quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

Um ano longe demais




Enquanto Jim Morrisson canta "We want the world now", John de Carlos e Tommy Smith protagonizam a manifestação do Black Power nos Jogos Olímpicos do México  e o movimento hippie desponta com flores na cabeça, sob o signo do "Make Love Not War", em Portugal os jovens embarcam para África com armas nas mãos, instruídos para matar.
Deixam no cais famílias lavadas em lágrimas e levam consigo, como recordação, a fotografia da namorada, guardada entre as páginas da Salut Les Copains, a revista preferida dos jovens melómanos portugueses naquele ano.
Estamos em 1968, o ano que moldou a minha vida. Foi nesse ano que ouvi pela primeira vez falar do Biafra,aprendi a viver sozinho, fiz importantes opções de vida e tomei decisões que só voltariam a ser reequacionadas depois da madrugada libertadora de Abril de 1974.


Nesse ano em que  " Era Proibido Proibir" , se reclamava nas ruas " A Imaginação ao Poder" , os jovens vestiam "Blue Jeans et Blouson de cuir" e a música franco italiana ainda marcava forte presença nas festas de garagem, Jane Birkin acicata a sensualidade nos bailes com "Je t'aime moi non plus"
Por cá, Zeca Afonso desperta as consciências em convívios universitários com "Eles Comem Tudo".
Em França vivem-se tempos empolgados, devido à crescente contestação de estudantes e trabalhadores. Depois de uma greve geral que se prolongou por 10 dias, os trabalhadores chegam a acordo com os patrões em troca do estabelecimento de um salário mínimo e de mais uma semana de férias ( a quarta) e a garantia da protecção dos direitos sindicais nas empresas.
Durante aquele louco mês de Maio, a contestação alcança grandes sucessos a nível de reformas sociais. A despenalização do aborto, o direito ao divórcio e a igualdade de direitos parentais são, quiçá, os mais emblemáticos.
No meio do coro de protestos emerge o nome de um estudante: Cohn Bendit. Ficará conhecido pela geração de 60 como "Danny le Rouge", mas o símbolo da rebeldia do Maio de 68 é expulso para a Alemanha, onde se deixará seduzir  pelas maravilhas do sistema e, anos mais tarde, ocupar um assento no Parlamento Europeu, onde passará a ser mais conhecido como "Danny le Vert". Em versão "Rouge" o exemplo Cohn Bendit foi seguido por toda uma geração que hoje ocupa lugares de destaque nos governos de países europeus e nas instituições europeias.
Os símbolos de rebeldia da geração de 60 acabam nas Administrações de Bancos e empresas multinacionais a fumar charutos, beber whiskey e a falar ao telefone com amigos bem colocados na cena política. Um grande exemplo para os filhos que hoje acusam de não terem valores. Mas que valores podem defender os filhos da geração de 60, quando vêem o exemplo dos país?

Voltemos ao tempo em que a utopia permitia sonhar e a luta estudantil - que se autoproclamava como sua fiel intérprete e depositária - rapidamente alastra aos trabalhadores, propagando-se pela Europa. Incluindo Portugal, onde um Marcelo que preferia a bastonada aos afectos  sucede a Salazar, apeado do poder por uma cadeira abençoada.
Enquanto na Checoslováquia tanques soviéticos derrubavam Dubcek e punham fim à "Primavra de Praga", em Portugal inicia-se outra Primavera: a marcelista. Não se usam flores na cabeça, apenas jeans coçados comprados nas docas a marinheiros americanos.
Do outro lado do Atlântico, uma Revolução de contornos bem diferentes se inicia, com a plantação de vegetais de maturação rápida- A "Revolução Verde". Polansky bem avisava, na Alemanha, que se tratava da “Semente do Diabo”, mas só Stanley Kubrick compreende a mensagem. Responde com "2001-Odisseia no Espaço", um estrondoso sucesso de bilheteira.
No Espaço, em tempo real, a Odisseia chamava-se Apolo e deixava Lyndon Johnson com um sorriso de orelha a orelha: os americanos ultrapassavam definitivamente a URSS na luta pela "conquista" da Lua.
Menos razões para sorrir tinham os jovens americanos que embarcavam aos milhares rumo ao Vietname, para travar uma guerra violenta e estúpida, que anos mais tarde  Hollywood retrataria em histórias e  imagens inolvidáveis que, à época, ainda esgotavam as salas de cinema várias vezes ao dia.
Mas antes de vermos as imagens de "O Caçador", "Bom Dia Vietname" ou "Apocalipse Now", ainda ficaríamos a saber, em Setembro de 1968,  através da leitura da "Flama", "Século Ilustrado" ou "Plateia", os pormenores das festas de Patiño e Schlumberger que reuniram, no Estoril, milhares de  estrelas de cinema e figuras da realeza europeia.
Festa diferente, destinada fundamentalmente a público jovem e contestatário, realizara-se um mês antes em Vilar de Mouros.  Com muita Paz, Amor, Sexo, Drogas  e Rock and Roll, milhares de pessoas viveram naquele mês de Agosto a experiência de uma vida: um Woodstock à portuguesa.
Como todos os outros anos , 1968 acabou em 31 de Dezembro, mas  com a curiosidade de toda a gente se desejar FELIZ 69
Apesar do assassinato de Martin Luther King nos EUA ter sido um rude golpe na luta contra o Racismo   e de a Revolução de Maio em França, ter terminado com manifestações de apoio a De Gaulle, 1968  foi um ano que deixou saudades. Apesar de alguns revezes, foram muitas as conquistas alcançadas nesse ano e muitas outras que então germinaram, para frutificarem anos depois. Não só em França, mas um pouco por todo o mundo ocidental.
Por tudo isto, 1968 foi  dos anos mais marcantes do século XX. 
Meio século depois, talvez estejamos a iniciar um ano de muitas similitudes com 1968 mas, sobre isso, escreverei noutro dia.