sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Crónicas de Graça # 1

O DOURO
Perto de Mesão Frio, olho o Douro desde a varanda de um dos muitos hotéis de charme que ladeiam as suas margens. Deixo-me envolver pela beleza ora romântica, ora agreste, da paisagem envolvente. Aqui o rio segue lento, descrevendo curvas largas, entre margens elevadas, onde se pode ver a azáfama das vindimas. As cores acobreadas do Outono emprestam uma beleza ímpar à paisagem, que não tem cotejo semelhante em nenhuma das outras estações do ano.
Vêm oferecer-me um Porto. Acompanhado de umas uvas rosadas criadas naquelas margens. Lembro-me de D. Antónia, a arrojada empresária que no século XIX introduziu profundas inovações no cultivo do vinho do Porto. Indiferente às críticas dos ingleses e ao desprezo da Coroa que, em Lisboa, apenas se preocupava com os impostos que poderia arrecadar, D. Antónia expandiu o negócio com o recurso a novas técnicas de cultivo. Como a Coroa abrilhantava as suas festas com vinhos espanhóis, desprezando o vinho do Douro, vendeu-o aos sabidos e emproados ingleses que o erigiram a néctar de príncipes em muito bem frequentados círculos da nobreza.
Bebo mais um gole. Espraio a vista para poente e deixo-me levar pelas águas do Douro. Atravesso barragens, faço o rewind de episódios da sua e da minha história, fixo alguns instantâneos ao longo do percurso até ao cais de Gaia, onde ele se espreguiça num amplexo ao casario da Ribeira e lança um aceno ao Palácio e Cristal e ao Museu do Vinho do Porto antes de, decidido, mergulhar na águas do Atlântico, junto à Foz. Neste seu trecho final, que Carlos Tê fixou em poema e Rui Veloso imortalizou na canção “Porto Sentido”, o Douro encerra boa parte da sua História. É o Douro de exportação. Não por ser do cais de Gaia, que partiam os barcos carregados de vinho para terras de Sua Majestade. Antes, por ser este trecho do Douro, “Da Ribeira até à Foz”, o mais retratado por pintores, filmado na sua faina por Manoel de Oliveira, ninho de histórias de amor transpostas em livro, cenário do episódio trágico da Ponte das Barcas, ou palco de enredos de mistério, tragédias, segredos e traições, que o americano Richard Zimmler verteu para um dos seus mais belos livros, traduzido em várias línguas: “Meia-Noite ou o Princípio do Mundo”.
No último fim de semana, quando o Palácio do Freixo renasceu transformado na mais recente Pousada de Portugal, os hóspedes que a encheram terão tido oportunidade de observar o encanto do Douro e de lembrar alguns destes episódios, apreciar algumas imagens fixadas pelas câmaras de fotógrafos - poetas ou pelo pincel de artistas como Júlio Resende. Mas este trecho do Douro de exportação, cantado por poetas e levado além fronteiras como bilhete postal para atracção de turistas, encerra apenas uma ínfima parte da sua História e beleza. Quem fizer a viagem de barco desde a Foz até à fronteira espanhola, terá muitas razões para, terminada a viagem, sair do barco com o estupor estampado nas faces. Porquê?

