domingo, 13 de maio de 2018

Rua dos Cafés (4)


Em todas as cidades onde vivi, encontrei sempre um ou dois cafés que faziam parte das minhas rotinas e me ajudaram a perpetuar memórias.
Em Buenos Aires, porém, esse número aumentou exponencialmente. A capital argentina é um verdadeiro tesouro para quem aprecia cafés ( mais de meia centena estão referenciados como património cultural e histórico da cidade) sendo muitos deles recheados de histórias.
Quando lá vivi, a minha primeira paixão foi o celebérrimo Café Tortoni, na Av de Mayo, bem perto da Casa Rosada, sede do governo. Mas muitos outros, como o La Biela ou a Confiteria Ideal ( onde a Laura tentou ingloriamente fazer de mim um tanguero) continuam a ser visita obrigatória sempre que vou a Buenos Aires.
Mas é  do Café/ Confiteria Richmond que retenho algumas das melhores recordações de Buenos Aires . Localizada na Calle Florida, em pleno centro da cidade, era um dos cafés preferidos do ainda jovem Borges e de muitos outros intelectuais e artistas argentinos.

Naquele cenário de candelabros, madeiras inglesas e mesas com tampos de mármore, da Buenos Aires dos anos 20, me sentei centenas de vezes. Fosse para tomar um café rápido, acompanhado de uma mini medialuna, fosse para repouso mais prolongado de leitura, na companhia de um chocolate quente ou de um mate em fins de tarde invernosos, a Richmond era visita diária, quase obrigatória.
Ali respirava a atmosfera porteña , embalado pelo cenário ou à conversa com clientes habituais, desde executivos a empregados de escritórios que, ao final da tarde, faziam da Richmond o seu porto de escala, antes do regresso a casa. Foi na Richmond que alinhavei muitos artigos e reportagens, depois concluídos no remanso da casa em Maipú, ou em SanTelmo.

Fiquei ontem a saber que a Richmond fechou as suas portas no último sábado. De madrugada, sem pré-aviso e para surpresa de todos, incluindo empregados, que no dia seguinte se apresentaram ao trabalho, como habitualmente.
Desapareceu um dos cafés/confiterias mais emblemáticos de Buenos Aires, palco de animadas tertúlias. Morreu um bocado da História bonaerense e morreu um bocado de mim. No lugar da Richmond vai surgir uma loja de artigos de desporto…americana!
Em Dezembro, quando regressar a Buenos Aires, vou lá pôr um ramo de flores com um cartão onde escreverei “ Os Yankees roubaram um bocado da minha vida. Hijos de una puta madre!”

AVISO: Texto reeditado. Versão original publicada em 25 Agosto de 2011. Não cumpri a promessa do último parágrafo porque  a vigilância era apertada e não me apeteceu experimentar os calabouços argentinos.

8 comentários:

  1. :). Os caminhos da saudade nem sempre são estrada larga.

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    1. Verdade, Bea, mas eu consigo desbravar os caminhos :-)

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  2. Olá. Ficam sempre, boas ou menos boas, recordações dos locais por onde passamos ao longo da vida

    * Olhares e Deslumbres *
    Abraço

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    1. Olá Nataline. Desculpe ainda não ter respondido aos seus simpáticos comentários. Já fui dar uma rápida olhadela ao seu blog e gostei do que li, mas não tive ainda oportunidade de comentar. Amanhã passarei lá com mais tempo. Abraço

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  3. Há um certo sentimento de tristeza na rua dos cafés. Embora eu não o tipo de me prender muito ao passado, é um prazer para mim, ler esta rubrica.

    Beijo da amiga tuga, sempre muito sua amiga.

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    1. Mais nostalgia do que tristeza, Teresa. é fruto da idade e do aproximar da meta... Obrigado pela sua amizade que retribuo com muita sinceridade. Embora muitas vezes discordemos, temos algo em comum que fortalece esta ligação blogosférica de muitos anos e que algumas pessoas não percebem, porque a Mouraria não é propriamente terra de afectos. Beijinho garnde

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  4. A especulação imobiliária faz-se sentir um pouco por toda a parte, Carlos.

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