terça-feira, 20 de março de 2018

Kadhaffi, Sarkozy e a homilia de Marcelo



Ao saber da detenção de Sarkozy por,alegadamente, ter recebido dinheiro de Kadhaffi para financiar as suas campanhas eleitorais, rebobinei imediatamente a cassette e recordei algumas coisas que aqui escrevi à época.
Quando, em plena Primavera Árabe, Kadhafi disse que o queriam matar porque   sabia muitas coisas sobre a França e a Europa e financiara as campanhas de Sarkozy, os deslumbrados com as democracias árabes chamaram-lhe tudo.
Num post que escrevi sobre o assunto, dizendo que matar Kadhaffi seria um erro histórico de que a Europa se iria arrepender, fui acusado de ser  pró árabe e apoiar ditadores.  
Sete anos depois, comprova-se que tudo era verdade e, muito provavelmente, que Kadhaffi foi mesmo morto para não dar com a língua nos dentes
Nada que nos deva surpreender.
No dia 23 de Outubro de 2011, na sua homilia dominical, Marcelo Rebelo de Sousa afirmava que "Kadhaffi não podia ir a julgamento.Tinha de ser morto,  porque sabia demais!"( siga link)



O Drama, a Tragédia, o Horror!


Manhã de domingo, algures no Ribatejo
Enquanto a câmara nos mostrava umas estradas parcialmente alagadas, a jornalista fugia afogueada da intempérie e lançava perguntas a quem encontrava à mão.
Num notável esforço para dramatizar a situação traçava cenários de grande catástrofe e procurava com denodo sinais de destruição.
Às perguntas sobre as cheias os entrevistados respondiam com um sorriso.
Cheias? Isto são só inundações, menina.  E pequenitas.Todos os anos temos cá disto e bem pior.
Mas a ponte está cortada ao trânsito, como fazem para ir trabalhar?
( Eu que me lembro bem dos idos de 70 , quando  duas vezes por semana atravessava a ponte parcialmente alagada numa Renault 4 por onde entrava água até me ensopar as galochas, não pude deixar de esboçar um sorriso com o horror da repórter, perante uma ponte cortada ao trânsito, mas com as faixas de rodagem parcialmente visíveis e por isso transitável por veículos TT em caso de emergência)
A entrevistada não sorriu por compaixão, mas sempre foi dizendo:
- Temos de ir à volta, menina. Paciência! Já estamos habituados, porque todos os anos acontece o mesmo.
E os prejuízos das cheias para a agricultura?
-Ó menina!- respondeu condescendente o agricultor. Esta água é ouro para os campos. Renova-os e torna-os mais férteis.
A jornalista –repórter, ou vice versa, estava descoroçoada com a indiferença dos ribatejanos a uma tão grande catástrofe.  Para ela aquelas estradas parcialmente alagadas e os terrenos circundantes  submersos eram uma paisagem digna do Inferno de Dante.  Aquele cenário era  o espelho do drama, da tragédia, do horror!
Tive vontade de lhe telefonar e convidá-la para ver as fotografias dos anos 70 que tenho no meu espólio. Especialmente uma, onde o meu  supervisor do PNUD, um belga de provecta idade vai sentado no capô da Renault 4 ( com água até meio das portas) a dar-me orientações para não cair em buracos, nem sair da estrada.
Antigamente é que havia cheias, menina! O que acabou de ver e reportar aos telespectadores com tanta emotividade, foi apenas um  transtorno para os ribatejanos.