quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

Memórias em vinil (CCCXVI)



Já sem Syd Barrett, os Pink Floyd gravam em 1968 o álbum "A Saucerful of Secrets"
Escolhi este tema, mas nesta fase ainda não era  agarrado à banda.  Só anos mais tarde, com Roger Waters, os Pink Floyd entrariam para a minha galeria de eleitos.
Boa noite

O Brasil e a mulher de César



A minha relação com o Brasil sempre foi um bocado ambígua.
Entre o fascínio e a repulsa, a paixão e o rancor, desde muito cedo aprendi que não se pode confiar muito num país onde a justiça privada era (é?)  mais poderosa do que a dos tribunais 
Ouvi muitas vezes os lamentos da minha tia Ruth, deputada estadual, que enfrentou com galhardia a ditadura dos generais. Um dia, teve esta frase lapidar:
" Aqui no Brasil os juízes fazem política e os políticos gostam de fazer justiça, nem que seja pelas próprias mãos".
Muito provavelmente, hoje em dia os políticos não precisam de recorrer a jagunços para fazer a "sua" justiça. Têm comissários políticos investidos em juízes que usam os tribunais para vingar as elites corruptas brasileiras, prenhas de ódio porque  Lula da Silva deu um prato de sopa diário a milhões de brasileiros. 
As elites brasileiras divertem-se a jorrar toneladas de alimentos no lixo e depois ver os pobres catá-los para matar a fome.
O ódio que vi nas palavras e expressão dos juízes que condenaram Lula, mesmo sendo claro não existirem provas concludentes para o incriminar, é o espelho do ódio das élites que os investiram nos cargos.
A justiça brasileira continua saudosa da ditadura  que Bolsonaro jura nunca ter existido. É por isso que não julga Temer e apoiou a palhaçada do impeachment,  de Dilma Rousseff.
A justiça brasileira nem sequer se dá ao trabalho de disfarçar e fingir que é séria. Opta por ser acintosa, classista e partidária.
Eu sei que há algumas semelhanças entre a justiça brasileira e a portuguesa, sendo a principal a tendência para acusar quem é de esquerda e ilibar quem é de direita. ( A diferença nas decisões e no tratamento dos arguidos em casos como o BPN, os submarinos, os Pandur, ou mais recentemente a Tecnoforma, em contraponto com o caso Sócrates é bem elucidativa).
Mas mesmo sabendo isso, não deixo de ficar enojado com a actuação da justiça brasileira no caso Lula da Silva. Demonstra que a democracia brasileira é uma anedota e faz ferver o sangue brasileiro que me corre nas veias.
Este Brasil que glorifica os corruptos, odeia e escarnece dos pobres, e se purifica em seitas religiosas como a IURD, mete-me nojo! 

Eles só gostam de bifes do lombo



Os autarcas são o espelho fiel dos portugueses. Em nome da descentralização reclamam mais poderes, mais dinheiro, mais direitos, mais competências mas quando o governo lhes atribui responsabilidades e deveres aqui d'el Rei que o governo ( seja ele qual for) está a empurrar para as autarquias  competências do poder central.
Vem isto a propósito do projecto de diploma, apresentado pelo governo, que responsabiliza as autarquias pela limpeza das florestas, caso os proprietários não cumpram essa obrigação.
A proposta apresentada pelo governo insere-se num pacote de medidas de combate aos incêndios florestais e parece-me bastante sensata, pois em função da proximidade e conhecimento do terreno,  as autarquias estão muito mais habilitadas a detectar incumprimentos e obrigar os proprietários a cumprir a lei, do que o governo.
A contestação da ANMP a esta proposta do governo apenas confirma aquilo que todos sabemos. Em matéria de descentralização, os autarcas querem o lombo, mas rejeitam os ossos, porque dão muito trabalho a roer.
É só mais um alerta para os entusiastas da regionalização. Eu também já fui um deles, mas fui perdendo o entusiasmo, quando comecei a perceber que a maioria dos autarcas não está preparada para o desafio.