terça-feira, 17 de abril de 2018

Em defesa dos professores

Só quem nunca deu aulas, ou desconhece o ambiente escolar, pode  insurgir-se  ou surpreender-se, com o elevado número de professores que estão de baixa médica.
A tarefa de um professor é de extraordinário desgaste. Não se limita a  preparar e debitar aulas,  desenvolver tarefas administrativas ou  aturar miúdos indisciplinados e, não raras vezes, violentos. Os professores ainda têm de desempenhar tarefas que deveriam ser da responsabilidade dos encarregado de educação e suportar a ira de alguns  paizinhos incapazes de aceitar a má criação ou total incapacidade para os estudos  dos seus rebentos. 
Nestes casos, a maioria dos pais descarrega a sua frustração sobre os professores, chegando a agredi-los.
Ser professor  exige, além de capacidade profissional para desempenhar a tarefa, grande estofo psicológico.

Passei muito tempo da minha vida profissional em escolas a fazer formação de professores e pude aperceber-me do grau de exigência que lhes é colocado. Pessoalmente, apesar de considerar  uma profissão fascinante,  compreendi rapidamente que nunca teria capacidade para a desempenhar.  Como eu, há milhares de professores no activo sem arcaboiço para ensinar. Muitos foram atirados para o ensino nos anos 70 e 80, por ser a forma mais expedita de encontrarem um emprego. Mas não estará entre eles, certamente, a maioria dos  6 mil docentes que estão de baixa médica à espera de uma Junta, há pelo menos dois meses. 
Palpita-me que a maioria deles sejam pessoas  empenhadíssimas e que amam a profissão, pois são esses que normalmente mais sentem a responsabilidade de  ensinar e a frustração pelo pouco reconhecimento da sua profissão.
Exigir a um professor que trabalhe durante 40 anos com o mesmo entusiasmo e tenha ao fim de décadas de dedicação a mesma capacidade para lidar com jovens rebeldes e, não raras vezes, mal educados e agressivos é uma enorme crueldade. E  revela também  falta de reconhecimento sobre a actividade dos professores e ignorância sobre o ambiente escolar.
Lembro-me sempre do dia em que entrei numa escola da Trafaria, para ui  falar com alunos sobre ambiente e sustentabilidade e encontrei miúdos a brincar com armas de fogo e armas brancas. 

É por  tudo isso que me encanita  a forma crítica como a comunicação social trata a questão das baixas médicas dos professores. Os jornalistas têm a obrigação de identificar as causas, antes de fazerem críticas mais ou menos soezes, insinuando que é a balda generalizada no ensino em Portugal



5 comentários:

  1. O burnout dos professores é uma epidemia internacional. E nem sempre compreendida pelos pais. Para eles, os professores são uns privilegiados. Têm grandes ordenados, excelentes benefícios (regalias?), dois meses de férias no verão, mais duas semanas no Natal e uma semana em março, 16 dias por ano, pagos, que podem tirar - 12 por doença, 1 para mudança de casa, e 3 para situações de emergência - e ótimas pensões. Quando se fala em greve dos professores é um alvoroço!

    Na minha opinião todos os pais deveriam acompanhar/observar uma semana na vida de uma professora e serem informados de algumas modificações feitas no currículo, ou de novas normas elaboradas por génios que não entram numa sala de aula há décadas.

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    1. Assino, Catarina. Aqui, exactamente como no Canadá. GREVE dos professores e dos médicos é considerado aqui um escândalo. Pior do que as crianças, são os pais das mesmas crianças.

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    2. Assino por baixo os comentários das duas. Aqui há muita gente que defende a proibição das greves dos professores, mas são ainda mais os que defendem o fim do direito à greve.

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  2. Longe vão os tempos em que o professor era uma figura respeitada, Carlos.
    Devo estar a ficar velho porque lembro bem esses tempos.

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    1. Eu também, Pedro. Espero que por aí o professor mantenha o mesmo estatuto de pessoa respeitada até à morte,

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