quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Rock 'n stock (1)*



Durante muitos anos tive medo de mostrar às pessoas o que escrevia. A culpa foi do sr.Borges, meu professor na Escola Primária ( assim se chamava à época), figura de mestre escola do Estado Novo que um dia nos mandou escrever uma redacção sobre um sonho.
Escrevi e meti-me num 31! O sr. Borges não acreditou que tivesse sido eu a escrevê-la , tentou obrigar-me a confessar que tinha sido o meu irmão mais velho, ou a minha mãe – que na altura escrevia crónicas no Primeiro de Janeiro- a escrevê-la, mas insisti que fora eu. E fora… mas de nada me valeu dizer a verdade, porque apanhei 10 reguadas -as únicas que apanhei na minha vida. Deve ter sido nesse dia que comecei a perceber o que era a PIDE!
Dada a minha intransigência em confessar o delito, chamou os meus pais, mostrou-lhes a redacção e advertiu-os que não deviam ajudar-me. Os meus pais disseram que não tinham sido eles, garantiram que não fora nenhum dos meus irmãos e que na realidade eu lhes mostrara a redacção, depois de escrita e tinham ficado a pensar que eu me inspirara num livro qualquer.
O sr. Borges ficou uns momentos calado, depois perguntou aos meus pais quais eram as minhas leituras. A resposta foi idêntica à que daria a maioria dos pais de outras crianças da minha idade. Eu só lia as leituras normais para um miúdo de 9 anos, porque me estava vedado o acesso a leituras mais avançadas embora as tentasse surripiar, sem êxito, aos meus irmãos ( a biblioteca lá de casa era-me inacessível sem visto prévio).
O sr. Borges cofiou o bigode e afirmou peremptório: então levem-no a um psiquiatra!
Os meus pais insistiram , durante duas semanas, para lhes dizer a verdade. Só acreditaram que não mentira, quando me mandaram escrever uma redacção sobre as vindimas, sem sair da sala onde se dedicavam às suas leituras.
Quando terminei ficaram aliviados. Afinal não lhes mentira.
Sr. Borges: Esteja onde estiver, fique a saber, se ainda ninguém lhe disse, que aquela história da viagem num comboio eléctrico, onde viajei até ao País das Maravilhas e acabei por pedir a Alice em casamento, saiu mesmo da minha cabecinha. Por isso, se persiste em ser professor aí no lugar onde repousa, nunca peça aos seus alunos para lhe escreverem sobre a vida actual na Terra. Não ia acreditar como o mundo mudou desde que partiu, correria o risco de voltar a morrer e ser transformado outra vez em terráqueo.
Era muito bem feito, mas não lhe desejo esse mal! Limito-me a enviar cópia deste escrito ao ministro da educação para que ele nunca mais o ponha a ensinar. Mas talvez lhe consiga arranjar um lugar aqui, na Papua Nova Guiné!
* Crónica retirada à poeira do meu baú, porque também tem direito à vida.
Wewak, Papua Nova Guiné, Agosto de 1991( com a ilha de Cousteau em fundo)

28 comentários:

  1. Infelizmente Borges e Antónias, era assim que se chamava a minha, houve bastantes, castradores, alimentados pelo regime de então.

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  2. Carlos admiro a sua escrita.
    Em parte sei o que sente. Quando fui para a escola já sabia ler (juntar algumas palavras) - na verdade naõ sei como aprendi - mas ninguém acreditava, achavam que eu inventava. Como era de uma família de analfabetos dava na mesma. Foi aminha professora primária D. Lurdes que mais puxou por mim para que naõ ficasse presa ao ritmo dos restantes. Depois aos 8 anos ensinei um vizinho analfabeto a ler a escrever alguam coisa. Aind ahoje um homem já velho com um percurso de vid abem doloroso, fala no assunto.
    NA verdade vivia assim porque me era fácil.Sempre fui uma criança introspectiva e triste. Ajudar os outros era a únic aforma de me sentir util e compensada. Ainda hoje a leitura funciona como um porto de abrigo.
    Gosto de escrever, ams fico aquém da sua forma de se exprimir.
    Parabéns e perdoe o professor borges, fez o que achou correcto. No fundo fazemos todos o mesmo - o que achamos correcto.
    Felicidades

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  3. Rock em Stock - Grande programa de rádio da minha juventude :)
    Meteu-se num 31?!!!! Não dei por nada :D
    Eu tive sorte com as minhas professoras da escola primária, que sempre me incentivaram.
    Lindo o texto.

