sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Gracias a la vida (que me ha dado tanto)*

No Parque Flamengo, durante a Cimeira da Terra no Rio de Janeiro (1992)*

Não sei se a minha vida é boa ou má. Talvez já tenha vivido outras mas, como não me lembro, vivo esta como se fosse a primeira- a única- sem fazer comparações.Sei que não gostaria de viver certas vidas. Daquelas muito organizadinhas, com empregos das 9 às 5, regresso a casa com passagem obrigatória pela escola para ir buscar os filhos que alguém deixou lá pela manhã, fazer o jantar, tratar dos filhos, pô-los a dormir e depois de uns minutos diante do televisor ir para a cama à espera do dia seguinte. Jantar uma vez por semana em casa dos pais ou dos sogros, almoçar fora no domingo, Natais alternados em casa dos pais ou dos sogros, férias em Agosto, porque as aulas dos filhos, a profissão, ou outra merda qualquer, a isso obrigam. Nem sei se vidas destas são realmente vidas, ou programas de computador delineados com algum cinismo por alguém que decidiu divertir-se. Mas isso é argumento para outra história…
Também não gostaria de ter vida de político. Sempre a tentar satisfazer ou a encontrar pretextos para recusar as cunhas dos amigos. Sempre a fazer concessões para tentar encontrar consensos com os partidos de oposição, com os lobbies que têm mais poder do que os governos, a procurar garantir os direitos das minorias e a arcar com críticas de todas as partes. Em deslocações constantes de carro ou avião, mas sem tempo para saborear os prazeres dos locais por onde se deslocam. Com a sensação, permanente, de que estaria a gastar dinheiro dos impostos dos contribuintes que, com o esforço do seu trabalho, me pagam o salário e as extravagâncias. Está bem, eu sei que o Berlusconni vai às putas com dinheiro dos contribuintes e não se chateia nada com isso, mas comigo não dava…
Também não gostava de ser vedeta. Nem do desporto, nem do espectáculo. Passar a vida a ser assediado por fanáticos a pedirem-me autógrafos, perseguido por “paparazzis” ansiosos por me apanharem a “curtir” com uma fulana numa piscina ou numa praia, fazer anúncios idiotas a produtos que nem consumo, frequentar festas do “jet set” e deixar-me fotografar com um sorriso nos lábios, quando a minha vontade é correr tudo à lambada, não faz o meu género.
Sou demasiado preguiçoso para ser vedeta. Gosto da minha privacidade e do convívio, em paz, com gente que valha a pena. Detesto sorrisos de celofane, beijar mamas de silicone, conversar com idiotas, aturar gente burra que gasta a vida nos convívios do croquete, a beber whiskey marado. Vedeta, para mim, também não dá!
Não me importaria, talvez, de ser muito rico. Sei que eles dizem que ser muito rico é chato, dá muito trabalho e obriga a pagar muitos impostos, mas mesmo assim talvez gostasse de experimentar. Não sendo possível, procuro contentar-me com o que tenho porque , na verdade, olho para o meu lado e penso que não tenho razões de queixa.
Não sei se a minha vida é boa ou má. É a que tenho e não faço comparações com as vidas dos outros. Sei que sempre fiz escolhas de trabalho, com base no prazer. Trabalhar não pode ser uma angústia permanente, um sacrifício que arrastamos, como se estivéssemos agrilhoados a cumprir uma penitência. Tive sorte. Perdi algumas oportunidades, mas ganhei experiências de vida que não trocaria por ordenados milionários. Creio ter razões para considerar que, apesar de todas as agruras com que a vida me presenteou, tenho sido uma pessoa feliz.
Enquanto as minhas células não destrambelharem, os neurónios funcionarem sem percalços, os órgãos não se queixarem que os ando a tratar mal, as pernas me permitirem dar caminhadas à beira mar e os olhos me permitirem ver as belezas do mundo, continuo a achar que tenho uma boa vida.
* Sim, eu estava lá...
"Gracias a la vida" é uma canção de Violeta Parra, a quem presto hoje homenagem no Delito de Opinião.

