terça-feira, 18 de julho de 2017

Memórias em vinil (CLXXXVIII)

Boa noite com "Blood, Sweat and Tears"

Carta aberta a Assunção Cristas


 Senhora Dona Assunção:

Durante o último  fim de semana, sondagens revelaram que os portugueses não querem a demissão de Constança Urbano de Sousa, nem de Azeredo Lopes,que insistentemente reclama há um mês.
Durante um comício de promoção da sua candidatura a vereadora da câmara municipal de Lisboa, foi bem visível que a notícia a abalou e deixou atónita. Provavelmente, cara Assunção,  ainda não percebeu o que há de errado na sua estratégia de reclamar a cabeça da ministra. Decidi, por isso, dar-lhe uma ajuda.
Podia começar por lhe dizer que uma pessoa que apoia um candidato racista e xenófobo, com o argumento de que é fiel aos seus compromissos, não tem legitimidade para exigir a demissão de uma ministra. Não fora a distrital de Lisboa tê-la obrigado a retirar o apoio a André Ventura, contra sua vontade, e neste momento teríamos o CDS a apoiar um racista e a senhora a bater no peito clamando a fidelidade à coligação com o PSD. 
Podia também lembrar-lhe que o seu partido votou favoravelmente uma comissão de inquérito independente para apurar as responsabilidades do incêndio de Pedrógão por isso, é sua obrigação aceitar as regras da democracia e esperar pelos resultados do trabalho dessa comissão. 
Eu sei que lembrar-lhe as regras da democracia é uma tarefa tão inútil, como tentar  prender em casa uma gata com cio. Talvez seja por isso mais útil recordar-lhe que os portugueses têm muitos defeitos mas não são burros e nem sempre têm a memória curta.
É normal que se lembrem que a senhora foi ministra do ambiente e, perante uma seca, a medida política que anunciou ao país, foi "rezar a Nossa Senhora" para que chovesse.
Também não se esquecem que a senhora confessou ter assinado de cruz, durante as suas férias, um diploma enviado pela então sua colega de governo, Maria Luís Albuquerque, o que imediatamente a desqualifica para exercer um cargo ministerial. 
Também se lembram, muito bem, que a senhora defendeu sempre o ministro Relvas,  apoiou a TSU que motivou a maior manifestação de repúdio das últimas décadas em Portugal e não esquecem a sua actuação enquanto ministra. 
Há outras coisas que a maioria dos portugueses não sabe mas que a senhora, como ex-ministra do ambiente, tinha a obrigação de saber. Vou lembrar-lhe apenas uma:
- É um dado adquirido há muito, na comunidade científica mundial, que em determinadas zonas do globo ( entre as quais a Península Ibérica)  os incêndios, como as inundações,  cada vez mais resultarão de causas naturais imprevisíveis e incontroláveis, pelo que pedir a demissão de uma ministra por causa de um incêndio,  de uma inundação, ou outra qualquer catástrofe natural, como um terramoto, é pura e simples demagogia. Estou a ser brando porque, em boa verdade, penso que a sua exigência é fruto de má fé.
Não arrisco afirmar que essa má fé se deva ao facto de a senhora desconfiar tanto das mulheres, que não escolheu uma única para o seu núcleo duro. 

Estou no entanto tentado a dizer que a senhora  se sente mais confortável rodeada de homens,  quiçá por ter mais confiança nos conselhos que eles lhe podem dar ( como no caso de Loures, por exemplo).  Não quererá a senhora,certamente, repetir a experiência de ser vítima de uma punhalada feminina. Compreendo-a. Como diz o povo, " Gata escaldada de água fria tem medo".
 Constança Urbano de Sousa é uma  mulher com uma dignidade que a senhora tem sobejas razões para invejar. Espero, por isso, que feche a matraca e se centre na sua candidatura a Lisboa. Não é que tenha quaisquer hipóteses de ganhar, mas levar uma abada de Teresa Leal Coelho ficaria nos anais do anedotário político e remete-la-ia novamente à condição de figura de terceiro plano na vida política portuguesa. Pelo menos até que o Melo de Joane  venha ocupar o lugar que lhe cedeu enquanto não se cansar do brinquedo de Bruxelas.
Devo confessar que tenho uma grande esperança em divertir-me durante a sua campanha eleitoral. Estivesse eu no activo e iria acompanhá-la a par e passo.
As suas indumentárias  de frutas tropicais, a chamada ao palco dos pais, filhos e marido, durante os comícios, ou a sua presença em concertos pimba, serão momentos inesquecíveis, mas o que eu mais gostaria era  acompanhar as suas visitas a bairros sociais e às comunidades ciganas. 

 A sua campanha será uma viagem ao passado, com a vantagem de já não haver Salazar. E, para sua sorte, não haver Marcelo Caetano que, muito provavelmente, a teria aconselhado a aprender a cozinhar e coser meias, em vez de andar a estudar direito. A avaliar pela ignorância que a senhora demonstra em matéria jurídica, o velho títere dessa vez não se teria enganado na profecia.
Termino com uma mensagem de esperança.
Como escrevi acima, os portugueses não são burros. Nem mesmo aqueles que se propõem votar em si, se a senhora continuar a prometer-lhes o que eles querem ouvir:
- Mais carros em Lisboa;
- Acabar com o trânsito caótico;
-  Fim dos sem abrigo  e sua reinserção;
- Habitação para todos;
- Revitalização do arrendamento
- IMI 0% em determinadas situações
Estas são, para já, as promessas que me ficaram no ouvido. Suficientes para a propor para Prémio Nobel da Incoerência. Ou para sugerir a Marcelo Rebelo de Sousa que a condecore no 10 de Junho.
Muitos lisboetas  irão votar em si, apesar de não acreditarem numa única das suas promessas.
Eles ainda se lembram que foi a senhora que fez a última  Lei do Arrendamento, que não agradou   a proprietários e inquilinos.
Sabem que a promessa de IMI 0% é apenas mais uma demonstração da sua ignorância, porque seria inconstitucional.
Sabem, enfim,  que acabar com os sem abrigo é utopia, disciplinar o trânsito prometendo mais carros em Lisboa é demagogia, garantir habitação para todos é trafulhice.

Então porque votam em si?
Simples, minha cara senhora:
- Os lisboetas que votam em si esperam um favorzinho para um lugar de estacionamento especial, um desconto no IMI, uma casa barata para arrendar ou comprar ( há tantas habitações sociais de qualidade...) enfim, aquilo que eles sabem que os lisboetas não podem aspirar, mas que com uma cunhazita esperam almejar.
É que em matéria de cunhas, consta que a senhora sabe da poda.
Passe bem. 

Jane Austen







Faz hoje 200 anos que morreu Jane Austen.
Tinha apenas 41 anos, era pobre e a sua morte foi mais ou menos ignorada, mas deixou um vasto legado literário, cujo mérito tardou a ser reconhecido.
Dois séculos depois, Jane Austen é uma das escritoras mais admiradas no mundo ocidental, onde se realça o seu humor e a análise corrosiva dos costumes da época. 
Alguns dos seus livros chegaram aos cinemas em longas metragens  de grande sucesso ( Sensibilidade e Bom Senso ou Emma) e aos pequenos ecrãs em miniséries como Orgulho e Preconceito.
Dois séculos depois, a data da sua morte é assinalada com a reedição de vários dos seus livros e algumas cerimónias evocativas.