) :)))

    A falta de pontualidade dos portugueses têm algumas nuances um bocado enervantes, como essa dos médicos pagos a peso de ouro, em que apesar dos pacientes terem hora marcada esperam horas até ser atendidos, ou essa dos retardatários a entrar tarde no cinema ou no teatro, o homem que vem reparar a máquina da roupa às 2 e afinal aparece às 6 da tarde (quando aparece) entre mais umas quantas.

    Mas há casos, normalmente combinações entre amigos para vir tomar um café a nossa casa ou coisa, que mais 5 ou 10 minutos não aquentam nem arrefentam. Sempre achei aquela figura do coelho da Alice no País das Maravilhas muito embirrante. As pessoas não têm de andar sempre com os olhos postos no relógio.

    Quanto ao Marco Fortes, continuo a achar que o atleta foi ingénuo, disse uma coisa que poderia dizer a um amigo, não à imprensa sempre desejosa de aproveitar escândalos. A culpa da "má" prestação olímpica foi da própria comissão (ou comité, que não me lembro ao certo como se chama), que começou a gabar-se antes de tempo das medalhas todas que ia trazer, no meu entender com excessivo optimismo (para não lhe chamar megalomania). Se tivessem feito uma avaliação equilibrada e sensata, não teria havia tanta celeuma. E claro, quem pagou as favas foi o tal atleta, por causa de umas declarações que não têm nada de invulgar - o fuso horário é realmente muito diferente, os grandes atletas já lá estavam há vários dias para se adaptarem, os mais fracos não. Gostei menos ainda do "castigo" que lhe deram, como se fossem professores primários do "antigamente" a pôr orelhas de burro ao menino sentado no canto da sala. Muito injusto!!!

    Bom fim-de-semana! (sem atrasos!)

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  12. Puf, puf, puf, cheguei só agora, depois de ter sido apanhada no trânsito, a gata ter tido cólicas e a reunião se ter alongado mais do que o previsto, puf, puf, puf, mas pronto, do que é que se fala hoje mesmo hoje nas CG???

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  13. Aqui há uns anos, na Empresa onde trabalhava, chegou um novo Director-Geral, inglês, com era costume. Marcou uma reunião para as nove da manhã e,claro, como era hábito, uma boa parte da 'rapaziada' chegou atrasada. Resultado: não assistiram à reunião porque a porta estava fechada e a secretária tinha ordens rigorosas para não entrar ninguém. Resultado: na reunião seguinte, a rapaziada estava toda aos 5 para as nove.
    Faltou dizer que o DG anterior, inglês, que estava cá havia um ror de anos, já tinha aprendido com a malta a não ser pontual.

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  14. Carlos, e eu, para não fugir à regra, cheguei atrasado. Em África a relação com a pontualidade era mais respeitosa e eu como vivi no Reino Unido, os atrasos, tal como a si, deixam-me com os nervos em franja (até os meus, que errare humanum est).

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  15. Já lá fui à sua parceira... e também "botei faladura", como não podia deixar de ser.
    …Na minha profissão, são constantes os atrasos e pior que isso, a aceitação deles! Num Tribunal, "nunca" se chega a tempo!!! Mas espera-se pacientemente... Só assisti a um caso único onde os infractores foram severamente punidos (mas não repito, porque deixei no comentário nos Ares). De resto, espera-se, e espera-se estupidamente com naturalidade.
    De qualquer maneira, há que distinguir entre os atrasados bem educados e os atrasados mal educados: Uns desculpam-se por chegarem atrasados, outros ainda são impertinentes.
    Um dia, no Porto, tive um julgamento marcado para as 9h. Fizeram a chamada e a colega não estava. Repetiu-se a chamada, passado meia hora, e a colega continuava a faltar. Esperou-se, naturalmente! A Juíza, como tinha outro julgamento marcado para as 10h (o nosso caso era rápido), a certa altura, ultrapassadas que iam em muito as 10h, mandou a funcionária avisar-nos (a mim e aos meus, que chegamos sempre um pouco antes do tempo), que iria começar o outro julgamento e depois fazia o nosso.
    Ora, a minha ilustre colega, quando chegou, já perto das 10h30, nem a mim se dirigiu. Eu, logo que pude, disse-lhe que não tinha sido nada agradável o atraso, até porque tinha provocado um atraso ainda maior, pois teríamos que esperar pelo fim do outro julgamento que entretanto tinha começado.
    A minha ilustre colega, olhou para mim com cara de superioridade e respondeu-me “Ah, eu já não tenho idade, nem pachorra para chegar a horas!

    (e eu, apesar de chegar sempre a tempo e mais que tempo, não uso relógio...)

