quarta-feira, 14 de junho de 2017

Memórias em vinil (CLIX)

Atendendo a que hoje é outra vez véspera de feriado e o calor continua, as boas noites chegam pela voz de Rod Stewart( Sailing)
Boa noite

Cristiano Ronaldo e os Santos Populares




Não sei bem o que  é isso dos santos populares. Arrisco mesmo  lançar dúvidas sobre a justeza da designação, ao constatar que há santos que têm milhões de devotos mas são pouco populares ( S. Judas Tadeu, por exemplo) enquanto S. Pedro- embora continue a se popular-  tem descido abruptamente no ranking da popularidade festivaleira, como o comprova a redução do consumo de sardinhas, música pimba e foliões na noite que o consagra.
De uma coisa, no entanto, não tenho dúvidas: Cristiano Ronaldo arrisca-se a entrar, em breve. para a galeria dos santos populares. 
Estátua já tem e estatuto de santo padroeiro da selecção portuguesa também, embora seja justo reconhecer que se há alguém a merecer esse galardão, é o Éder que jogou pouco mais de meia hora durante todo o campeonato da Europa, mas foi o suficiente para trazer o título de campeão europeu para Portugal. E como nisto de santidades a justiça é particularmente injusta, o Éder  não é sequer convocado para a selecção e o Francisco,  que sempre disse nunca ter visto Nossa Senhora até ao dia em que Lúcila lhe prometeu um enxerto de porrada  se continuasse a negar a visão, foi santificado enquanto Lúcia, a mentora, nem sequer  a beata chegou.
Voltando a CR 7, palpita-me que estará em vias de ser aclamado santo pela comunicação social. Porquê? Porque em semana de múltiplos feriados, onde os dias de trabalho são como os pisca-pisca e ninguém quer saber de notícias, CR 7 fez o milagre de vender um inusitado número de jornais, porque se tornou duplamente notícia em dia de tédio.
Em primeiro lugar, porque a imprensa desportiva garante que há clubes interessados em resgatá-lo ao Real Madrid,  pagando verbas superiores a 200 milhões de euros. Alguns afirmam mesmo que CR 7 sairá do Real Madrid se Florentino Perez não lhe melhorar o contrato. Claro que  os jornalistas sabem que a possiblidade de o madeirense bater com a porta  é mentira, porque a cláusula de rescisão é de 1000 milhões de euros, mas lá vão alimentando a novela.
Em dia de Santo António, CR 7 voltou a ser  notícia porque o jornal espanhol El  Mundo divulgou que  irá ser acusado pelo MP espanhol de fuga ao fisco, num montante próximo dos 15 milhões de euros.
A comunicação social portuguesa mudou o tempo do verbo de futuro condicional para indicativo presente, "convocou" especialistas em desporto e em leis para analisarem o caso e darem a sentença antes de os tribunais espanhóis se pronunciarem, fez manchetes, abriu telejornais e entrou na disputa do concurso " O mais criativo da imprensa tuga sou eu".
E assim CR 7 "foi condenado" pela CS tuga a penas de prisão que variam entre os 7 e os 14 anos e ao pagamento de multas entre os 2 e os 28 milhões de euros.
Todos sabem que estão a escrever mentiras mas, nos dias de hoje, o jornalismo deixou de se preocupar com a verdade. O importante é especular de forma  a vender jornais, receber muitos cliques ou aumentar as audiências. Ora, neste caso, as duas notícias sobre CR 7 foram um enorme filão que justifica plenamente a sua candidatura a santo popular, promovida pela comunicação social tuga.

A evolução da lingua portuguesa

Ainda sou do tempo em que se reagia à asneirada de um condutor perguntando:
- Saiu-te a carta no bolo rei?
Mais tarde, quando algumas marcas começaram a dar brindes surpresa nas embalagens, a pergunta passou a ser:
- Saiu-te a carta num pacote da Farinha Amparo?
Ontem, estava na esplanada quando uma travagem brusca e um chiar de pneus me desviou das páginas do livro que estava a ler.
Bem audível foi também  a indignação do condutor da viatura obrigada a fazer a travagem, pela inabilidade de outro:
- Saiu-te a carta no Preço Certo?
Moral da história:
A lingua portuguesa continua a evoluir ao ritmo das audiências televisivas