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  4. Esta lembrou-me um professor de desenho ao que chamávamos Tejodes (o nome era assim parecido, mas já nem sei qual era). Havia uma companheira na turma que era uma magnífica pintora, mas ele
    reprovava-a porque dizia que era o pai quem lhe fazia os desenhos, coisa absurda, pois os trabalhos faziam-se ali na aula. Eu, que nem sou capaz de pintar o risco dos olhos, pedia-lhe ajuda, que doutra maneira aquilo não avançava e ele terminava por me fazer o desenho inteiro... Já imagina, Carlos, os valores que ele "se/me" dava?

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  5. Ainda bem que foi buscar esta história ao baú. Também passei por mãos idênticas às desse sr. Borges, no feminino, mas não menos assanhadas a emitir juízos e a dar reguadas. Não apanhei muitas, mas ainda recordo todas as que considerei francamente injustas.

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  6. Obrigada Sr. Borges por nos ter permitido o prazer de ler este post... sem o senhor ele nunca teria sido possível!

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  7. Desculpe vir outra vez deixar uma pequena "nota", mas não resisto. Há pessoas para quem não chega verem-nos subir os patamares da vida. Acham que a subida só vale se for feita de joelhos e de olhos no chão para não olharmos a "paisagem".

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  8. Que maravilha de texto.Mas a Papua Nova Guiné deve tê-lo inspirado. Ora confesse lá.
    É claro que quem escreve assim começou de pequenino.
    Lamento as réguadas, mas também pedir a Alice em casamento não era coisa vulgar...
    Abençoado baú. Venham de lá mais Rocks em stock.
    Beijinhos e veludinhos azuis

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  9. Borges há muitos ainda por aí.
    Como gostaria de ter também capacidade para ter estes enlatados!
    abr caro Carlos

    p.s.Quando puder vá à nova casa, já pode dar largas ás suas criticas e opiniões, a caixa não é "forte".

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  10. Cof, cof, cof...
    Já desempoeirei o texto e sacudi o ecran...
    Logo às primeiras linhas, reconheci um brilho na escrita ao correr da pena; um pouco mais abaixo, uma referência histórica cheia de ironia, seguida de um pouco de suspense; humor, q.b. e a alusão a países no fim do mundo, duma lista de 97....
    huuuuummmmm....não há dúvida, este texto é mesmo do Carlos Barbosa de Oliveira!

    P.S. Veja lá se deixa o baú aberto mais vezes... para arejar

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  11. Viva o Professor Borges, que deixou descobrir o quão teimoso o Carlos é. E ainda bem.
    Eu tive uma professora qeu não acreditou que tinha sido eu a fazer uma redação sobre a tristeza, mas eu chorei tanto com o desgosto, que ela teve mesmo de acreditar.

    Ainda hoje, o meu marido não acreditou que fui eu que fiz o post do Alfredo e da Branquinha. Patti onde foste tu bsuicar estas ideias todas? Hahahahahahah.

    Credo, nunca nos têm na conta que merecemos, não é? Então e os neurónios servem para quê, não será para fluirem entre si e darem curto-circuitos?

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  12. Há pessoas que de facto nunca na vida deveriam ensinar/educar...depois dá nisto!! Mas, o positivo é que ultrapassou, e agora escreve neste fantástico blogue! Obrigada pelas suas partilhas. Se o seu antigo professor não fosse tão "gélido" e conhecesse verdadeiramente os seus alunos, conseguiria, também, conhecer a verdadeira autoria da composição. Bjs.

