segunda-feira, 8 de maio de 2017

Memórias em vinil (CXXVII)

Realiza-se esta semana o Festival Eurovisão da Canção.
Por estas Memórias já passaram alguns sucessos de Festivais mas,  até sexta feira,  irei trazer diariamente uma canção vencedora do nosso Festival e uma canção ( vencedora ou não) do Euro Festival.
Neste primeiro dia deixo-vos com  Simone


E os Abba, um dos melhores ( e raros ) exemplos de um grupo que se impôs internacionalmente graças ao Eurofestival, que venceu em 1974 com esta canção.


A mala de cartão



Ao constatar que muitos emigrantes portugueses integram as listas de Marine Le Pen nas eleições regionais e que muitos mais  esperavam,com fervor, vê-la no Eliseu, poderemos ser impelidos a dizer que os emigrantes portugueses em França são o rosto de Le Pen: toscos, ignorantes e simplórios. Tudo isso pode ser verdade, mas a conclusão peca por precipitada. 
As razões por que os emigrantes portugueses votam normalmente à direita e não escondem a sua admiração pelo Estado Novo e Salazar ( que curiosamente obrigou os pais deles, ou os próprios, a abandonar Portugal em busca de uma vida melhor)  nada têm a ver com questões de corrupção dos políticos, por não acreditarem nas promessas que eles  fazem, ou  por desinteresse cívico. 
As razões para o voto (e  o apreço ) num partido como a FN - que a maioria rejeita rotular de fascista-  radicam na inveja, no egoísmo ( não querem mais emigrantes porque temem a concorrência) na xenofobia ( um emigrante dizia perante as câmaras de televisão que não era contra mais emigrantes... desde que sejam brancos!)  e, muito especialmente, na eterna crença do desenrascanço. "Eu cá hei-de safar-me, o importante é que ela ( Le Pen) não deixe vir para cá mais ninguém ( a não ser os meus familiares)".
E como Le Pen almoça quase diariamente numa tasca portuguesa, o emigrante tuga acredita genuinamente que ela é simpática e gosta muito dos portugueses.

Et maintenant?



Os democratas respiraram de alívio. Macron  ganhou folgadamente a segunda volta das presidenciais francesas, afastando o fantasma de uma vitória da extrema direita. E agora?
Bem, agora...há razões para festejar, mas não para respirar fundo e dizer que passou o perigo. Bem pelo contrário. Senão, vejamos...
Em 2012 Marine Le Pen teve cerca de 6 milhões de votos. Na primeira volta das presidenciais de 2017 obteve 7,5 milhões e ontem quase chegou aos 11 milhões. Ou seja, em apenas cinco anos Le Pen quase duplicou a sua votação. Isso não pode deixar ninguém descansado, até porque Macron foi visto pela maioria dos que nele votaram, apenas como o mal menor. 
Serão por isso, de extrema importância para o futuro de Macron, mas também de França e da União Europeia, as eleições legislativas do próximo mês de Junho. Só então se saberá se Macron sairá reforçado, ou condicionado pelas alianças pós eleitorais que terá de fazer. 
 Independentemente dos resultados das legislativas, sabemos que Macron não é, claramente, o presidente capaz de resolver os problemas criados pela globalização, especialmente a marginalização de milhares de trabalhadores vítimas da deslocalização das empresas. É nessa franja do eleitorado que Marine Le Pen angaria a grande maioria dos votos e, como é sabido, essa franja está em crescimento acelerado, porque os partidos do sistema não encontraram solução para resolver o problema do desemprego, nem suster as consequências daí decorrentes.
Macron também não parece ser capaz de tomar medidas que esbatam as desigualdades sociais. Pelo contrário. Tudo indica que a contestação nas ruas vai aumentar, porque a legislação laborar e a redução da carga fiscal sobre as grandes empresas podem ser  o rastilho para incendiar as ruas.
É ainda bom lembrar que na primeira volta mais de 40% dos franceses votaram contra a União Europeia e que esse número tende a aumentar se Macron não conseguir ( ou não quiser) um entendimento com  Merkel que permita relançar a Europa com base nos padrões que presidiram à União.
Tampouco se afigura provável a possibilidade de Macron conseguir acabar com o terrorismo. A  tentativa de islamização da França vai prosseguir, o terrorismo provocará mais vítimas e, cada atentado, representa mais dezenas de milhares de votos em Le Pen.
Face a este panorama - que até pode ser pintado com cores bem mais negras- é muito provável que nos próximos 5 anos o ovo da serpente continue a desenvolver-se e Marine Le Pen tenha a sua oportunidade de ouro em 2022. Isto, claro, se Macron- incapaz de criar uma aliança estável que lhe permita governar-não convocar eleições antecipadas.