23 comentários:

  1. E pronto, foi hoje... tenho andado a lê-lo sem fazer comentários, mas parece que fez uma aposta em escrever textos e escolher músicas de propósito para me obrigar a sair dos bastidores! Tem sim, razões para agradecer. Quem escreve um texto destes tem razões para agradecer.
    Beijinhos.

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  2. Hummm como o entendo...
    Ah e fui ao Rio logo logo depois da cimeira...
    :))

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  3. Sensacional!!!
    Também não reclamo da vida e me sinto agraciada, apesar de não ser milionária...kkkkk....
    Organização, metas, formas, regras, "sorrisos de celofane", imposições, procurar pretextos, fazer concessões,convenções...não são lá o meu forte.
    Apesar de trabalho, filho, escola e trabalho minha vida não é bem o que chamaria de rotina.Aliás não me encaixo bem em nenhum programa pré definido.Como também não me encaixo bem em alguns cenários.
    À boca pequena, já ouvi dizer que me chamaram de má influência por ter pensamentos muito "libertadores", essa é outra coisa que me faz rir.
    Mas fiquei à pensar no que escreveu: será que minhas células já não nasceram assim meio que destrambelhadas??? Acho que não...destrambelhados são os outros :o)
    Nosssa...ECO92, faz tempo...

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  4. voui a casa dos pais uma vez de 15 em 15 em média, casa sogros quase todos fds, levo e vou buscar os putos, mas depois tenho as minhas turtulias, blogosféricas, académicas, futebolisticas e não dispensamo alguns fds fora e férias daquelas de viajar 2 a 3 vezes ano, o emprego é fixe.acho que tenho uma vida porreira,nem muito seca, nem exageradamente aventureira.tásse bem.vedeta, nem pensar, muito rico acho que também, tanto dinheiro para estragar...
    bom fds e abraço

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  5. Carlos,
    Poucas pessoas poderão dar-se ao luxo de fazer este tipo de reflexão e chegar às conclusões a que chegou.
    Continue a viver como até agora, livre, independente e sem pesos na consciência que lhe deformem as costas, de cabeça erguida, lápis em punho e ferrão preparado para o que der e vier.
    É essa postura que nos faz regressar aqui todos os dias.

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  6. Ainda bem que ao final reconhece que sem a menor dúvida, a vida é boa!
    Porque quem faz da vida momentos preciosos, faz do trabalho momentos de prazer e alegria, tem uma vida que chega a ser invejável...
    Que bom contatar isso, meu amigo, que bom!

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  7. Seguindo a sua sugestão e enviado por uma comentadora, há novo passatempo na caixa dos comentários de lá da minha casa!

    P.S. Olha a Fada!! Ó Fada, vá lá a casa também, querida Fada, que este bairro não é o mesmo sem o seu quarto mágico!!

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  8. Tem uma "vida vivida" bem à sua maneira, não serão assim tantos que poderão dizer assim da deles e isto só por si é motivo, digo eu, para se sentir feliz.
    Bonita forma de nos falar de Violeta Parra que eu tanto aprecio a sua voz e as suas canções, agora, sim, já a conheço melhor!

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  9. Exato! Ser feliz é só isto mesmo: a gente se sentir bem sendo aquilo que é. Gostei do seu blog, pretendo voltar mais vezes.Sorte em suas incursões andarilhas pelas noites do Porto, ok? Veroca

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  10. Como o compreendo.
    O silicone não me aborrece, pois pode ser uma mais valia se a auto-estima sair reforçada, ganha-se em tudo o resto, portanto.
    Nessa coisa, barata, nem no caro toco, só bebo COM GOSTO, caipirinha e umas bejecas.
    Rico não queria, mas ter o suficiente para fazer uns gastos sem me preocupar muito com o futuro.
    Curtir Muito de mota, mais ainda, meter-me de jipe, por Africa adentro, depois passar para a América do Sul, depois a Ásia e depois.....
    Chegava-me. Não estou a pedir muito, pois não?

