terça-feira, 3 de abril de 2018

Casamento à italiana



Luigi di Maio e Matteo Salvini, num mural em Roma



Os leitores menos jovens do CR lembrar-se-ão, certamente, do filme "Divórcio à Italiana", uma comédia  realizada por Pietro Germi tendo como principais protagonistas Marcelo Mastroiani e a superdotada Stefania  Sandrelli.
Mais de 50 anos depois Itália presenteia-nos com outra comédia, intitulada "Casamento à Italiana". Desta vez, porém, não se trata de ficção. Nesta comédia da vida real, o casamento acaba em divórcio, ainda antes de os noivos, a viver em união de facto há pouco mais de um mês, comparecerem perante o padre.
O enredo conta-se em breves palavras.
A polarização do eleitorado italiano, nas últimas legislativas, determinou a quase impossibilidade de formação de um governo estável.
Uma das poucas combinações aritméticas possíveis era um governo de coligação entre o Movimento 5 Estrelas de Luigi di Maio  e a Liga de Matteo Salvini.
Apesar de muita gente saber que os extremos se tocam, ninguém acreditava na possibilidade de coligação entre um partido de extrema esquerda e outro de esquerda direita.  Ninguém... não. Luigi e Matteo acreditavam  e, nesse sentido, aliaram-se para eleger os presidentes do Senado e da Câmara dos Deputados.
No entanto, apesar dos evidentes pontos em comum, di Maio e Salvini  têm feitios inconciliáveis, pelo que  ao fim de alguns dias de vida em comum, os nubentes entraram em conflito. Dizem as más línguas que a zanga foi provocada por Berlusconni, que conseguiu instalar a desconfiança entre os dois. Ao que parece, Silvio ter-se-á metido na cama com Salvini e di Maio não perdoou a afronta.
Assim sendo, a Itália vai continuar sem governo e, muito provavelmente, os italianos serão  embreve chamados novamente às urnas .
Se o ditado " Gato escaldado de Água Fria tem Medo" se aplicar em Itália, é provável que os dois partidos extremistas sejam fortemente penalizados e a taluda do governo saia a outro candidato. 
Ficou no entanto provado que, pelo menos em Itália, é possível conciliar extrema esquerda e extrema direita. É provável que, mais cedo do que tarde,  um casamento  entrte extremos venha a ser celebrado noutro país europeu.

Os Remorsos do Homem Branco (Parte II)




Jeremy  Corbyn,  lider do Partido Trabalhista inglês, está a ser acusado de antissemitismo por ter  (re)publicado no FB uma mensagem que escrevera em 2012, criticando o Mayor de Londres por ter mandado limpar o graffiti que se vê na imagem ( um grupo de patrões judeus joga Monopólio nas costas dos trabalhadores).
Não me devia espantar com estas críticas, mas penso que é chegada a altura de reflectirmos sobre alguns melindres sem cabimento.
Se um partido de esquerda  se lembrar de fazer um outdoor semelhante, em que os patrões  judeus sejam  substituídos por patrões cristãos romanos,  branquinhos e assépticos, poderá haver quem acuse esse partido de demagogia ou mau gosto, mas não mais do que isso.
Vivemos numa sociedade cada vez mais asséptica e políticamente correcta, onde não se pode criticar um judeu ( mesmo que seja um pedófilo) sem  se ser acusado de antissemitismo; 
Não se pode criticar violentamente um  violador preto , porque isso é racismo;
Não se pode dizer mal de um gay ou de uma lésbica, porque é homofobia;
Não se pode criticar um(a) emigrante  que sobe na política por vias pouco claras, porque é xenofobia;
Não se pode criticar uma mulher que discrimina os homens no serviço público que dirige, porque isso é discriminação.
Sinceramente não sei que  mundo estamos a construir e a deixar como legado aos nossos filhos, mas não me parece que uma sociedade que despreza o ambiente, critica as desigualdades, mas pouco ou nada faz para as combater,  idolatra a economia e o dinheiro, dá grande valor à educação formal, mas despreza a educação social e cívica, valoriza o indivíduo, mas em nome do direito à diferença  e da tolerância, blinda determinados grupos a quaisquer críticas, seja uma sociedade mais justa e pacificadora.
Os criminosos, corruptos, desonestos e exploradores   não são um exclusivo do ser humano padronizado pelo Homem Branco. Existem em todas as classes sociais, raças, credos, sexos e géneros, independentemente das suas convicções políticas e ideológicas. Por isso somos TODOS DIFERENTES, TODOS IGUAIS e ninguém está acima de qualquer suspeita.