terça-feira, 1 de maio de 2018

Recordaçoes de Maio

Manifestação do 1º  de Maio de 1974



Faz hoje 48 anos que celebrei pela primeira vez o 1º de Maio. Terminei os festejos subindo em corrida desenfreada a rua do Alecrim, perseguido pela polícia. Uma simpática velhinha, vendo-me a sair os bofes pela boca, condoeu-se e abriu-me uma porta milagrosa por onde escapei sem mais problemas. Ficámos à conversa até quase ao anoitecer , quando deixei de ver as “ Creme Nívea” ( nome dado às singulares carrinhas da polícia, azuis e brancas da época) nas redondezas e senti que podia regressar a casa sem problemas.
Reconfortado com um chá, acompanhado de deliciosos biscoitos de Maizena feitos pela simpática anfitriã de ocasião, cujo sabor o meu palato hoje parece recordar, acabei de subir a rua do Alecrim. Quando cheguei ao Chiado encontrei dois amigos que tinham ido comigo ao esboço de manif que era possível fazer durante o Estado Novo. Acabámos a noite na Portugália a contar as peripécias vividas por cada um, perante o testemunho de alguns “finos” e o então celebrizado bife à Portugália.
Quatro anos depois, em 1974, apesar de estar a cumprir serviço militar em Mafra, foi dada autorização de saída aos recrutas e assim pude celebrar o primeiro 1º de Maio em Liberdade. Só quem viveu esse dia na rua sentirá o mesmo que, neste momento em que escrevo, estou a sentir.
Lembro-me daquela multidão imensa que trocava beijos e abraços, dos rostos vertendo lágrimas de alegria, de gente que não se conhecia de lado nenhum mas que, marcada por um passado comum, parecia ter um longo historial de fraternidade.
Nunca vi - e provavelmente nunca voltarei a ver- uma manifestação como a do 1º de Maio de 74. Foi um dos dias mais inebriantes que se me ofereceu viver em toda a vida e jamais o esquecerei.

Em 1974 os problemas não eram muito diversos dos que se vivem agora. A Europa estava mergulhada numa profunda crise energética, multiplicavam-se as greves com maquinistas, gasolineiros, transportes e mineiros a liderarem a contestação. Os países industrializados estavam à beira de um ataque de nervos e a energia nuclear era apontada como solução salvadora, para desespero dos ambientalistas. Falava-se em crise financeira e económica, provocada pela subida do preço do petróleo, que começara em 73. Só em Portugal havia festa. A Liberdade festejava-se na rua ao som de “Grândola Vila Morena” e as salas de cinema enchiam-se para ver “ O Último Tango em Paris”.
Quarenta e quatro anos depois o mundo mudou, mas as vítimas do progresso continuam a ser as mesmas e as razões para celebrar o 1º de Maio parecem tão pertinentes como naquela época. Por isso, se a saúde me permitisse, lá estaria.