quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Memórias do Rochedo (84) - Vamos ao cinema?



“Sábado à tarde num cinema da Avenida..
Assim começava uma canção de Tó Zé Brito que retratava o principal lazer dos jovens portugueses nos anos 60. Era o tempo dos cine-clubes, o tempo de ir ao cinema em grupo, ou namorar na última fila trocando promessas de amor eterno.
As salas eram grandes e em algumas, ao sábado à noite, fazia-se “toilette” para entrar.
Salas como o S. Jorge e o Monumental em Lisboa, ou o Coliseu, Trindade e Rivoli no Porto, tinham lugares cativos para o sábado à noite e estavam constantemente esgotadas. Vivia-se ainda uma época dourada do cinema, que começara nos anos 30 e se prolongara nas décadas seguintes, com filmes e actores que fizeram História
A partir do final da década de 50, e principalmente na década seguinte, começaram a surgir, por todo o país, os “Cine-clubes” que exibiam filmes que muitas vezes não corriam no circuito comercias. Entre alguns deles existiam profundas rivalidades, mas os fins de tarde de sábado e as manhãs de domingo eram, normalmente, grandes “happenings” para os jovens ( e alguns menos jovens ) cinéfilos.
Os primórdios dos anos 70 determinaram, porém, grandes mudanças nos hábitos cinéfilos dos portugueses, familiarizados desde os finais dos anos 20 com uma indústria que fascinava o mundo inteiro e produzia os ídolos que todos admiravam.É durante esta década que se começa a perder o hábito de ir ao cinema em família, porque a televisão começa a introduzir-se nos lares e a reter os mais velhos no sofá da sala. No entanto, a sala de cinema ainda resiste durante toda a década de 70 e parte dos anos 80, altura em que aparecem em força os “Clubes de Vídeo”. A cantora brasileira Rita Lee presta talvez uma das derradeiras homenagens musicais às salas de exibição da 7ª Arte com uma canção intitulada “FLAGRA!” que começava assim:
“No escurinho de um cinema /chupando drops de anis/ longe de qualquer problema/ perto de um final feliz"…

Na Europa, com excepção de Inglaterra, o fenómeno é semelhante: em 1981, 750 milhões de espectadores deslocam-se a 20 mil salas de cinema europeias, para ver 469 filmes que a indústria pôs à sua disposição. Dez anos depois, os frequentadores das salas de cinema desciam 25 por cento, as salas cerca de 20 e o número de longas metragens quedava-se nos 410.
As salas de cinema invadiram os centros comerciais, dividiram-se , concentraram vários tipos de oferta no mesmo espaço, reduziram as lotações.
Não é de esperar que o hábito de ir ao cinema se perca nos próximos anos, mas a verdade é que o cinema deixou de ser a principal distracção dos jovens, a partir dos anos 90. O crescimento do mercado vídeo, os hábitos televisivos cada vez mais arreigados, a internet e os jogos vídeo e electrónicos contribuiram decididamente para que as pessoas se afastassem das salas de cinema.Ver um filme em casa, na companhia de amigos, e aproveitar para tagarelar e descansar um pouco antes de partir para a ronda dos bares e discotecas, é para muitos uma alternativa ao fascínio do grande écrã.
Decididamente, uma ida ao cinema não será mais “como dantes”, até porque, infelizmente, muitas salas passaram a permitir o consumo de pipocas e bebidas durante a exibição dos filmes o que, se pode contribuir para cativar alguns jovens, não deixa de ser desmobilizador para quem busca numa ida ao cinema a possibilidade de ver um filme “como antigamente”: em silêncio e sem o massacre dos intervalos para a publicidade. O que talvez não se tenha perdido é o pretexto do cinema para a troca do primeiro beijo, ou o início de um romance de amor.
Quanto a potenciais realizadores de cinema, também não faltam desde que a câmara de video fez a sua entrada no mercado. A princípio, servia apenas para filmes de âmbito familiar, visionados no recato da família e de um círculo de amigos mais ou menos restrito. Posteriormente- e mais uma vez a televisão veio dar uma ajudinha-começaram a surgir uma série de potenciais realizadores que adoram mostrar as suas habilidades perante as câmaras de tv, em busca de prémios mexerucas com que ajudam a preencher espaços televisivos de gosto duvidoso. Os vencedores agradecem e a TV esfrega as mãos porque consegue, a baixo preço, pôr no ar programas que atraem muitos espectadores.
( Continua)


19 comentários:

  1. E o resto da letra??
    "a Deborah Kerr e o Gregory Peck, não vão bancar o santinho / minha garota é Mae West / eu sou o Sheik Valentino / mas de repente, o filme pifou / a turma toda logo vaiou / acenderam as luzes / CRUZES! que flagra, que flagra, que flaaaagra!"
    Eu avisei, que sabia a letra toda... : ) : )

    P.S. E já que estamos em maré de letras de música, passe lá na minha casa, para ver uma composiçãozita minha....rsrsrsr

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  2. Ai que saudades de ver o "Danças com Lobos" no S. Jorge...

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  3. Chegeui ao último post, já n me aguento de dores e tenho de ir trocar o gelo..... bom só leh digo que eu menina de Lisboa ia ao Tivoli e ao S. Jorge e depois lanchávamos na Rua de Sta. Marta naquela pastelaria que ainda existe, mas que me falha o nome ou então, apra prolongarmos o passeio descíamos ao Chiado e bebíamos um chocolate quente na Ferrari.

    Londres? Nem me fale. Há lá coisa mais entusiasmante que Convent Garden depois da hora do expediente, cheio de londrinos e turistas e petiscar em pubs para depois correrem para os teatros?