Porque um bom guia não se terá limitado a chamar repetidas vezes a atenção do viajante para a beleza do percurso entre a Régua e o Pinhão, ou dali a Barca d’Alva, onde a paisagem se torna mais agreste e majestática e o atravessar das barragens lhe confere uma pitada de nobreza e esplendor. Não se terá sentido satisfeito perante o êxtase rendido dos turistas, de câmaras apontadas para fixar o serpenteado irrequieto entre vinhedos, descendo em socalco até às margens. Um bom guia terá aproveitado para chamar a atenção do viajante para o local onde D. Antónia viu desaparecer, sugado pelas águas, o seu extremoso amigo Barão de Forrester. Terá assinalado os locais que foram palco de batalhas durante a Guerra Peninsular- que haveria de ter repercussões de enorme relevância no redesenhar do mapa político da América do Sul- e as Guerras Liberais – que determinaram a derrota dos absolutistas de D. Miguel- e terá realçado, ao longo da viagem, os 10 locais da bacia do Douro classificados pela UNESCO como Património Mundial da Humanidade. Depois de confrontar o viajante com o significado histórico do Douro, para a construção do Portugal do século XXI, o guia ter-lhe-á despertado a vontade de ficar hospedado, duas ou três noites, num dos hotéis de charme que bordejam o Douro e de o descobrir, através das suas margens, num passeio de automóvel que o levará a conhecer algumas das Quintas onde se produzem os magníficos vinhos desta região. Vinhos cuja categoria é muitas vezes desdenhada, mas isso não é novidade para estas gentes bem lembradas do desprezo com que a Coroa tratava o vinho do Porto e todos os que diariamente labutavam na melhoria da sua qualidade. As gentes do Douro habituaram-se a ser vistas pelo poder de Lisboa como pacóvios de ideias tontas, mergulhados na ruralidade, alheados dos progressos do mundo. É assim desde os tempos da Coroa. Calejadas de tanta indiferença, as gentes do Douro vêem, orgulhosas, o seu rio tornar-se , em 2009, palco de um Festival Internacional de Cinema que, nesta sua primeira edição, trouxe à região alguns grandes nomes da 7ª Arte. Mais um cartaz internacional de promoção do Douro.
Acabo de beber o cálice de Porto. Olho para nascente. Imagino-me na varanda de um quarto da pousada de Stª Catarina em Miranda do Douro. Lá em baixo vejo o Douro a sair de Espanha. Ainda minúsculo, mas já rebelde, cavando fundo o seu leito, entre margens encrespadas. É aqui, ao entrar em Portugal, que o Douro começa a moldar o seu carácter. E o das nobres gentes que comungam diariamente com ele, na sua faina diária.
Haverá em Portugal, algum outro rio com a importância e a beleza do Douro?

35 comentários:

  1. Que delícia de parceria...gostei de ler sobre a essência do vinho encorpado, adocicado e intenso que gosto de bebericar no final de algumas tardes :o)

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  2. Há sim senhor, o Corgo que me viu nascer! Foi nas suas margens que aprendi a degustar vinho fino.

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  3. Parabéns o texto está magnifico e verdadeiramente sentido, o Douro tem esse dom de despertar emoções.
    Mário Ferreira

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  4. Lindo CBO! Valeu a pena a espera! Que grande e maravilhosa surpresa :-)

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  5. Grande espectáculo e hino ao nosso outrora selvagem Douro e agora mais calmo!

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  6. Carlos

    Surpreendete idéia essa de trazer-nos duas cidades, ou melhor, dois rios cantados por seus filhos, rios símbolos dessas cidades que se dizem rivais, mas que na verdade se namoram, rios que carregam em si a história gloriosa da nação portuguesa.
    O Carlos fala-nos de um Douro vibrante, Patti fala-nos de um Tejo nostalgico, ambos com o mesmo orgulho, o mesmo amor...
    Parabéns a ambos pelos excelentes textos que nos fazem navegar por águas portuguesas com emoção e saudades, como cabe a uma alma portuguesa nascida no aquém-mar.

    Dulce

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  7. Sem dúvida que a espera foi merecida!

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  8. Bonitas vozes cantando os "seus" rios - belíssimo dueto - não deixando de haver "cumpliCidades"...:))

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  9. O Douro e o Tejo - incomparáveis!
    Mas, mais meu é o Douro.
    E mais meu ainda é o Mondego!

    Texto esplêndido, Carlos.
    E agors vou apanhar o Alfa e pendular para cumprimentar a Patti, que também fez um texto magnífico!

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  10. Já subi o Douro do cais de Gaia até Barca d' Alva e recomendo. Concordo com grande parte do que escreve, é realmente a partir da Régua que o percurso se torna sublime.

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  11. Finalmente, subi o rio Tejo ao encontro do Douro ... deveria haver um confluente chamado Tejouro.
    O texto da Patti, mais poético, muito feminino; o seu, muito diletante, muito dandy, muito winy.

    O dela é sofá onde repouso e o seu é o copo de vinho que saboreio.

    Hoje estou assim ... estranha!

