quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Memórias em vinil (CCI)

Em Agosto de 1967, mais de 100 mil pessoas dirigiram-se para S. Francisco. Apregoavam paz, amor ( às pessoas e à Natureza)  e queriam mudar o mundo.
Meio século depois, aquele que ficou conhecido como Summer of Love, deixou um legado que ainda hoje perdura. Naquele Verão o mundo mudou para sempre.
Boa noite com muitas flores e muito amor no ar.

Coisas do Diabo


Um cadastrado em liberdade condicional faz uma aposta de 100€ com uns amigos mas falha a pontaria e, em vez de mergulhar no rio Douro, mergulha nas escadas da Padeira e morre.
No  bairro da Boavista, um puto de 19 anos chateia-se com o irmão de 23 e resolve o assunto matando-o.
 Um homem de 30(?) anos está na praia com uma miúda de 10(?), quiçá a preparar um mergulho, quando uma avioneta desgovernada " aterra" em  cima deles. Os tripulantes salvam-se sem uma beliscadura, mas os banhistas morrem no local.
Bem dizia o emplastro de Massamá que vinha aí o Diabo.
Tinha de chegar no dia em que se acabou o crédito barato?

Crédito(s) mal parado(s)



Andamos há décadas a viver a crédito. Não tardará muito até  percebermos que o nosso cartão já não tem crédito e nenhum banco estará disponível para nos perdoar a dívida.
Refiro-me, obviamente, ao cartão de crédito ambiental que andamos a utilizar  há décadas com displicência, como se os recursos naturais disponíveis fossem ilimitados.
De ano para ano esgotamos mais cedo os créditos ambientais. Ano passado, extinguiram-se no dia 8 de Agosto. Este ano  no dia 2, ou seja, seis dias mais cedo. 
Dito por outras palavras: este ano vamos viver durante cinco meses com créditos que apenas devíamos utilizar em 2018.
Até quando irá a Natureza suportar este acumular de dívida? Não estarei cá para ver, nem para dizer " eu tinha avisado". Não posso deixar de lamentar, porém, ter andado mais de 40 anos a trabalhar em questões ambientais, mais de 30 a escrever sobre a inconsciência dos governos que descuravam esta matéria e não investiam  na educação ambiental com a premência exigida. Claro que se pode sempre dizer que um país sozinho não pode fazer nada e são precisos acordos globais, mas essa é apenas uma versão diferente do comportamento  da avestruz. 
Um dos grandes ensinamentos do Rio de Janeiro 92 foi "Pensar globalmente, agir localmente". 
Não nego que Portugal fez alguns progressos em matéria legislativa e de boas práticas mas faltou educar um povo avesso a comportamentos próactivos em matérias do foro cívico. Bem espelhados, aliás, no comportamento de uma ministra do Ambiente que, perante a seca, se limitou a declarar que " iria rezar a Nossa senhora de Fátima a pedir que chovesse". 
Se essa ministra, tivesse 70 anos, ainda compreenderia, mas a senhora tem pouco mais de 40,  montanhas de cursos, mestrados e doutoramentos, dirige um partido  e comporta-se como uma analfabeta.
De igual modo não aceito a passividade com que Portugal está a encarar a questão de Almaraz que não só tem implicações ambientais, como pode provocar uma catástrofe humanitária de dimensões gigantescas. 
Desenvolver uma política ambiental positiva não é apostar (timidamente) em energias alternativas e distribuir uns contentores para os cidadãos separarem os lixos. É preciso disciplinar pessoas e empresas punindo-as severamente quando cometem crimes ambientais mas, infelizmente, as autoridades fecham os olhos e ignoram a aplicação da legislação em toda a fileira produtiva, até à morte dos produtos.   
O que se passa nos aterros sanitários, nos processos de reciclagem do lixo, nas ETAR, etc.etc.etc. não é só um filme de terror. É um processo de enriquecimento à sombra de boas práticas ambientais.
O problema não é exclusivamente português, mas ano após anos nos atrasamos em relação a boas práticas que vão sendo seguidas um pouco por toda a Europa e também agora na Ásia, com a China a assumir o comando.
Só não digo com o o poeta "errei todo o discurso dos meus anos" porque, apesar de tudo, reconheço haver progressos. 
Há 40 anos olhavam para mim como perigoso esquerdista por me preocupar com temas ambientais.
Há 30 olhavam-me de soslaio quando falava em consumo e desenvolvimento sustentáveis, ou alertava para a pegada ecológica provocada pelo turismo e os jornais ditos de referência sorriam quando lhes propunha escrever sobre estas matérias. Com excepção do " Público"  e "Tribuna de Macau", as  publicações onde conseguia escrever eram quase todas especializadas
Há 25 comecei a ser sondado para escrever sobre estas questões em algumas revistas consegui introduzir temas de ambiente, consumo e turismo em pequenos apontamentos televisivos.
Na última década houve um notório desinvestimento na informação visando a sustentabilidade e o consumo responsável. Incluindo publicações institucionais que desapareceram porque "eram uma despesa incomportável"e o investimento foi canalizado para a "educação financeira". Com os bons resultados da bancarrota em 2011.
Entretanto, continuamos a fazer do mar o nosso caixote do lixo de eleição e a consumir displicentemente os recursos naturais.
 Depois da Cimeira de Paris parece haver vontade de o mundo civilizado encarar seriamente as questões ambientais e as temáticas que lhe estão associadas. Resta saber se ainda vamos a tempo.
A Brites, desde  aquela desilusão em Copenhague virou-se para a socialite e o jornalismo cor de rosa e o Sebastião, coitado, emigrou em 2014 e não quer que o chateiem porque, diz, ele, os humanos são uma perda de tempo e não lhe merecem crédito. E quanto a mim, estou reformado, quem vier a seguir que se amanhe.
O melhor é admitir que ou arrepiamos caminho, ou ninguém dará crédito aos nossos netos, para continuarem a consumir os recursos naturais de forma tão inconsciente.

