domingo, 12 de outubro de 2008

Podiam ter aprendido com Menem e o "Corralito"


Durante o "Corralito" as manifestaçõs sucediam-se à mesma cadência da queda de Governos. Houve um, que apenas resistiu 3 horas!

A actual crise financeira mundial remeteu-me para a América Latina. Recuei uns bons pares de anos e revivi o “Corralito”. Estava em Buenos Aires quando ocorreu o maior desastre financeiro da pátria de Borges.
As abstrusas políticas financeiras de Caballo e o enfeudamento de Menem a Washington , há muitos anos que faziam adivinhar o descalabro financeiro da Argentina. Menem e Caballo conseguiram, através de artifícios financeiros e bolsistas, manter a paridade do peso ao dólar, mas os argentinos sabiam que, para além da artificialidade da política de Menem, se estava a construir um país de mentira, onde as desigualdades entre ricos e pobres tinham aumentado assustadoramente. Obnubilados pelos prazeres consumistas, que lhes permitiam ter acesso a uma parafernália de bens e produtos que durante décadas lhes estiveram vedados, os argentinos deixaram-se ir na onda de entusiasmo.
Nem pararam para pensar que execrável ditadura de Vidella tinha sido substituída pela ditadura financeira da dupla Menem/ Caballo. É certo que eles não lançaram ao Atlântico dissidentes, para serem comidos vivos por baleias ao largo de Puerto Madryn e Península Valdez,mas atiraram um povo inteiro para a miséria, lançando-o nos braços de uma Bolsa construída em cotações feitas de mentira. Quando se tornou impossível manter as aparências e o sistema financeiro argentino entrou em colapso, os bancos ruíram como castelos de areia, varridos por um vendaval. De um dia para o outro, o peso argentino transformou-se em moeda fiduciária, sem qualquer valor. As poupanças de uma vida de muitas famílias argentinas foram pelo cano de esgoto, porque os bancos não tinham liquidez e foram incapazes de resistir à corrida aos depósitos. Menem, que utilizara em obras sumptuárias e em proveito próprio, os dinheiros do FMI, foi incapaz de suster a crise.

Nas ruas de Tucuman, as pessoas continavam a dançar o tango
Todos sabemos o que aconteceu. Bancos assaltados, supermercados pilhados, ruas transformadas em campos de batalha, famílias prósperas à beira da ruína, um povo inteiro em banca rota.
De um dia para o outro, a próspera Argentina cantada em loas por Bush pai, como exemplo a seguir, despertava para a realidade, desaguando no oásis da miséria.
No quarto do meu hotel , na Avenida de Mayo, enquanto assistia ao que se passava nas ruas, recuei a Dezembro de 1994.
Acabara de chegar a Tucuman. Depositadas as malas no hotel, fui jantar. Na altura de pagar a conta entreguei pesos argentinos e recebi, como troco, um conjunto de notas- que me fizeram lembrar os “remimbi” chineses- onde se lia: “Circulação válida apenas para a província de Salta”. Perguntei ao empregado o que queria dizer aquilo. Chamou o gerente que me explicou, então, que face à grave crise financeira da província, o governo local fora autorizado a emitir moeda com circulação restrita à província de Salta. As notas tinham valor igual ao peso, mas só podiam circular na província de Salta, não podendo ser utilizadas em mais nenhuma parte da Argentina. Numa palavra, o dinheiro que circulava em toda a província era uma espécie de dinheiro do Monopólio que apenas tem valor quando jogamos. Andei por Salta durante duas semanas sempre a pagar e receber dinheiro falso. ( admito que haja um termo técnico mais apropriado, mas a realidade é que se tratava mesmo de dinheiro virtual, uma vez que não tinha valor em mais nenhuma província argentina). Fiquei entretanto a saber que a maioria das empresas pagava os seus salários com aquela moeda.



Na estrada que liga Tucuman a Cafayate, é possível desfrutar momentos de sonho


Em Cafayate, uma pequena localidade cercada pelos Andes, maioritariamente habitada por índios, hospedei-me no único hotel existente. Na altura de pagar a conta, pretendi fazê-lo com moeda local, mas não aceitaram o pagamento e exigiram que pagasse com cartão de crédito ou em pesos emitidos pelo banco central. Perguntei a dois empregados como eram pagos os seus salários: em moeda local, responderam-me. Foi então que percebi como o esquema funcionava. O hotel recebia em dinheiro real e pagava aos empregados com “notas de Monopólio”. Justificava a sua actuação, alegando ter de pagar os impostos em moeda “real”!
E como fazem os habitantes de Salta quando viajam, pela Argentina? – perguntei a um funcionário de um banco.
A resposta meio envergonhada, embrulhada em sorrisos de celofane, fez-me adivinhar o futuro.
"Aqui a pessoas viajam pouco, porque esta é a província maispobre da Argentina. Mas se tiverem necessidade de o fazer, podem trocar o dinheiro no banco. "
E como é feita a troca?
- Por cada quatro pesos locais, recebem um peso federal!
Por momentos, pensei-me a viver uma aventura de Lewis Carrol, uma versão melodramática de “Alice no País as Maravilhas”. Recuperado do choque, antevi o futuro da Argentina.




