quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Sócrates e As Histórias das 1001 Noites (1)

Não sei se este é o pior governo desde o 25 de Abril. Como vivi muito tempo fora do país, apesar de ter quase sempre seguido à distância o que por cá se ia passando, não sou a pessoa mais indicada para fazer comparações. Não acredito,todavia, que tenha havido algum mais cínico.
O cinismo vislumbra-se logo, quando pensamos que este governo se intitula socialista mas constatamos que o seu socialismo termina no livro de apresentação. Na prática, é um governo que beneficia os ricos e poderosos, com o pretexto de que fazendo-o, está a beneficiar os pobres. Uma boa teoria para convencer idiotas, facilmente desmontável.
Este governo leu histórias de ficção, banda desenhada e livros de aventuras. O problema é que percebeu tudo ao contrário, como se demonstra nos exemplos que se seguem.
O livro de aventuras do governo parece ser o Robin dos Bosques. Seria bom prenúncio, mas infelizmente perceberam tudo ao contrário e, em vez de tirarem aos ricos, para dar aos pobres, roubam os pobres para dar aos ricos. Os exemplos, ao longo destes quase 4 anos de governação, são muitos: em nome do défice, esmagou os salários dos trabalhadores, retirou-lhes direitos, achincalhou a sua dignidade e, de braços e pernas abertas, atirou-se para o colo do grande capital, bajulando os bancos e passando a mão pelo pêlo dos grandes interesses económicos. Recentemente, com a crise financeira, mandou o combate ao défice às malvas, puxou os cordões à bolsa para socorrer os bancos e continuou a combater os trabalhadores, negando-lhes salários mais justos.
Os exemplos poderiam multiplicar-se mas tratarei disso mais tarde, noutro lugar…

Passemos então à banda desenhada. O cinismo do Tio Patinhas está bem patente na atitude do governo para com os reformados da função pública. Quando foi criticado por fazer descontos para a ADSE em 14 meses de salário dos reformados, o ministro das finanças apressou-se a dizer que a situação iria ser corrigida. Toda a gente ficou à espera que a injustiça fosse reparada. O que fez o governo? Anunciou que os funcionários públicos admitidos a partir de 2009 passariam igualmente a descontar para a ADSE durante 14 meses! Em breve, a medida será – obviamente- alargada a todos os funcionários públicos!
Cinismo de fazer inveja ao próprio Antístenes, discípulo de Sócrates, fundador de uma corrente filosófica que teve em Diógenes o seu expoente máximo. Mas o cinismo deste governo- carta de recomendação para não voltarmos a eleger um Sócrates engenheiro e reclamarmos o regresso do filósofo sem licenciatura conhecida- não se queda por aqui.
Desde o início anunciou igualdade de direitos entre trabalhadores públicos e privados. Para o fazer, usurpou direitos dos trabalhadores públicos, mas esqueceu-se de lhes dar os direitos do sector privado, impondo nomeadamente aumentos salariais inferiores à inflacção, aos funcionários públicos.
O maior cinismo deste governo reside, porém, no facto de se proclamar socialista. Tudo o que fez foi esbulhar os fracos e fortalecer os que já eram fortes. Desde quando é que a ideologia dos irmãos Metralha se chama socialismo?


O género literário por excelência deste governo é a ficção. Devem ter lido todos os autores, misturado um pouco de Maquiavel, adicionado uma pitada de novas tecnologias e assim construíram uma nova figura sinistra de fazer inveja a Orwell.
Já não se trata apenas de falar de um “Big Brother” que nos controla todos os passos e reduz a nossa existência a um número único. Não lhes chega uma central de informação que intoxica e paralisa o trabalho dos jornalistas e desvirtua a realidade. Espiolham-nos a vida inteira, tentando convencer-nos que o estão a fazer para nosso bem. O último exemplo é o “chip” nas matrículas dos automóveis. Bem me podem dizer que vou ter seguros mais baratos, só pagar quando circulo etc. etc. etc. Escaldado que estou com as sucessivas justificações deste governo para voltar atrás em relação ao que anunciara, vejo em cada ministro um Mr Pickwick travestido de Lobo Mau, pronto a devorar os incautos “Capuchinhos Vermelhos” . E quando penso que vou ter de pagar um “chip” para que espiolhem a minha vida, só me apetece transformar-me em Astérix!




Como sabe quem me lê há mais tempo, sou justo nas minhas apreciações. Por isso, reconheço um mérito a este governo: sabe de História e como adaptar alguns episódios à realidade portuguesa do século XXI. Se duvidam, recordo-vos as palavras de Maria Antonieta ao povo faminto:
“ Se têm fome e não têm pão, que comam brioches”.
Este governo, atento à evolução dos tempos e apaixonado pelas novas tecnologias, que fez? Adaptou este episódio a Portugal, no século XXI
“ Queixam-se de baixos salários, não têm dinheiro para pagar as dívidas que contraíram com o nosso incentivo e dos anteriores governos? Dêem-lhes instrução!”
E foi assim que Sócrates nomeou Maria de Lurdes Rodrigues para o cargo de ministra da Educação, com a missão de destruir a escola e descredibilizar os professores. Depois, voltou-se para a multidão desesperada e disse aos seus capatazes:
“Levantem-se e percorram as cidades vilas e aldeias do país. Levem convosco computadores, baptizem-nos de Magalhães e distribuam-nos às criancinhas, famintas de instrução.”
“E aos pais das criancinhas que fazemos?” – perguntou alguém sem dar a cara.
“Digam-lhes que têm de honrar a História! Nós já fizemos o nosso papel, distribuindo o Magalhães. Eles que sigam o exemplo e cumpram a tradição do país. Emigrem!”
Claro que Sócrates não leu a História de Maria Antonieta até ao fim, caso contrário, saberia que um dia destes há-de aparecer por aí uma nova máquina, inventada por um Dr. Guilhotin dos tempos modernos…
Nesse dia, alguns aprenderão que exagerar na leitura de ficção e construir um país de faz de conta, é capaz de não ser uma boa ideia!
É que nem todas as histórias têm um final feliz. Nem todas acabam com ministros nos conselhos de Administração de empresas que noutros tempos tutelaram, ou nomeados para altos cargos em instituições internacionais.
Há sempre alguém que um dia perde a cabeça…



