quinta-feira, 8 de março de 2018

Memórias em vinil (CCCLIII)

Hoje, por ser Dia Internacional da Mulher, dedico duas memórias a todas as mulheres que comigo se cruzaram na vida. 



E também a todas as mulheres  que continuam a ser oprimidas em todo o mundo, em especial àquelas  que não podem queixar-se  do  assédio sexual, porque  não têm voz, ou têmR prioridades mais prementes. 


A Visita

Dedicado a todas as mulheres solitárias deste mundo

A noite caiu há muito, está escuro como breu,  uma chuva miudinha rega  a terra seca  pelo prolongado estio.  Isilda chega à janela, afasta o reposteiro, abre a vidraça para sentir o cheiro da terra húmida,  procura  luzes  acesas em alguma das casas próximas. De Monfortinho a Monsanto toda a gente  já se foi deitar. Como sempre ela é a última, esteve até àquela hora a fazer companhia às personagens da telenovela que todas as noites lhe entram em casa. Com elas bebe chá ou café, no verão um refresco, quase sempre limonada, porque limões é coisa que tem em casa com fartura.

Isilda tem a sensação que as visitas  hoje se foram embora mais cedo. Olha para o relógio a confirmar, está parado nas 11 e 23 desde a morte do tio Marcelino, porque ela nunca mais deu corda àquela geringonça. Dá uma volta pela casa a certificar-se se está tudo bem fechado, um relâmpago ilumina o corredor escuro  e logo de seguida um trovão  ribomba, fazendo estremecer as frágeis paredes da casa.
Isilda tem medo, aconchega melhor o xaile ao corpo e pede protecção a Santa Bárbara.

Santa Bárbara, Bendita
Que no céu está escrita
Com papel e água benta
Para espantar esta tormenta
Espalhe-a lá para bem longe
Onde não haja eira nem beira
Nem raminho de oliveira
Nem raminho de figueira
Nem mulheres com meninos
Nem ovelhas com borreguinhos
Nem vacas com bezerrinhos
Nem pedrinhas de sal
Nem nada que faça mal…
Amen!

Um segundo trovão leva-a de volta à sala. Fica à espera. Passam alguns minutos, mas nada.  Vai para o quarto.Antes de apagar a luz beija o retrato do marido que há 24 anos repousa na cabeceira até que alguém lhe dê outro destino, quando Isilda morrer e com ele se for encontrar. Pelo menos é assim que ela pensa... Não consegue dormir. Volta a acender a luz, pega no livro de orações e finalmente adormece.
(…)
Acorda com o sr. Abílio que lhe traz o pão à porta.Fala-lhe do quarto.
Já tiraste o leite à vaca, Abílio?
Já D. Isilda. Está tudo direitinho. Quer vir ver?
Não, já vou buscar.
 A Júlia vem trazer-lhe o almoço à hora do costume. Hoje tem um petisquinho especial!
Ela que não se atrase, ouviste?
Esteja descansada!
Isilda levanta-se.  Liga o rádio enquanto toma o pequeno almoço. Está um belo dia de sol. Talvez dê uma volta pelo jardim, mas não pode demorar muito, porque- lembra-se- é dia de o filho lhe telefonar da Suíça.
Vai arranjar-se. Já não olha para o espelho, porque não quer ver  as rugas que lhe sulcam o rosto , outrora fascínio de  bela moçoila requestada em todos os bailes de Idanha, pelos rapazes desde Monfortinho a Castelo Branco.  Sai para o jardim. Corre uma aragem húmida e opta por ficar no alpendre enquanto espera a chegada das visitas. A Estrela troca mugidos com o Loiro da D. Ester, namoro antigo, o ti Tono passa com o rebanho e saúda-a com um bom dia, ela volta para dentro, esqueceu-se de pôr as jóias, apressa-se porque as visitas estão a chegar.
Senta-se no sofá em frente ao televisor , a Praça da Alegria já regurgita de gente.
Bom dia sr. Gabriel, Bom dia menina, Sónia. Então de que vamos falar hoje?

Em tempo: Este post foi publicado no crónicas on the rocks em Maio de 2012

A estagiária




Encontrei-a no elevador. Era a nova estagiária. Jovem promissora, afiançaram-me os membros do júri que avaliaram mais de uma centena de candidatos. Cruzara-me com ela uma outra vez, quando ela andava a prestar provas. Reparei no seu ar bamboleante , contrastando com o vestuário super discreto.
 Na  véspera deste segundo encontro, a directora informara-me que no final do mês ela iria transitar para o meu departamento, pois eu era a pessoa indicada para puxar pelas suas potencialidades.
Cumprimentámo-nos circunstancialmente. Eu levava debaixo do braço “Dias Exemplares” do Michael Cunningham.  Mostrando que a diferença de idades para ela não constituía problema,  perguntou com à vontade:
 - Que andas a ler?
Mostrei-lhe o livro.
- Eh! Isso é um livro muito antigo!
Nunca leste o D. Quixote, pois não?
Ela embatucou.
Peguei-lhe no braço e conduzi-a até ao meu gabinete. Estivemos a manhã inteira a falar sobre livros.  Da parte da tarde pedi para falar com a diretora:
- Quem é que contratou esta jovem que não sabe distinguir Nietzsche de Kafka?
A directora baixou os olhos. Depois, a custo, lá me enfrentou e respondeu:
- Foi um erro de casting. Tenho a certeza que você a vai orientar bem e fazer dela uma boa editora. O potencial está lá, só é preciso despoletá-lo.
Tentei. Oh se tentei! Mas de cada vez que tentava meter naquela cabecinha noções sobre as técnicas da edição, recebia apenas como reposta um sorriso idiota e um generoso cruzar de pernas. Fiquei a saber que preferia cuequinhas azuis, mas cheguei a duvidar se ela as usava por saber que eu era adepto portista, ou se o azul, para ela, era uma cor sexy. 
Um dia conseguiu convencer-me a tomar um copo com ela ao fim da tarde. Sem cerimónias, pegou-me na mão e disse:
- Já percebi que te estás a esforçar, mas eu não estou nada interessada na edição. Interessa-me apenas o lugar. O teu lugar. Quando te reformares será meu e não te intrometas.
Antes de me reformar o lugar já era dela.
Ainda bem. É preciso dar lugar aos jovens e, principalmente, muita transparência no recrutamento.
Em tempo: Publiquei este post no "Crónicas on the rocks" em Março de 2014. 

Um testemunho sobre a Síria

Eu já tinha publicado este video em 2016, mas parece-me oportuno recordar este testemunho sobre a Síria, porque hoje é Dia da Mulher e esta merece ser lembrada, porque anda por aí muita gente esquecida.
Ora recordem lá!...