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  13. Eu, que sou mais maquiavelica do que o Carlos e, pelos vistos menos boa pessoa, acho que seria deveras interessante este seu professsor ter a oportunidade de voltar a exercer a profissão numa das nossas escolas da periferia de Lisboa, assim tipo Chelas... Não prejudicaria ninguém e seria uma experiência digna de ser observada. Mas isto sou eu que sou má. Professor não é quem quer ou pode, é quem nasce para isso, e não é nada fácil. Eu também conheci alguns assim, mas foi com mais idade e, por incrível que pareça, ainda os há, nos tempos que correm, muito disfarçados...

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  14. A duac rónica reflecte bem a noção de ensino de uma determinada época. Em que não havia lugar à imaginação. Isso assustava.
    Bopm pedaço de história. Obrigado pela partilha.
    Abraço

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  15. aiii... educação... acabei de chegar do blog da São :(
    http://saobanza.blogspot.com/

    dê uma "espreitadela" ... se lhe apetecer :)

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  16. ainda volto... também tive uma professora na minha 4ª classe, que gritava tanto, tinha uma voz tão áspera, pedia para lhe levarmos canas-da-india compridas, o desgraçado do Abílio levava, era sempre ele a levar com ela na cabeça em primeiro lugar... aos rapazes batia com a cabeça deles no quadro de ardósia quando se enganavam, havia meninas que faziam xixi com medo e depois levavam com a régua porque fizeram xixi... nunca me bateu, mas eu tinha pesadelos de noite, daqueles verbalizados e gritados... minha mãe (aflita) até se aperceber do porquê... nesse ano deu-se o 25 de Abril :)
    a senhora ainda é viva... o ano passado passei na sua terra e fiz questão de ir vê-la e dizer-lhe o quanto horrível ela era... dei-lhe um beijo, olhei-a e sorri... está alva e velhinha!

    sorry o alongamento! memórias! rsrsrs

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  17. eu, quando estou no meu cantinho e tenho algum tempo, gosto muito de passar por cá e admirar a sua escrita:)

    qualquer dia tem mesmo de publicar essa velha história do baú!

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  18. Violeta: Claro que perdoo o sr. Borges, coitado!No entanto, quando escrevi isto tinha acabado de visitar umas escolas em Wewak e não pude deixar de pensar nele, depois de umas cenas que por lá se passaram e que um dia contarei.

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  19. Gi: Meti, meti! Vá lá ver à caixa de comentários.

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  20. cristal: ( 2º comentário)- a inveja é uma caractrística de seres humanos menores. Infelizmente, é uma espécie em vias de expansão.

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  21. Pedro: Já lá fui e comentei. Parabéns e que seja feliz na nova morada.

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  22. Bue e Cecília: sempre que for preciso, lá irei, mas tenho este vício de não me conseguir deitar sem escrever qualquer coisa.

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  23. Patti: o pior é que às vezes o curto-circuitos dão cabo de tudo. Já me tem acontecido, mas só depois de mal estar feito é que pecebo que me queimei ( ou podia ter queimado...)

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  24. Girafa cor de rosa: seja bem aparecida no CR, depois de tão longa ausência. Professores como o sr. Borges há-de haver sempre...

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  25. Fada: Olhe que eu sou escorpião! Mas acredito que em Chelas ou em Alvalade o sr Borges seria sempe o mesmo. E não acredito que já não haja xemplares assim. De qq modo não lhe quero mal, coitado do senhor. Fiquei revoltado na altura, por ter sido castigado injustamente e não poder provar que ele estava errado. Infelizmente, isso acontece ao longo da nssa vida. Quantas pessoas podriam ter uma vida diferente se não encontrassem pela frente chefes que desconfiam das suas capacidades?

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  26. Lucia e mariam: ainda há srs Borges na escola e na vida profissional e acho que nunca vão acabar.
    omo diz o salvo, é tudo uma questão de lhes mudar o nome!

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