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  11. Olá Fada! Que bom saber que fui capaz de quebrar esse seu prolongado silêncio. Espero agora ser igualmente bem sucedido, na tentativa de a "obrigar" a reabrir o seu Quarto que tanta falta faz neste bologobairro. Será que consigo?
    Beijinhos

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  12. mdsol: O Rio é sempre lindo. A única diferença naquela altura, era a super segurança que se via nas rua. Mas passear à noie em Copacabana e tropeçar de 10 em 10 metros num polícia armado até aos dentes não era o espectáculo mais bonito de se ver...

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  13. Turmalina: Se faz! Cdavez que me lembro que passsaram quase 20 anos, nem quero acreditar...

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  14. Pedro: O dinheiro pode servir para ajudar quem mais precisa. Se fosse muito rico, sei bem o que faria.
    Um dia o Miguel Sousa tavares escreveu que só não tem rotinas quem é louco. Discordo. O importante é que as rotinas sejam quebradas com actividades complementares, como tu fazes. As rotinas de que falo é que não me parecem saudáveis e, infelizmente, há muita gente que mergulha nelas de tal forma, que se esquece de as quebrar com outras actividades.

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  15. Si: estive ausente da bloga durante o fds e só hoje fui tentar responder ao passatempo. Demasiado difícil para mim...
    Quanto à vida, procuro levá-la o melhor possível, mas nem sempre é fácil, porque ela nos prega partidas imprevisívesi, que nos deixam muitas vezes de rastos.

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  16. Dulce: Não é assim tão fácil... apenas concluo que a minha vida é boa, porque tenho a sorte de estar entre aqueles que não têm de se defrontar, no dia a dia, com as injustiças, os meses demasiado compridos para os parcos salários que auferem, ou puxar pela imaginação para alimentra a família. Não é preciso muito ( digo eu...) para nos podermos sentir de bem com a vida. O problema é que exigiumos muitas vezes que ela nos dê demasiado, sem que nada demos em troca.

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  17. Maria: Violeta Parra foi, como escrevi no DO, uma figura muito injustamente esquecida. Era bom que lhe dessemos o valor e mérito que ela teve.

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  18. Veroca: Obrigado pela visita. Também gostei muito de conhecer o seu blog. Vou de certeza voltar com mais tempo e comentar. Os posts que li (ainda em diagonal) levntaram-me algumas questões interessantes.

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  19. ToZe: Não está a pedir muito e espero que consiga realizar os seus desejos. Viajar é a coisa que melhor podemos levar da vida.

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  20. Sei que vão uns dias deste post, mas... excelente, Carlos!
    Acho que todos queremos olhar para a nossa vida assim: com desprendimento do assessório, assumir o que não foi bonito e doeu, mas, acima de tudo... tirar prazer de estar aqui, com todas as nuances.
    E continuando na senda do Chile, lembra-me outro título 'Confesso que vivi' do Neruda.

    Qtº à Violeta Parra - gosto imenso (até achei que o novo passaroco aqui do CR deveria ter este nome:)). mas gosto mais da versão da Joan Baez.
    Um grane beijinho carlos, pelo prazer de viver e pelo prazer que me deu ler este texto!

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  21. Lucia: O melhor de tudo é saber viver com o que temos, sem inveja do vizinho
    Quanto à canção, estive indeciso em pôr a vesão da Joan Baez, mas como no DO fiz nesse dia uma homenagem à Violeta Parra, pareceu-me melhor assim. Até porque, na verdade, foi ela quem a compôs.
    Um beijinho também para si
    PS: Atenção! Pelo facto de ter escrito o que escrevi, não quer dizer que tenha assim tanto prazer em viver, sabe? Por vezes não é fácil olhar para trás e pensar em tudo o que se perdeu...

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  22. O seu PS - Como sei Carlos... como percebo!
    beijinho

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