terça-feira, 19 de dezembro de 2017

Luta na lama



Que Ana Leal desconheça as funções de um vice-presidente da AG de uma instituição, não me espanta. Já que deputados pafiosos como Clara Marques Mendes e António Carlos Monteiro manifestem a mesma ignorância, parece-me preocupante.
Que Ana Leal sugira a demissão do ministro por causa da Raríssimas é hilariante. Que haja deputados a sugerirem o mesmo, deixa-me perplexo.
Que Ana Leal exija ao ministro a demissão de Paula Brito Costa da Casa dos Marcos revela apenas a sua ignorân
cia. Que Ana Leal ( e a comunicação social em geral) continue a esquecer as trafulhices e responsabilidades de Joaquina Teixeira e os contornos de vendetta em todo este caso, confirma que a denúncia da TVI tinha como objectivo exclusivo atingir um dos melhores ministros deste governo, mas não explica a razão de a TVI continuar a chamar investigação jornalística a um conjunto de documentos que Joaquina Teixeira lhe entregou de mão beijada. Isso é vampirismo. Investigação jornalística é outra coisa que a TVI desconhece desde que optou por seguir a escola jornalística de Manuela Moura Guedes.
Finalmente, arrastar para a lama uma instituição que desenvolve um trabalho extraordinário reconhecido internacionalmente, só para satisfazer objectivos políticos, não é jornalismo. É uma pulhice sem nome.

Raríssimas: o pecado original




Ponto prévio:  a Raríssimas não é uma história de "vingança entre gajas", como já  li e ouvi. É uma história de concubinato entre jornalistas e poder político.

Conheci a Raríssimas há cerca de uma década, na sequência de uma extensa reportagem que fiz sobre a economia social.  Devo dizer que fiquei impressionado com o belíssimo trabalho  ali desenvolvido   e com as circunstâncias que determinaram a  criação  desta IPSS ( Paula Brito Costa criou a Raríssimas após a morte do  filho Marco que nasceu com uma doença raríssima  e morreu com 15 ou 16 anos).

No final da entrevista lembro-me de ter  comentado com o fotógrafo que, apesar do excelente trabalho desenvolvido pela instituição, ela padecia de um pecado original.
Com efeito,  não me escapou o facto de a sua fundadora  ser a  presidente da instituição e de esta funcionar com o apoio de verbas do Estado.

 Não é que seja caso raro, mas já então a experiência me dizia que, ao fim de alguns anos, estas situações são propícias  a uma má utilização dos dinheiros públicos.

 Empenhados no projecto que criaram, os fundadores que se tornam dirigentes tendem a confundir-se com a instituição e a esquecer que os dinheiros com que gerem o projecto são públicos e exigem responsabilidades públicas.

Foi com base nessa experiência que, quando convidado a integrar um grupo de trabalho sobre as regras a que deviam estar sujeitas as entidades que recebem apoios do Estado, propus fiscalização e controlo muito rigorosos e  a inelegibilidade de instituições onde os órgãos sociais sejam preenchidos maioritariamente por familiares.

“Atrevi-me” ainda  a propor a proibição de atribuir apoios e subsídios a entidades que  integrem nos órgãos sociais, dirigentes de organismos dependentes do ministério que os atribui. Claro que, conhecendo o conluio entre os partidos do Centrão em matéria de atribuição de subsídios, sabia que facilmente seriam ultrapassados os efeitos pretendidos com essa proposta. Mesmo assim a proposta foi chumbada e  a fiscalização- já de si  permissiva- esbarrava na indiferença de quem decide a nível ministerial.

O que se passou na Raríssiimas não é caso único. Acontece em muitas outras instituições.

O Centrão criou na  sociedade portuguesa um clima de impunidade absoluta, onde todos se encobrem mutuamente e  as denúncias caem em saco roto. Ou porque nem sequer chegam a quem tem poder decisório, ou porque são encaradas como “pequenas coisas sem importância”.

Acredito que a presidente da Raríssimas- à semelhança de muitos outros dirigentes de IPSS  e demais organizações da economia social- ajam de forma semi inconsciente quando usam  dinheiros públicos. Na verdade, quando os dirigentes são os “mentores” da ideia que presidiu à criação da instituição, ou permanecem no cargo durante muitos anos, acabam por sofrer dessa doença que lhes coarta a capacidade de discernir sobre a utilização correcta e criteriosa dos dinheiros públicos.

Foi por isso sem perplexidade, nem indignação, que soube do comportamento de Paula Brito Costa à frente da Raríssimas. Surpreendeu-me, outrossim, que finalmente um canal de televisão tivesse investido nesta matéria.

Como estou impedido de sair de casa há alguns dias, ontem assisti à audição do ministro Vieira da Silva na AR, na expectativa de algumas respostas.
Népia. Apenas reforcei  a convicção  de que continua a ser muito verdadeira a máxima de que quando o jornalismo vai para  cama  com a política, os cidadãos ficam sempre a perder.
Quando a investigação jornalística apenas se debruça sobre uma parte da questão, omitindo aquela que é mais importante, porque não interessa aos objectivos pretendidos, estamos perante política e não jornalismo.
É mais do que óbvio que Ana Leal, apesar de saber desde o início das falcatruas de Joaquina Teixeira ( vice-presidente da Raríssimas) nunca se preocupou com o caso. Como se tivesse feito um pacto do género "dás-me a informação que eu preciso e eu desvio as atenções da opinião pública das tuas trafulhices", Ana Leal evitou a todo o custo relacionar o caso Raríssimas com uma vingança interna, optando por envolver um dos mais sérios e competentes ministros deste governo. Essa foi a razão de nunca ter mencionado a existência de Joaquina Teixeira, nem as fraudes por ela cometidas. Isso estragava-lhe a narrativa e certamente desagradaria  Nomeadamente ao grupo parlamentar do CDS, cheio de arruaceiros e prostitutas mentais, avessos à ética e à honestidade intelectual.
Não nos espantemos se dentro de alguns meses tivermos notícias surpreendentes sobre este caso. Será sinal que o CDS - lídimo representante da hipocrisia em matéria de assistencialismo e caridadezinha- conseguiram os seus objectivos.
No meio de todo este imbróglio fabricado por razões que em breve serão conhecidas, os prejudicados são os utentes de uma IPSS essencial para o seu bem estar.