No quarto do meu hotel de Buenos Aires, em vésperas de Natal, impossibilitado de regressar a Portugal para passar a noite com a família, pude reviver o pesadelo anunciado sete anos antes por um funcionário de um banco, à mesa de um restaurante em Tucuman.
Tudo isto para dizer, que só a hipocrisia de alguns liberais pode explicar a surpresa do colapso financeiro dos Estados Unidos e da Europa. Era uma crise há muito anunciada, mas a que os governos foram fechando os olhos, tentando acreditar que tudo se resolveria com os paliativos de uma regulação dos mercados que nunca funcionou.
O mais grave, porém, é que ao contrário do que aconteceu na Argentina, não se vislumbram poções mágicas que possam resolver o problema.
O mais dramático, é que não se vê emergir no horizonte uma ideia nova que se aplique como remédio, porque confortados com as promessas da sociedade da hipersecolha deixámo-nos adormecer nos braços da sereia das novas tecnologias e deixámos de pensar. Acreditámos que as coisas se resolveriam por si próprias e que estávamos bem entregues no regaço de uma globalização que só beneficia os poderosos.
O mais intrigante, é constatar que os povos perderam a capacidade de reagir.
O mais surpreendente é ver que a Índia e a China apresentam índices de crescimento a rondar os 10 por cento e ninguém, na Europa, parece ainda ter percebido que o poder mundial está a mudar de mãos.
Confiemos então em Santo Obama , ou entreguemos o destino à esquizofrénica Sarah Palin. Parece residir nessas figuras miríficas de terras do Tio Sam, a esperança da Velha Europa. Os velhos, por vezes, comportam-se assim. Paz à sua alma!
Adenda: este post é demasiado extenso, espero que o tenham lido até ao fim.É um teste à vossa paciência, cujos resultados aguardo na caixa de comentários

24 comentários:

  1. Meu caro amigo carlos, a maçta deste blogobairro tem o prazer de o ler até ao fim.Confesso que ando preocupado, não por mim ,mas pelos meus dois filhos, qual vai ser o futuro deles?
    a Argentina sempre foi um país que me fascinou e tenho um tremenda inveja,no bom sentido, em relação a si, é que eu também adoro viajar e sinto que me falta conhecer tanta coisa.Obrigado pela forma como escreve e descreve as suas vivências.O prazer é todo nosso.
    abraço

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  2. carlos
    Ler os seus posts é sempre um prazer, uma lição das masi diversas matérias. Engraçado, por momentos apercebi-me como a minha memória é curta pois tinha-me esquecido da crise Argentina. Ao ler o seu texto vieram-me as imagens e os comentários dos então analistas e a sensação de angústia pelos que viveram a situação. recordo d eter pensado: que bom estou na Europa, pertencemos à UE isto nunc anos irá acontecer - sempre fui muito ingénua..
    Obama tem essa dificil tarefa de todos esperarem que ele leva uma varinha mágica... mas essa não existem, pois não?
    Boa semana

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  3. Li tudo, tintim por tintim, até ao fim, com o mesmo prazer de sempre.

    E para o provar, deixo-lhe aqui um pequeno presente:

    http://de-si-para-si.blogspot.com

    Um abraço.

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  4. É claro que eu só li até ao fim ... por causa das imagens, pois está claro(Not). :D

    Vocemecê, Sr. Carlos Barbosa de Oliveira, podia juntar-se ao GGM e escrever "Crónicas de Uma Crise Anunciada", ainda lhe saía o Nobel.

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  5. Li tudinho, pois 'tá claro!

    E sabe o que me veio à memória imediatamente, não fosse a minha imaginação ter um problema de galopância crónica: o nosso primeiro atacar a crise com notas com a carinha dele! Não era fofo?

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  6. Muito bem descrito e que se lê de um só fôlego. Obrigada pela sua escrita que faz muito bem a quem a lê.

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  7. Ola boa noite. Tinha razao ontem nao consegui ler tudo, o cansaco apoderou-se de mim, mas hoje retomei e acabei. Vou voltar todos os dias.
    Quanto ao post de hoje, uma vez mais bastante interessante, apenas quero dizer que fico triste com o facto de as pessoas terem uma memoria tao curta e nao aprenderem com situacoes passadas mesmo que nao vivenciadas. Nao se pode pensar que as coisas mas so batem a porta dos outros e neste caso bate a porta dos postugueses e de que maneira.
    Espero que nao se importe de ter colocado o seu blog na minha lsita.

