segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Cenas de Táxis (5)- O Plano B

É natural que, numa manhã de segunda-feira, um taxista vá para o Aeroporto da Portela à espera de um turista. A corrida pode até nem ser muito grande, mas somadas as taxas das malas e uma pequena bicada no taxímetro, a chegada de um turista a Lisboa, pela manhã, pode ser prenúncio de uma boa semana.
Não me espanta, por isso, que ao ver aparecer-lhe pela frente um gajo de cabeleira em alvoroço, barba por fazer, meio ensonado, apenas com um saquito de mão onde transportou o essencial para um fim de semana planeado em cima da hora, que lhe peça “leve-me ao Lumiar”, o taxista torça o nariz, coce a cabeça e pense “ que grande caramelo me havia de sair na rifa. Estou com a semana estragada”.
Há taxistas com azar , mas nada posso fazer para melhorar a sua sorte. Nem sou dirigente da ANTRAL, nem me preocupo especialmente com a qualidade de vida dos taxistas.
Foi sem espanto, por isso, que ao entrar no carro, em vez de receber os bons dias, depois de anunciar o meu destino, tenha obtido como resposta o volume do rádio no máximo, de forma a impedir-me de ouvir alguns impropérios com que o taxista pretendia esconjurar a sua má sorte.
A publicidade radiofónica não é dos passatempos que eu mais aprecie, mas aguentei estoicamente uns 3 minutos de anúncios, sem ousar pedir ao motorista que baixasse o volume do som.
Veio finalmente uma música que começava assim:
Gosto de ti
Desde aqui até à Lua…”

E eu, que chegava de Roma com um grãozinho na asa, logo interiorizei: Que bonito!
Só que a estrofe seguinte....
“ Gosto de ti
Desde a Lua até aqui…”

...esmoreceu-me o ânimo e dei por mim a pensar que era porreiro se o gajo cantasse em russo.

Como o rádio continuava a debitar decibéis em quantidade suficiente para animar um quartel inteiro e eu me começava a sentir incomodado, pus em prática o plano B. Experiências anteriores comprovaram ser infalível.
Comecei a cantar num tom ainda mais alto.
O taxista olhou-me várias vezes pelo retrovisor com ar desconfiado. Por fim, baixou o volume e eu calei-me.
“ Não gosta desta música?”- perguntou.
"É linda, mas o gajo canta um bocadito mal. Eu canto melhor, não acha?"
Baixou ainda mais o volume e perguntou:
-O senhor é artista?
- Sou, não me conhece? Ainda a semana passada fui entrevistado na revista Caras.
- Ah, bem me parecia que o estava a conhecer. É o senhor Carlos Mendes, não é?

- Ainda se lembra de mim? Gostava das minhas canções?
- A minha mulher é que gostava muito do senhor. Eu lembro-me de uma canção em que o senhor falava de uma puta ( desculpe, prostituta, não é?) que se chamava Amélia. A minha mulher também se chama Amélia e cantava muito essa música.

A custo engoli um sorriso e, com ar sério, continuei:
- A “Amélia dos Olhos Doces” foi um dos meus maiores êxitos, é verdade.
- Donde é que o senhor vem?
-De Roma.
- Foi lá cantar?
- Não, fui só passar o fim de semana com uns amigos...
- A vida de artista é muito boa, não é? Eu tenho uma filha que quer ir para a telenovela, mas eu não queria nada que ela fosse, porque a gente sabe como aquilo é, não é verdade, sr Carlos?
- Pois, tem toda a razão. Isso não é vida p’ra ninguém. Convença-a a desistir. Ela que estude, porque só quem estuda é que vai vencer na vida.
- Isto nos estudos também está tão mal! Havia de ver a manifestação dos professores! Eu não me lembro de ver tanta gente na rua em Lisboa. Tudo contra o Sócrates, foi mesmo bonito de ver, mas o gajo está agarrado à cadeira e ninguém sabe onde está a do Salazar para lhe oferecer. Mas o senhor também tem um filho actor, não tem?
-Mais ou menos- respondi já quase a dar o flanco.

Vi, finalmente, a visão salvadora da minha casa, mas ajuizadamente mandei-o parar noutra rua, porque imaginei o que viria a seguir


Assim que parou, virou-se para trás e perguntou-me:
- Sr Carlos, posso pedir-lhe um grande favor?
- Quer um autógrafo para a sua esposa, não é?
- Ela ia ficar muito contente. Pode ser?
- Claro, homem! Mas olhe que eu não dormi a noite toda e isto não vai sair lá muito bem. Tem aí uma caneta?
Estendeu-me uma Bic com a tampa roída e um papel que percebi ser a factura de um restaurante.
Escrevi: “ Para a Amélia, com a amizade” do ( assinatura ilegível)
O taxista olhou para aquilo um bocado desconfiado ( ou seria desconsolado pelo laconismo da frase?), mas depois dobrou o papel com mil cuidados e meteu-o dentro da carteira, repetindo:

quando a minha senhora vir isto,nem vai acreditar. Vai ficar muito contente…muito contente. Obrigado”
-Então quanto é?
-Ah, não é nada, sr Carlos! Foi um prazer trazê-lo a casa. Mora aqui, não é?
- Não, esta é a casa de um amigo com quem vou trabalhar hoje numa canção nova.

Olhei para o taxímetro e paguei, arredondando a conta generosamente , na esperança de expiar o pecado.
Quando saí do táxi senti um rubor imenso. Acenei-lhe em sinal de agradecimento.
Acabara de fazer uma pulhice, mas extraíra duas vantagens: convencera-o de que afinal a sua semana tinha começado bem e ia dar uma grande alegria à Amélia. Claro que a filha não vai ficar nada satisfeita com os meus conselhos, mas nem tudo pode ser perfeito....