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  12. Carlos,
    Só posso dizer à moda do Porto:carago!!! Põe-me em suspense, faz-me puxar pela imaginação (concerteza que eu não a devo ter), faz a contagem decrescente do tempo para o grande acontecimento, diz que será tudo esclarecido à meia noite e UM MINUTO (se fosse a cinderela estava tramada...) e depois o artigo é sobre o rio Douro? Não está em causa o texto pois como sempre está brilhantemente descrito (eu já fiz esse trajecto da Régua a Barca DÀlva de comboio, barco e parte a pé), mas depois de tanta espera, Carlos, fez-me lembrar alguém...
    Não me desiludiu mas confesso que esperava algo diferente.
    Beijo

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  13. Entre poética e histórica, entre nostálgica e actual, a tua crónica é um encantador passeio pela alma deste Douro magnífico.
    Acompanho-te num cálice em sua honra
    (e que bem correm os dois rios, no correr das palavras dos dois autores)

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  14. Ah, que crónicas delicodoces, parceria imbatível e profícua!
    Uma lufada de ar fresco na blogosfera e na escrita, que tão bem me fez ler!!

    E a provar isso vou dizer isto mesmo à Patti!

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  15. Gostei imenso desta crónica, nem outra coisa poderia ser, porque lhe encontro a beleza de uma grande expressividade aliada a uma boa escrita. Nela, na sua crónica, reconheci a crítica velada ao miserável jeito dos portugueses, aqui representado pela figura mais emblemática de uma nação, o seu Rei, que sempre menosprezaram o que se fazia em Portugal, neste caso o maravilhoso néctar dos Deuses, que é o vinho do Porto. Enfim, se se atentar na nossa História, bem facilmente concluímos que fomos governados por Reis, que, por muito distintos que tivessem sido, também tinham muito de labregos! Por acaso estava a par deste infeliz procedimento da parte da infausta realeza que nos coube em sorte, porque há tempos havia lido o livro "A Fúria das Vinhas", de Moita Flores, que descreve a encarniçada luta de D. Antónia para salvar as vinhas do Douro com a implantação de novos métodos de cultivo.

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  16. Bela parceria e palavras que o vento não leva.
    Só há um problema, Carlos. A partir de agora, ninguém vai discordar da PresidentA e se a ajudante se põe atrás da multa, estamos feitos... Só há uma solução, camaradas. Temos de reunir, já!

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  17. O meu parceiro mais parece um dandy, qual Oscar Wilde, de cálice de Porto na mão com um olhar longínquo, desfrutando os prazeres que a vida lhe proporciona.

    E depois desta maravilha portuguesa, segue-se um bridge e uma sessão de charutos?

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  18. Óptimo texto Raul, quanto ao Douro, eu sou do norte «carago», o rio atravessa a minha alma e o passeio pelo rio acima é assombroso!..
    Um aparte, eu como sou contestatária, vi com tristeza o Palácio do Freixo, ser entregue a privados. Um espaço usufurído por todos, passa a ser um espaço, para alguns!..Lembro-me de vários eventos culturais, entre eles a grande exposição a Dali.
    Um abraço e bom fim de semana.
    PS. Cheguei para ficar e que bom blog eu encontrei!?...

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  19. Fantástico texto, Carlos. E o Douro mereceo-o inteiramente.
    :-)

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  20. Quando falo do Douro a quem não conhece, digo sempre-"não se deve morrer sem aí ir..."
    Bfs.

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  21. Uma das minhas viagens mais fantásticas que fiz até hoje leva-me a 1991 quando fui do porto até mirandela de comboio,guardo na memória as imagens fantásticas que fiz douro acima.É um crime a linha do tua não estar reabilitada e disponivel.Também já fiz a subida do douro de barco,mas nada que se compare com a viagem de comboio.

    p.s. vídeo com imagens inéditas de anne frank no vila forte,acho que vai gostar de ver.

    grande abraço e valeu a pena a espera, CBO e presidentA sempre em altas.obrigado aos dois.

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  22. É claro que não há Carlos, mas eu também sou suspeito, não sou?

    É ao sabor do vento, o mesmo que enche a vela de um barco Rabelo, que eu me guio pela memória dos meus tempos de meninice. Estou na estação ferroviária de Freixo de Numão que serve também Mós do Douro, terra de meus avós. Vejo o Perguiça na faina pesca ao saboroso sável. Entro no comboio que vem de Barca D'alva e sigo ao londo do rio, entre pontes e túneis, belo e pachorrento até à Régua. Agora na outra margem, continuo viagem e passo por ti. Lanço um brinde de cálice do Porto desde a estação de Barqueiros e perparo a minha saida na Ermida. Tomo o caminho estreito e sinuoso para a aldeia dos meus avós, no lugar do Castelo. No cimo da ponte detenho-me por momentos e fico a contemplar com o rio que me ensinou a nadar. Com ele recordei as tardes passadas juntos a pescar bogas com canas da índia, tomar banhos de sol na foz do ribeiro Teixeira e a forma destemida, e até imprudente, como eu e o meu irmão nadavamos de uma para a outra margem, só para ir comer laranjas e chatear o dono da quinta.