Praias da minha vida (com histórias dentro) - 1



A minha Mãe dizia que foi em  Espinho que pela primeira vez me levou à praia mas, a memória  que tenho de ter pisado areia pela primeira vez, traz-me à memória a Praia dos Beijinhos, em Leça da Palmeira.
Tenho memórias muito vagas e difusas dos tempos que lá passei, mas duas coisas me estão coladas à memória:
- o vendedor de barquilhos
Trazia uma caixa com uma roleta em cima que  rodávamos. O número em que a roleta parasse determinava o número de barquilhos a que tínhamos direito. Comecei em pequenino a perceber que não estava talhado para ter sorte ao jogo.
- o nevoeiro
Lembro-me de chegar  à praia de manhã com um dia esplendoroso de sol e, horas depois, levantar-se uma ventania infernal ou cair um nevoeiro gelado que nos obrigava a correr para dentro da barraca, onde ficávamos à espera que o meu tio nos fosse buscar, porque nem a minha Mãe, nem a minha tia tinham carta de condução.
Para além das brincadeiras comuns a todas as praias, havia um entretenimento peculiar naquela  praia: apanhar beijinhos (  foto)
Já naquela época escasseavam no litoral mas na Praia dos Beijinhos ainda os havia em abundância. Lembro-me de os apanhar, guardar numa caixa e no ano seguinte devolvê-los à praia para que enquanto estivesse por lá tivesse hipóteses de recuperar alguns.
Não fui para a Praia dos Beijinhos  durante muitos anos mas havia de voltar lá num dia memorável de 1966: 1 de Agosto. Porque recordo esse dia? Passo a contar
Dois dias antes tinha sido a final do Mundial de Futebol de 1966, entre Inglaterra e Alemanha. Eu estava em Ofir e vi o jogo no hotel de Ofir com um grupo onde estava a minha amiga Petra W.   
A Alemanha foi escandalosamente roubada, o árbitro validou um golo aos ingleses, sem que a bola tenha entrado na baliza e no final a Inglaterra, que jogava em casa, venceu por  4-2.
Pela primeira vez na vida estava a torcer pela Alemanha e a desejar a derrota dos ingleses, que nos tinham afastado da final. Partilhei a amargura com a minha amiga, enquanto desanuviávamos a tristeza com uma partida de bowling. Ela perdeu e no final eu disse-lhe que para a alegrar, no dia seguinte lhe trazia um beijinho. Ela corou, sorriu e perguntou:
- Porquê só amanhã?
-Porque aqui não tenho nenhum. Tenho de os ir buscar a casa.
A PetraW ( que tinha conhecido em Ofir no Verão anterior) terá achado aquilo tudo muito estranho. Riu-se e disse que ficava à espera.
No dia seguinte lá estava eu, no sítio habitual. Não com um, mas dois beijinhos para lhe dar. 

Mais uma vez ela achou estranho que aqueles búzios ( que desconhecia) se chamassem beijinhos e quis saber onde eu os tinha arranjado.
Contei-lhe que havia uma praia, perto do Porto, onde se podiam apanhar muitos. Entre  desconfiada e curiosa, disse-me que queria ver. E assim foi. Na segunda feira, 1 de Agosto, de 1966 ela foi ter comigo ao Porto, pegámos nas motos e fomos à Praia dos Beijinhos. Para evitar algum azar levei alguns beijinhos de casa para o caso de  ser necessário recorrer a um estratagema de última hora. Não foi preciso. Por sorte encontrámos vários em pouco tempo. Estávamos os dois felizes.  Caminhávamos à beira mar quando a Petra W me apontou para uma barraca vazia. Foi aí, resguardados de olhares intrusos, que trocámos um longo beijo. Que selou a nossa amizade para sempre. Faz hoje 51 anos.