22 comentários:

  1. Tenha lá paciência! Não ponha esta gente a ler os mesmos livros que a minha Clara!
    A literatura deles é terror, sexo sado-maso e a biografia dos ditadores, desde os egípcios.

    E quem é aquela de cueca cor-de-rosa?

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  2. Mais um execelente retrato do que se passa neste projecto de país.
    abr

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  3. Carlos, neste nosso País, não rolam cabeças, pelo menos cabeças portuguesas.

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  4. Pois, a cabeça pode-se perder de muitas maneiras e quem a perde pode-a fazer perder a outros.
    (E agora diga: isto afinal era realidade ou ficção? Para ser conto é feio de mais e para ser real... custa acreditar.)

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  5. A juntar ao terror desses contos, quero juntar 1 pormenor mais horrendo, relativamente à decapitação: acreditava-se que esta era uma forma 'humana' de execução, de tão rápida e indolor. Um facto que foi contrariado por um dos 1ºs neurocirurgiões da altura (não me recordo o nome e o título da altura não era concerteza este), que, confrontado com a sentença de morte de um amigo, lhe pediu que antes que a guilhotina caísse, piscasse os olhos enquanto pudesse. Reza a história que a cabeça caiu e o amigo viu os olhos do outro piscarem por mais de 30 segundos....
    Resumindo: não acha que esta forma de punição seria a mais indicada para os nossos políticos, eles que nada mais fazem do que piscar os olhos às gordas benesses a que se candidatam????

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  6. A sua crónica hoje deu-me arrepios... esta analogia com a Maria Antonieta! É que eu, volta e meia, oiço um grupo de "Velhos do Restelo" (nas várias acepções da expressão) que estão constantemente a agoirar e que ultimamente dizem que há imensos militares descontentes, inclusivamente figuras relacionadas com o 25 de Abril que apesar de já idosos, ainda "mexem". Não devemos esquecer que os militares são funcionários públicos. Fala-se em muita coisa que me desagrada imenso... e agora o Carlos com esta imagem das cabeças a rolar!

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  7. Desanuviando, esqueci-me de comentar a sua primeira imagem! Foi uma autêntica viagem no tempo, porque até fui mexer em teias de aranha para ter a certeza, mas como não deito livros fora, tenho um exemplar igual guardado! Era um ódio da minha mãe, que detestava tal colecção, segundo ela um verdadeiro assassínio da literatura, mas foi assim que eu conheci muitos dos livros que depois vim a ler na versão integral, com a bênção dela.

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  8. Patti: a da cueca é mais um "Capuchinho Vermelho" que vai ser vítima do Lobo Mau.
    Quanto à similitude das leituras, penso que quase todos lemos pela mesma cartilha, o problema é a forma como interpetamos as leituras.

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  9. Sun iou miou: Tem toda a razão, mas há dias menos bons como este, onde a inspiração fica no tinteiro.

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  10. Si: Que horror! fez-me lembrar uma história de miúdo. A empregada de lá de casa matou um frango e a criatura começou a correr pela cozinha sem cabeça!

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  11. Fada: 1- Quando escrevi "perder a cabeça" fi-lo com um duplo sentido. Creio que fez uma interpretação possível ( em cuja concretização não acredito), mas há outras masi "soft"!
    2-Também tenho, ainda, vários livros dessa colecção. Hoje, fazem parte do meu espólio de recoradções. Sabe que ficava irritado quando mos ofereciam? Achava aquilo uma vigarice. Dou toda a razão à sua mãe.

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  12. Pela minha parte faço votos por que alguém faça este Sócrates ir para bem longe. E, já agora, se na mesma leva fosse toda a corja que se vem alimentando do sangue, suor e lágrimas dos mais fracos, talvez eu ainda oudesse vir a sentir que este é um país a sério e não apenas o arremedo que se me afigura. Mais uma vez, Carlos, parabéns pela forma como consegue ilustrar este "mal" que nos consome.

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  13. Onde é que estavas no tempo do social-democrata que hoje é PR?

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  14. Excelente texto, Carlos.
    Pudera eu emigrar e há muito tempo que tinha bazado.
    E o último a sair que fechasse as luzes do aeroporto:(
    Veludinhos

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  15. Cristal: cada vez tenho mais dúvidas, principalmente pelas razões qu explico no post acima.

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  16. maloud: estava em Macau, que foi o sítio mais longe daqui que encontrei para me pirar.

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  17. Blue: São cada vez mais as pesoas que pensam assim. Eu espero não levar muito empo a fazê-lo outra vez.

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  18. As duas coisas, o pior e o mais cínico.

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  19. Parabéns pela forma como descreveste o estado da nação... até dói!
    bjo

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  20. bem adorei o retrato do nosso país, é q é mesmo assim! aproveito para dizer q vim aqui parar entre blogues e bloguinhos e ainda bem. Porque o vosso blog está de parabens, vou linkar e passar a ser um leitor assiduo!

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  21. Há para aí uns xuxas de cabeça perdida...façam-lhe a vontade...

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