    (Segredo: 'tou quase a fazer isso, shiuuuu).
    Adeus, vou tomar o %$*ª^=#"$%, p'rá infecção e o $%/(&"#*ª%, para as dores.
    Olhe que é um privilegiado....com estes comments todos seguidinhos, bom tb merece, é um facto.
    Fui.

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  4. Carlos,
    Desculpe lá, mas precisava de uma ajudita lá em casa, pode ser??
    Obrigada

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  5. ahhhhhh que belissima memória das músicas de Rita Lee. Ainda tenho em casa do meu pai os discos de vinil!!!

    Quanto a cinema, tenho bastantes saudades dos tempos em que ir ao cinem não estava vulgarizado como está hoje em dia. Era um acontecimento. Marcava-se com alguém o dia da ida, não era decidido em cima da hora. As salas era distintas, não havia pipocas mas havia intervalos e as pessoas estavam mesmo umas com as outras (pelo menos aqui no Porto)

    O último cinema "normal" a que fui foi ao nun'alvares e fechou pouco tempo depois...

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  6. Ir ao cinema, há uns anos, tinha o «charme» de um momento de cultura e de convívio selecto no «foyer», Carlos. Lembro-me dos dez minutos de ronda noticiosa e do apontamento de desenho animado que costumavam anteceder o filme; e lembro-me dos intervalos no S. Jorge e no Tivoli, onde se encontrava sempre «gente conhecida». Mas onde tudo isso já vai!... :-)

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  7. Boas e deliciosas recordações. Para que conste!
    :))

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  8. Fizeste, até aqui, uma excelente radiografia histórica da evolução das idas ao cinema.
    Concordo em absoluto com tudo o que disseste, acrescento apenas que nada será como dantes.
    Abraço.

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  9. Eu coloquei no estamine um video com a musica da Rita Lee para celebrar o dia mundial do cinema :)
    Vamos ao cinema mas sem pipocas!
    Beijinho.

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  10. A última vez que fui ao cinema, aqui em Braga, num espaço do tipo do Quarteto, com várias salas, vim furiosa- era um filme com música linda- a reposição do "Sense and Sensibility"- e, além do ruído das pipocas, o barulho no hall era de uma falta de respeito!...

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  11. Si: Eu tenho quase tudo da Rita Lee e ambém sei algumas letras.

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  12. Blonde: e que saudades do Monumental, do Tivoli,do Império...

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  13. As coisas evoluem mas é natural termos saudades das coisas boas da nossa juventude. O meu marido era um coleccionador quase compulsivo e, entre outras coisas, guardou todos os bilhetes de cinema que viu desde muito pequeno. Desde o tempo em que os bilhetes tinham impresso o nome do filme e dos actores principais. Em alguns, anotou até com quem viu o filme. Quase se pode fazer uma história da sua vida naqueles anos, com base naquela colecção. Há dias, comentava com os nossos filhos que das nossas vidas de hoje, deixamos muito pouco rasto... Quase tudo se vem tornando "disposable". O cinema, os móveis, os livros, a vida!? Creio que constatar isto nos causa mais que nostalgia. É preocupação verdadeira! O que ficará de vestígios de nós no imenso lixo que geramos?

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  14. Patti: Também fiz muitas vezes o percurso do Chiado depois do cinema, com paragens na Ferrari´, na Bénard e na Leitaria Garrett.
    Covent Garden também é uma das minhas zonas preferidas de Londres. Até já aqui escrevi sobre isso e, se bem me lembro, até troquei uns comentários com a nossa afilhada.
    Em Londres vivi durante muito tempo na zona da Queensway, "very typical" pela miscelânea cultural e era outra zona que eu também gostava muito. Vou com muita frequ^ncia a Londres e nunca deixo de lá passar.
    Obrigado pelo privilégio Patti!

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  15. Ka: Shhh! Já nem me lembrava do Nun'Álvares. Não ia lá muito. Coliseu, Trindade, Rivoli, S. João (eram lá as sesões do cineclube da Boavista ao sábado à tarde) e também o Batalha ( vi lá um filme que ficou famoso, porque se via uma maminha - da Romy Schneider, salvo erro- e aquilo foi um escândalo, Chamava-se A Piscina)
    Sim, tudo se passava como descreve. E antes as matinées do S. joão, passávamos a tarde a ouvir discos na Discoteca Sto António. Ainda existe?

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  16. Luísa: E eu ainda sou do tempo em que havia um magazine de notícias onde eram exaltadas as iniciativas do Estado Novo.
    E os intervalos naquele tempo eram tão curtinhos ( achávamos nós, claro!)

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  17. Cristina: quando vim estudar para Lisboa, chegava a ver quatro filmes num fim de semana.
    Hoje, raras vezes vou ( este fim de semana fui ver dois, mas já não ia a uma sala de cinema há meses), porque me aborrece a falta de civismo lá dentro. Além disso, poucas são as salas com acústica adequada e dão cabo dos filmes.

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  18. Cristal: muito bonito o que escreve neste comentário. Tem toda a razão quando diz que hoje os jovens não têm memória, nem querem guardar recordações do passado. Estão tão ávidos de viver o futuro, que até me impressiona!
    A culpa também é de quem os convenceu de que a História não interessa para nada, ao reflectir isso nos curriculos escolares...

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  19. Eu adoro as duas Ritas auqi mencionadas no post;
    A Rita Hayworth já só me lembro de ver na televisão, quando cheguei Portugal na minha adolescência.
    A Rita Lee, comecei a ouvir no Brasil nas longas férias que lá passei, também adolescente.
    Ainda hoje guardo os bilhetes de cinema, enquanto eles foram bilhetes que não se apagam com o tempo; tenho lá escrito os nomes de quem me acompanhou e, em muitos deles, dedicatórias e autógrafos desses amigos.

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