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  16. Eu sei que chego antes da hora e, na maioria, as pessoas que lidam comigo são pontuais.
    No entanto o povo português é considerado um povo com falta de pontualidade.
    Acho muitas vezes que a culpa é do relógio, Carlos. ;)

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  17. Odeio esperar por isso não faço esperar os outros. Simples.
    Mas o pior de tudo são as esperas nos consultórios.
    Nos Estados Unidos chega-se um minuto atarasado e a consulta já era.
    Se eles se atrasarem dá direito a indemnização ou não se paga. Giro, não é?
    Veludinhos

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  18. Olá Carlos,
    Crónica com muita ironia sobre os «males» portugueses...gostei!?...
    Mas não é geral, eu peco pela pontualidade antecipada. Se marco um encontro, por exemplo às 15, estou lá às 14.30 e as pessoas só chegam, cerca das 15.30...está a ver a cena? A pessoa chega com as suas desculpas esfarrapadas e eu digo «não faz mal, acabei de chegar!» Não quero passar por parva!?...
    O retrato que traçou está realmente óptimo, eu só me referi a quem padece por causa dos atrasados.
    Um abraço e bom fim de semana,
    Manuela

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  19. E as mentalidades são das coisas mais difíceis de alterar...
    Beijinhos.

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  20. A sua parceira já deve ter as orelhas a arder. Mázinha como é, fez questão de nos fazer esperar pelo post sobre pontualidade. Estive lá e cá na horinha combinada, não fora o aviso aqui no CR e a seca tinha sido enorme. A repensar os honorários dela, sim, que isto não é o da Joana.

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  21. Eu, que conto os relógios entre uma das minhas paixões, tenho de confessar que tive de aprender a ser pontual.
    E tenho que confessar também que, o não ser pontual, me trouxe alguns dissabores.
    Enfim, além de ser algo de muito feio, e uma falta de respeito para com os outros, não é muito aconselhável porque se presta a chatices das grossas....

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  22. Eu não vou comentar este texto, nem o anterior, por exemplo, Carlos. Direi, apenas, que são magníficos. Não precisa de mais opiniões e a minha será sempre paupérrima para tanta qualidade. Aliás, até podíamos optar por ler, relaxar, reflectir e reconsiderar uma série de coisas que estão mal em nós.
    Há nas Crónicas do Rochedo uma série de textos que me fascinam. Eu não posso comentar todos porque, infelizmente e sobretudo agora, tenho de dosear a minha actividade, dispersa em mil e uma coisas.
    Nos textos escritos, seja na página da frente que na contra-página, com estilos subtilmente distintos um do outro, mas que se nota pertencerem a duas pessoas que me parece serem diferentes mas deliciosamente iguais, há uma coisa em comum: a grande qualidade, a harmonia evidente, elevada qualidade na forma como o humor toca temas sérios, ao ponto de dispersar as nossas preocupações pelo nosso encontro com vivências naturais e comuns a todo o ser humano, mas sobre os quais não sentimos o mesmo à-vontade de falar ou escrever, seja por timidez, seja por não sermos possuidores dum intelecto tão desenvolvido.
    Os meus muito sinceros parabéns.
    Nota: Atenção que isto não é um lisonjeio. É, sinceramente, uma manifestação de puro agrado.

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  23. Carlos,
    É na verdade uma característica nossa e sabe lá se não vem daqui outra caracteristica que é também tão nossa: o desenrasca.
    Contudo a 1ª não deixa de ser enervante e de mostar a falta de civismo de um povo.
    Beijo

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  24. É verdade que não uso relógio no pulso e, como português que sou, muitas das vezes quando me atraso já chego com uma desculpa escondida na manga, mas desta vez confesso que não tenho desculpas para chegar atrasado ao Rochedo!

    Como atempadamente disse na cronica da parceira, incomoda-me chegar atrasado quando deixo pessoas à minha espera. No teatro deveria ser como nas salas de cinema que costumo frequentar. Não têm lugares marcados e assim quem chegar mais cedo apanha os melhores mesmo correndo o risco de adormecer antes do inicio da secção!

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  25. Esta história de sermos "atrasados" está-nos na massa do sangue.

    Trabalhei durante uma vida numa empresa Sueca e a pontualidade só começou quando a Direcção passou a ser estrangeira.
    E quer fossem Suecos, Argentinos, Austríacos ou Espanhóis, todos eram pontuais menos os Portugueses.

    Que raiva!!!!!

    Foi necessário implementar o estratagema das Reuniões ao Pequeno Almoço, com o cujo dito incluído, para deixarem de ter desculpas e começarem a produzir antes das 9:00horas.

    Há coisas que em Portugal nunca irão mudar - a falta de pontualidade é uma delas. A outra é a corrupção.

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