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  8. Li até ao fim e reli em voz alta para a minha filha, futura economista, se tudo correr bem. Incrível como a nossa memória é curta - mas os pormenores que conta não os conhecia mesmo e agradeço imenso a sua partilha. Pela minha parte pode continuar à vontade com textos longos, que são do que eu mais gosto.

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  9. Todos para Angola e em força :}

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  10. Notícias desse continente que me fascina "papo-as" todas quanto mais esta memória tão detalhada desses tempos negros por que passou a Argentina.

    A propósito, por o mencionar, o Vidella saiu de prisão domiciliária para prisão normal. A História tem contas a ajustar.

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  11. Ontem, cansada, quando vi o longo que era o texto, decidi deixa-lo para esta manhã, onde poderia gozar e aprender da sua leitura com a mente fresca. E assim foi, como sempre, e vejo que o que eu pensava está reafirmado nas suas palavras, o que me aumenta a inquietude. Não se trata de fechar os olhos à realidade, que isso é como beber para fazer 'desaparecer' penas ou problemas, mas ignoro o que posso fazer eu contra tudo isto e fica dentro uma sensação de impotência, de medo até, talvez?

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  12. O que aconteceu na Argentina só não acontece cá pelo facto de estarmos dentro de um grande bloco económico que, apesar da crise actual, tem capacidade de criar riqueza e de acrescentar valor. A China e a Índia crescem à bruta mas não o conseguiriam sem a Europa e os EUA para lhe fornecer know how e para lhe comprar os produtos.
    Os produtos chineses e indianos que chegam a 1€ aos importadores são vendidos ao público por 9€ ou 10€ e a diferença entre estes valores é lucro português, considerado no nosso PIB (os produtos equivalente fabricados na Europa custam 20€). Pela dimensão do volume das importações de produtos chineses é fácil imaginar o beneficio que o ocidente tira dessa deslocação de poder.
    O momento é de desconforto mas um euro forte, é doloroso de manter mas é o nosso seguro para evitar o que aconteceu na Argentina.
    Vamos falando.

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  13. Carlos,
    chegando ao fim, deste fantástico relato, fiquei com três impressões que passo a "dizer-lhe",
    - gosto de livros sobre viagens, de prefer~encia com fotografias, não daquelas viagens a sítios comuns, mas escondidos ou menos conhecidos desse mundo, não há muitos (que eu conheça), nunca pensou escrever um desses??!(não sei se viajou muito, mas a analisar por este post, seria um sucesso!)
    - "corralito"... não estaremos a caminhar a passos largos para um à portuguesa??! sei que não devia, mas só estava a sorrir e a imaginar uns euros na zona de Lisboa, com um carimbo azul, não poderam comprar produtos em Castelo Branco, os de lá teriam um carimbo verde...em Beja, amarelo, .... rsrs
    - adoro fotografia e fotografar, o Carlos, também.


    sorrisos :)

    mariam

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  14. Pedro:A dúvida é essa mesma: qual vai ser o futuro dos nossos filhos. Mas, sinceramente, acha que há muitos pais que se preocupam com isso?
    Abraço

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  15. Violeta: talvez a nossa Fada nos possa emprestar uma.

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  16. miepee: as coisas más só acontecem aos outros, não é?
    Muito obrigado pelo destaque. Vou retribuir brevemente.

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  17. Fada: a sua filha não achou isto uma seca? Quanto a textos longos só ao domingo ou em enlatados, porque isto por aqui anda afaltar tempo.
    Conchinhas

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  18. salvoconduto: pode crer que o ajuste de contas ainda vai prolongar-se por muito tempo. Em breve lá estarei mais uma vez e conto trazer novidades.

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  19. Tetem: medo não digo, mas que há razões para recear o futuro, nao tenho dúvida.

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  20. Paulo: e o que me apetecia escrever a propósito deste seu comentário, se tivesse tempo! Talvez um dia naquele restaurante de Porto de Mós...

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  21. mariam: pelas razões aduzidas peço Paulo Sousa, creio qu não corremos esse perigo. Quanto ao livro, talvez lá para a Primavera haja surpresas.

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  22. Bem, a viagem que fiz aqui... É que não faltou nada! O que aprendi e o gosto com que li poderão ser recompensados com mais posts destes? Agradecida, caro Carlos

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  23. Comecei por ler sobre a grande desilusão que foi almoçar numa das mais bonitas zonas do Distrito de Setúbal. De facto é uma pena que tal aconteça...

    Depois, descendo um pouco mais, eis que chego à Argentina (não imaginava que ficasse assim tão perto) - mas já vi que tal com o eu, muitos também pararam aqui – e claro eu também cheguei ao fim.
    Apesar desta não ter sido uma história muito colorida, esta região consegue manter sempre o seu encanto...
    Parabéns pelas viagens.

    Sj

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