quarta-feira, 31 de maio de 2017

Memórias em vinil (CXLVII)

Hoje sinto-me assim.
Será porque dentro de minutos entramos em Junho e começa a cheirar a férias?
Boa noite!

As duas mulheres de Trump e a fábula da raposa e do corvo

O aviso de Merkel de que a Europa já não pode confiar no aliado EUA  peca por tardio. Desde que Bush pai chegou à Casa Branca, era previsível um afastamento entre Europa e EUA.
A primeira grande  prova dessa evidência, curiosamente, foi dada no Rio de Janeiro em 1992, durante a Cimeira da Terra. Foi aí que se tornou evidente o desinteresse dos EUA numa política ambiental comum. 
A eleição de Clinton e, principalmente de Obama, mascarou as divergências estratégicas que Bush filho acentuara, nomeadamente aquando da invasão do Iraque. Nem o papel vergonhoso desempenhado por Blair, Barroso e Aznar durante a cimeira dos Açores serviu de alerta aos lideres europeus sobre o caminho para a irrelevância que a Europa estava a trilhar. Bem pelo contrário,  O mestre de cerimónias Barroso foi recompensado com o cargo de presidente da comissão europeia ( mais uma cedência dos lideres europeus a uma  discreta imposição americana).
Fazendo constantemente como a avestruz, a Europa deixou as coisas correr. Alemanha e França continuaram a seguir a sua estratégia de domínio da Europa, sem dar grande importância aos sinais que vinham da terra de Tio Sam, 
O facto de Obama ter sido eleito em plena crise económica e financeira global, esbateu os sinais de uma tempestade que se adivinhava. Enquanto as economias do sul da Europa esbracejavam para evitar o naufrágio, Merkel incarnava o Tio Patinhas e acumulava riqueza e poder, perante a passividade de Sarkozy e Hollande, cujo único desejo era evitar incómodos a Paris.
A opção dos ingleses pelo  Brexit no Verão passado e a eleição de Trump para a Casa Branca no Outono, criaram as condições ideais para o divórcio dos EUA com a Europa.
Trump e Theresa May têm muitos mais objectivos comuns, do que qualquer deles com a Europa e circunstâncias históricas determinam que Londres e Washington se aliem contra a Europa. O Brexit caiu como sopa no mel na estratégia de Trump  e a eleição de Trump foi um presente  no regaço de Theresa May. Juntos pressionarão a Europa e tentarão que ela se desagregue, abrindo inclusivé caminho ao aventureirismo de Putin.
Um arreganhar de dentes de Moscovo seria certamente bem recebido em Londres, mas particularmente em Washington. Trump cobraria elevadíssimo preço para vir em socorro da Europa e Theresa May não teria de se preocupar com as exigências da UE para concretizar o Brexit.
Merkel percebeu tarde  o que se estava  a passar ( duvido que Sarkozy ou Hollande algum dia tenham sequer equacionado este cenário)  e só quando Trump  criticou abertamente a Alemanha, acusou Berlim de ser caloteiro e  ameaçou restringir drasticamente as importações de produtos germânicos é que Merkel reagiu.
Tarde piaste, chancelerina. 
Era previsível que os Monopoly Games da globalização acabariam com um vencedor mas, reconheço, que não pensava ser este, porque  nunca acreditei na concretização do Brexit. Já que um tipo como Trump pudesse um dia chegar à Casa Branca, sempre esteve no centro dos meus temores.
O final deste imbróglio ( só possível porque os lideres europeus se comportaram como a cigarra  e foram tão incautos como o corvo da fábula) é imprevisível.
Nas histórias de Walt Disney, nunca saberemos se o Tio Patinhas  perde a sua fortuna, ou  como se desenvencilhará se cair na pobreza, mas nestes Monopoly Games da globalização, embora ainda seja cedo para adivinhar o vencedor, é muito provável que o Tio Patinhas berlinense vá passar um mau bocado e arraste na queda os parceiros europeus
O mais lamentável é que tudo poderia ter sido diferente se os lideres europeus não tivessem assistido, indiferentes, ao declínio da Europa, enquanto contavam os tostões.

Em minha casa mando eu? Não é bem assim...

Dois deputados do PS apresentaram um projecto de lei que prevê a exigência da concordância dos condóminos para que alguém possa arrendar a sua habitação a turistas.
A proposta, apresentada à revelia da secretária de estado do turismo, está condenada ao fracasso mas, contrariando o pensamento dominante, creio que  merece mais do que uma rejeição liminar.
Em primeiro lugar o argumento de que " em minha casa mando eu e os condóminos não têm nada com isso" é um argumento pífio.
Creio valer a pena lembrar que os proprietários de fracções de um condomínio têm deveres de cohabitação, nomeadamente nas áreas comuns, que não podem enjeitar. 
Se a Lei do Condomínio fosse respeitada, a esmagadora maioria dos cães a viver em apartamentos seriam retirados aos donos. Mas, mesmo no caso em que os animais estão legalizados e respeitam todas as regras, é oportuno lembrar que isso não elimina o dever dos proprietários limparem o cocó  dos seus Bobis nas partes comuns e serem responsabilizados por quaisquer danos provocados pelos bichanos nas partes comuns.
Os proprietários de fracções de um condomínio também têm de respeitar as leis gerais, nomeadamente a Lei do Ruído o que os impede, por exemplo, de fazer bricolage às 8 da manhã, ou a partir das 10 da noite, ouvir música ou ver televisão em altos berros noite dentro. 
Depois há a considerar as leis consuetudinárias da vida comunitária, que o senso comum regula, como por exemplo, limpar o  vomitado  nas partes comuns, resultantes de uma bebedeira.
Dito isto, devo dizer que não foram raras as vezes em que constatei comportamentos aberrantes que transformam a vida dos condóminos num inferno.
Ainda há dias, em casa de uma amiga  do Porto que vive num condomínio em S. João do Estoril, uns turistas decidiram tomar banho na piscina às duas da manhã. Para isso saltaram a vedação ( a piscina fecha às 19)  e fizeram uma algazarra que deixou os condóminos em alvoroço.
Em tempos mais recuados, quando andava a procurar uma casa aqui no Estoril, fui visitar um apartamento arrendado através do Airbnb, cujo proprietário pretendia arrendar a longo prazo. Eram 4 da tarde e  na rua era perceptível que naquele prédio havia um "bacanal". 
Quando entrei dei de caras com um casino, onde não faltavam bebidas, tabaco e...prostitutas. 
Conheço também casos de inquilinos que subarrendam casas que não lhes pertencem através do Airbnb.
É com base em situações destas que encaro, de bom grado, a necessidade de regulamentar o Alojamento Local.
Exigir a concordância dos condóminos não será a melhor solução, mas o argumento dos proprietários de que dentro de suas casas mandam eles, é inaceitável. 
Dizer que os condóminos podem chamar a polícia quando os turistas se portam mal é o mesmo que dizer a uma vítima de violência doméstica que resolva o problema apresentando queixa na polícia.
Não dou o assunto por encerrado, pelo que voltarei a escrever sobre este tema quando houver desenvolvimentos que o justifiquem.