(Boa semana para vocês também)



26 comentários:

  1. Ó Carlos,
    Isso não se faz!!
    Não é justo, coitado do homem!
    Ele estava apenas a fazer o trabalho dele, aquilo que ele sabe fazer de melhor, sem culpa nenhuma se os outros gostam ou não!
    E depois, ainda goza com ele??
    Acho que vou fazer queixa de si à SPA.
    O André Sardet não merecia que lhe assassinasse a música!!

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  2. Por acaso essa musica é muito chocha como quase todas as musicas que esse rapaz canta!
    Fiquei-lhe com raiva qiuando um apaixonado qualquer decidiu passar a madrugada ás voltas ao meu quarteirão com o exito anterior num volume que fazia estremecer os vidros, a letra tinha um refrão que era: "Eu não sei o que me aconteceu.Foi feitiço,O que é que me deu?Para gostar tanto assim de alguém,Como tu."
    Fiquei eu com vontade de fazer um feitiço para o rapaz ficar afónico...
    Quanto a teres enganado o taxista ficou por conta dos clientes que ele engana, deixa estar!

    beijos

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  3. Si: não me provoque mais remorsos... mas eu não concordo que o trabalho de um taxista seja dar cabo dos ouvidos de um cliente, só para se vingar!
    Quanto ao Sardet, canto muito melhor do que ele, pode crer. A Si é que nunca me ouviu!

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  4. Ah!Ah! isso é que é altruísmo! Mas há certos taxistas que as pedem.
    E estou de acordo: aquela coisa de Gosto de ti daqui à lua e vice-versa põe-me nervosa cada vez que toca!

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  5. Eu SÓ me estava a referir ao Sardet......rsrsrsrsrs

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  6. Carlos,
    teve a mesma reacção que eu tenho relativamente a esse "poema"...
    E tem mais paciência para os taxistas que eu!
    Boa semana!

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  7. Pois eu acho que vou mesmo querer um autógrafo do Senhor Carlos Barbosa de Oliveira... Grande Artista! Adorei! Tenho muitas histórias parecidas de taxistas mal humorados por me trazerem do aeroporto a casa. Só que embora também não cante mal de todo, nunca me passaria pela cabeça fazer qualquer coisa parecida a essa... Não fez mal a ninguém, o taxista ficou contente e a Amélia até vai ficar feliz... Dadas as circunstâncias, não acredito que o Carlos Mendes se importe que lhe tenha "usurpado" a identidade durante um trajecto tão curto.

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  8. Ai Carlos que ri até às lágrimas!!! Mas olhe, se bem que não o aconselho a repetir a bricadeira, pense que não perjudicou ninguém! E até poupou os tímpanos dos dois :)

    Beijinho

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  9. eheheheheh, ganda cena.
    e ainda por cima fez o home feliz,muito bem sr. Carlos M.

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  10. Oh Senhor Carlos Mendes, por acaso não acho piadinha nenhuma às suas músicas, mas essa letra completamente idiota do André Sardet, mereceu mesmo que o senhor Carlos Mendes, cantasse para o taxista!

    Ai Carlos, coitado do homem, agora ninguém o cala e qualqeur dia tem para lá a Amélia à sua procura no bairro.

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  11. Ahhh que maldade!
    Pior, pior só convencer um adulto de que o Pai Natal existe :-D

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  12. Ana Camarra:Essa sempre era melhorzinha! Imagine que o rapaz continua apaixonado e volta à carga com esta? Não lhe desejo tal sorte...

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  13. cristal: Obrigado por me aliviar os remorsos. Na verdade não sou nada parecido com o Carlos Mendes ( embora há 20 anos achasem que sim).
    Hoje em dia muita gente me confunde com o António Barreto, o que me preocupa, confesso... penso que não sou tão feio!

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  14. Ka: Obrigado pelo apoio. Prometo que não volto a fazer isto... mas cantar mais alto do que o rádio, vou continuar fazer. Só ainda não arranjei antídoto para os relatos de futebol, mas lá chegarei!

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  15. Patti: Por isso é que eu me precavi e disse logo que não morava ali, e pedi-lhe para me deixar numa rua próxima, mas que não é a minha!
    Mas há uma coisa que me tranquiliza.Se ele me confunde com o Carlos Mendes, também é capaz de confundir outro qualquer comigo!

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  16. Cerejinha: Eu não convenci ninguém, ele é que se convenceu!

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  17. Oh Carlos o que eu gostava de ser mosca so para ter assistido a cena. Da-me um autografo, da?
    Ahahahaha nao consigo parar de rir.

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  18. Fez o homem feliz, sem magoar ninguém, e ainda nos fez rir com esta narrativa. Em grande, Carlos! :)

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  19. Oh Sô Carlos Mendes, isso é que foi uma malandrice eheheh... mas foi uma malandrice misericordiosa :)

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  20. Agora o taxista deve dizer a toda a gente que já levou naquele táxi o Carlos Mendes.
    ;-)
    Ainda vai ser o taxista dos famosos.

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  21. Quanto ao Sardet, não duvido nhada que cantes melhor que ele... quanto ao resto da cena, eu só queria ter estado lá, juro que queria! Fizeste o homem feliz, uma boa acção sim senhora! beijinhos

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  22. Então temos um António Barreto com voz do Carlos Mendes a cantar André Sardet!
    Pobre taxista.
    Afinal pagou bem o seu pecado:))
    Veludinhos

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  23. Carlos, não imaginas o que ri... Um abraço, seu malvadão Eheheheh

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  24. Não acho pecado, pelo contrário fizeste uma boa ação: a alegria do homem ao chegar em casa não tem preço :o)

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