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  23. Claro, que o Douro é o rio mais Lindo! Por acaso o Tejo é património da humanidade? O Douro é!
    Estão os dois de parabéns.

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  24. Carlos, quando vi do que se tratava, fui à sala e me servi de um porto que sempre tenho por aqui. Depois de ler este e outros dois textos seus sobre o seu Douro, creia, tomar um Porto ganhou outro sabor. Você ama estas paragens e nos contagia. Beijo meu, bom fim de semana. Esperando agora pelo seu passeio pelos jardins, viu?

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  25. E eu que ando há tanto tempo para fazer este percurso. Obrigada!
    agora vou ao Tejo que ontem estava cansada.

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  26. Conheço bem a zona de que fala. É de uma beleza soberba. Junta à beleza natural a beleza de uma obra humana excepcional. Aqueles socalcos plantados de vinha revelam o que podemos chamar um ideal de vida: superação, transcendência, elevação (ia-me saindo o cituis, altius e fortius)
    Não, não há em Portugal um rio como o Douro...
    :)))

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  27. SE Deus quiser o ano que vem vamos conhecer a beleza do Douro com mamae.
    E se tivermos sorte grande teremos na memoria o meu guia particular, porque esta cronica irá comigo para le-la pertinho do Douro.
    Com carinho Monica

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  28. Eu sou uma alfacinha com alma tripeira :-)
    Adorei o texto (só me assustei quando deparei com a D. Antónia, mulher determinada, vanguardista, reconhecço, mas sabe a luta que ela empreendeu para acabar comigo, não sabe???).
    Também sonho fazer um dia esse cruzeiro.
    De parabéns está o Carlos e a Patti por esta iniciativa.
    Um beijo.

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  29. Agora, mais do que nunca, tornou-se imperativo que faça esse passeio ao longo de um rio que só conheço aos pedaços. Parabéns por esta Crónica de Graça, Carlos.
    P.S.: O Tejo é um rival de peso. Mas não posso comparar. Também só o conheço aos pedaços. ;-D

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  30. AMIGO CARLOS

    BELA E ENVOLVENTE A TUA ESCRITA.

    PARABÉNS.

    HOJE faço uma homenagem à minha sobrinha Tânia do Bookcrossing, falecida em Março passado:

    Minha querida, um “grande amigo” recente, também da blogosfera, mas já real, em Abril passado, já depois da tua partida para sempre da minha vida, fez o percurso “Caminhos de Santiago” ( conheceu-te através de mim, do meu sofrimento, da partilha de emoções) e, juntamente com os seus companheiros de caminhada rezaram por ti e fizeram uma oferta pela tua alma, deixando no local um símbolo e umas florzinhas do campo.
    LINDO, não é?
    Aqui estão duas imagens desse “momento”.
    Faço-te homenagem nos meus dois blogues, neste "teu dia".

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  31. Ai, Carlos, de repente fiquei com uma vontade louca de voltar " lá".

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  32. A todos os vizinhos:
    Muito obrigado pelos vossos comentários que são um incentivo para continuar esta parceria quinzenal com a PresidentA. Em termos pessoais é uma experiêrncia muito gratificante por várias razões, não sendo a menos importante,acreditar que as coimas aplicadas ao Rochedo possam tornar-se menos pesadas.
    Aos leitores que me visitaram ( ou deixaram o seu comentário) pela primeira vez, agradeço e espero que voltem a honrar-me com a sua presença neste Rochedo.

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  33. Amigo,

    Gostei tanto que, sem pedir autorização, publiquei um niquinho de ambos os textos para engodar os meus visitantes a visitarem-vos o Ares e o Rochedo.

    Parabéns e voltarei, claro!

    PS - Este é o copy/paste do comentário que fiz no Ares.

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  34. Foi bom chegar a estas palavras com o meu Douro dentro :)

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