terça-feira, 20 de março de 2018

O Drama, a Tragédia, o Horror!


Manhã de domingo, algures no Ribatejo
Enquanto a câmara nos mostrava umas estradas parcialmente alagadas, a jornalista fugia afogueada da intempérie e lançava perguntas a quem encontrava à mão.
Num notável esforço para dramatizar a situação traçava cenários de grande catástrofe e procurava com denodo sinais de destruição.
Às perguntas sobre as cheias os entrevistados respondiam com um sorriso.
Cheias? Isto são só inundações, menina.  E pequenitas.Todos os anos temos cá disto e bem pior.
Mas a ponte está cortada ao trânsito, como fazem para ir trabalhar?
( Eu que me lembro bem dos idos de 70 , quando  duas vezes por semana atravessava a ponte parcialmente alagada numa Renault 4 por onde entrava água até me ensopar as galochas, não pude deixar de esboçar um sorriso com o horror da repórter, perante uma ponte cortada ao trânsito, mas com as faixas de rodagem parcialmente visíveis e por isso transitável por veículos TT em caso de emergência)
A entrevistada não sorriu por compaixão, mas sempre foi dizendo:
- Temos de ir à volta, menina. Paciência! Já estamos habituados, porque todos os anos acontece o mesmo.
E os prejuízos das cheias para a agricultura?
-Ó menina!- respondeu condescendente o agricultor. Esta água é ouro para os campos. Renova-os e torna-os mais férteis.
A jornalista –repórter, ou vice versa, estava descoroçoada com a indiferença dos ribatejanos a uma tão grande catástrofe.  Para ela aquelas estradas parcialmente alagadas e os terrenos circundantes  submersos eram uma paisagem digna do Inferno de Dante.  Aquele cenário era  o espelho do drama, da tragédia, do horror!
Tive vontade de lhe telefonar e convidá-la para ver as fotografias dos anos 70 que tenho no meu espólio. Especialmente uma, onde o meu  supervisor do PNUD, um belga de provecta idade vai sentado no capô da Renault 4 ( com água até meio das portas) a dar-me orientações para não cair em buracos, nem sair da estrada.
Antigamente é que havia cheias, menina! O que acabou de ver e reportar aos telespectadores com tanta emotividade, foi apenas um  transtorno para os ribatejanos.

3 comentários:

  1. Eu lembro-me bem de quando as ruas do centro de Coruche ficavam inundadas durante algumas horas... era uma festa para a criançada.

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  2. Não se sabe que ar respira o pessoal das televisões que querem ver desgraça e dor em todo o lado. No verão vão ao Alentejo perguntar, e o calor? como passa com este calor? Mas o calor é de todos os anos e os alentejanos respondem como a gente do Ribatejo, estamos habituados, aqui é assim e ainda mais.
    Há reportagens lastimáveis. O povo bem lhes diz a verdade, mas não rende. Uma mentira que agarrasse toda a gente e a deixasse pendurada e a babar piedade é que era.
    Fica a gente sem jeito com o que encontra mal carrega no botão.

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  3. Não fazia ideia que o Ribatejo estava nesse estado deplorável ;(

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