quarta-feira, 24 de maio de 2017

Memórias em vinil (CXLI)

Só quando fui para os EUA conheci esta banda familiar que à época tinha enorme sucesso.
Não terão tido idêntico sucesso em Portuga, mas decidi incluí-los nestas memórias, porque a coreografia deste "Neither One of us (wants to be the first to say goodbye)" é divertidíssima e imperdível.
Gladyys Knight é considerada nos EUA uma das mais emblemáticas vozes do soul. Teve uma carreira a solo com grande destaque e teve entusiasmantes duetos com BB KING ou Etta James. Mas é uma interpretação a solo, no Chile, que vos deixo esta noite.  (...) Try to remember
Boa noite!

Vem aí o fim do mundo!



Depois de ter criticado de forma vil e soez o governo de António Costa, acusando-o de estar a desbaratar o bom trabalho feito pelo governo Passos/Portas;
Depois de ter garantido que Portugal não escaparia a um novo resgate;
Depois de ter mandado o holandês presidente do Eurogrupo afirmar numa entrevista a um jornal alemão que os portugueses são uns malandros que  gastam o dinheiro todo em p.... e vinho.
Depois de tudo isto, o ignominioso fascista  Schaueble,  ministro das finanças do país dos "milagres económicos" foi ao ECOFIN e comparou Mário Centeno a Cristiano Ronaldo
Ver  um alemão arrogante e fascista dar o braço a torcer e admitir que um reles tuga afinal tinha razão, é caso para temer que venha aí o fim do mundo. Tivesse esta comparação  sido feita no dia 13 de Maio e toda a gente teria falado em milagre. Proferida hoje, o significado é diferente e tem dois destinatários. A nível interno é uma mensagem aos eleitores alemães. 
" Não vale a pena bater mais no governo português, porque os tipos são teimosos, têm fibra e, o pior de tudo é que tinham razão. Afinal havia mesmo alternativa. Será que o Centeno descobriu a fórmula da poção mágica dos irredutíveis gauleses e a aplicou às finanças?"
A nível externo foi um recado a Passos Coelho e Marilú:
" Lamento, mas não contem mais com o meu colinho. Perante as evidências, a única coisa que vos posso dizer é que mudem de táctica e reconheçam que o Centeno é um grande ministro das finanças".

A globalização do medo

Pintura de Ljuba Adanja (2002)


 Será o século XXI o século do medo?  Poderá estar o medo a ser utilizado para nos restringirem a liberdade, diminuir os direitos?  Será o medo capaz de  transformar  as democracias tradicionais em sociedades esclavagistas legitimadas pelo voto popular?
Uma retrospectiva dos 12 primeiros anos deste século justifica todas as interrogações.
Tudo começou em 2001 com o ataque às Torres Gémeas. Desde esse dia Bush bramiu  o papão do terrorismo e aumentaram as medidas securitárias.
 Viajar de avião passou a ser um tormento porque os aeroportos,  além de nos reterem muito para lá do que seria normal  numa época em que todos andam obcecados  com o tempo, se transformaram em  espiões dos nossos corpos e dos nossos passos.
Em terra, a Al Qaeda  passou  a estar  presente em toda a parte, qualquer sítio poderia ser alvo  dos atentados suicidas dos homens de Bin Laden. Os atentados de 11 de Março em Madrid e 7 de Julho em Londres fizeram com que o medo alastrasse e, quando parecia que as coisas poderiam acalmar, uma ameaça de pandemia  provocada por um vírus da gripe encontrado no México, deixou os cidadãos de todo o mundo em pânico.
 A gripe  A não fez mais vítimas do que uma gripe normal, mas venderam-se  milhões de  vacinas. Os beneficiários dessa  histeria colectiva, foram os laboratórios. Os cidadãos encontraram mais um motivo para o pânico nesta sociedade higienista que, curiosamente, é uma das mais letais da História.
Bin Laden, o inimigo número 1, apesar de não ser visto em público,  tinha um rosto. O vírus da gripe A não, mas era reproduzido na imprensa e nas televisões em fotogramas acompanhados de complicados esquemas analisados por especialistas, que explicavam a forma de reprodução do inimigo.
Desde 2007 – e mais acentuadamente desde 2009- um novo inimigo começou a ameaçar  o mundo, particularmente a parte ocidental do hemisfério Norte. Ninguém lhe viu o rosto, não há especialistas nas televisões  a explicarem com esquemas complicados como ele ataca, mas sabemos o seu nome: MERCADOS .
 A utilização do plural   indicia que, desta vez, o mundo está a ser atacado por um inimigo invisível que se reproduz com grande facilidade, podendo  as suas células mãe ser localizadas em Wall Street, na City, quiçá em Singapura, e as ramificações em paraísos fiscais que dão pelo nome de off-shores.  Sabido é que o vírus dos mercados ataca nas Bolsas e nos negócios ilícitos,24 horas por dia, mas ninguém o consegue apanhar. Ou melhor: não sabemos, ainda, se alguém estará interessado em apanhá-lo!
Os especialistas  da área económica e financeira desdobram-se em análises complexas, a maioria diz que a melhor forma de o extirpar é dar-lhe vitaminas de crescimento, mas a direita  não está  para aí virada e contrapõe com vitaminas de austeridade, cuja aplicação massiva definha as vítimas. Quanto aos mercados, estão cada vez mais gordos, mas ninguém parece interessado em obrigá-los a uma cura de emagrecimento.

O medo provocado por esse ser misógeno que é a crise, criada pelos mercados em reputados laboratórios financeiros, começou a ser retratado no cinema.  O primeiro filme – que acabou de estrear em Lisboa- tem por título “Procurem Abrigo”  e analisa a crise financeira a partir da visão de um paranóico. Em Cannes, Brad Pitt acaba de apresentar outro filme que aborda a mesma temática. Sob a capa de filme de gangsters, “ Killing them softly” é, ao que dizem os críticos, uma parábola sobre a crise e a incapacidade de defesa perante um criminoso que ataca à distância.
Se não for através da política e da acção cívica, que seja ao menos através do cinema que os cidadãos se consciencializem que podem fazer algo para combater o inimigo sem rosto que nos prometeu uma globalização capaz de tornar o mundo mais justo, mas nos deu apenas o aumento da miséria e das desigualdades. Porque nós deixámos que assim fosse!
Já não há tempo para termos medo! A hora é de agir.

Texto publicado a 24 de Maio de 2012
( Desde então,  os ataques terroristas multiplicaram-se: Só para falar na Europa, recordo Paris (Charlie Hebdo e Bataclan), Nice, Berlim, Istambul, Londres ou mais recentemente Manchester. O medo tornou-se mais global e mais presente nas nossas vidas. Uma boa razão para o recordar 5 anos depois )