quinta-feira, 20 de abril de 2017

Memórias em vinil ( CXII)


Claro que o Zeca não podia faltar neste evento...

Tens um lugar para mim na tua cama?



Ainda sou do tempo  em que as pessoas se horrorizavam (justamente) com o sistema da “cama quente” praticado com naturalidade na China. Para quem não saiba, a “cama quente” era assim designada porque nela se deitavam, por turnos, dois ou três trabalhadores diariamente. Não tendo dinheiro para pagar o aluguer de uma cama, acordavam dividi-la com um ou dois outros trabalhadores.
Este era apenas um dos casos  apontados  como exemplo do miserabilismo dos regimes comunistas. Vi muitas consciências ocidentais atormentadas com esta prática. Particularmente tugas em Macau, que ocupavam lugares subalternos  na administração pública em Portugal, mas ao fim de poucos meses de estadia no Território, se pavoneavam em carros pretos do governo conduzidos por chineses às vezes com mais habilitações que os pialsróprios.
Não sabiam os tugas, nem muitos ocidentais escandalizados que a “cama quente” ( como outras situações que abordarei noutro dia) era uma prática corrente na Inglaterra da senhora Thatcher e continua a praticar-se em vários outros países, incluindo Portugal.
Nos últimos anos, sob o nome de “economia de partilha”,  tornaram-se florescentes práticas  “inovadoras” anteriormente apontadas como  exemplos de miséria.
No sector da habitação tudo terá começado com o “short renting” e  a partilha de  casa, hoje tornada prática usual, para bem do turismo e das contas bancárias dos senhorios, mas para desgraça da vida nas cidades. Não me refiro, obviamente, ao aluguer de quartos a que alguns proprietários recorrem para completar a parca reforma e  inquilinos usam para  pagar a renda. Essa prática é ancestral, mas hoje em dia não é exclusivo de estudantes ou trabalhadores deslocados.
Na verdade, tornou-se prática corrente alugar quartos em vez de casas, o que permite aos senhorios obter um maior rendimento.
Mais recente é a prática de alugar camas, em vez de quartos. O preço de aluguer de uma cama, em Lisboa, atinge já os 275€/mês. Ora, a partir daqui, as contas são muito fáceis de fazer:s
Um senhorio tem um T4 para arrendar. Na melhor das hipóteses conseguiria arrendá-lo por 2000€/mês mas, se em cada quarto colocar 6 camas ( belichs) 250€, consegue um rendimento de 4 mil e quinhentos  euros mensais  ( o I RELATA CASOS DE QUARTOS COM 8 CAMAS) livres de impostos, porque não passa recibos.
Chamam a isto “ arrendamento partilhado”. Muito moderno. Eu dou-lhe outro nome que não reproduzo. Limito-me a reconhecer que, face à inabilidade de sucessivos governos para fazer uma lei de arrendamento em que   os senhorios deixem de ser “agentes” da segurança social e os inquilinos vítimas de exploração desenfreada, os senhorios  descobriram uma mina de ouro e algumas start ups uma forma de enriquecer à custa dos senhorios.

Face à evolução contínua desta maravilhosa economia de partilha, sou levado a pensar que, não tarda nada, a prática da “cama quente” expandir-se-á inexoravelmente em Portugal. E, já agora, porque não alugar camas à hora, como nos bordéis disfarçados de pensões casas de massagens? Desde que tenha como base o sistema capitalista, onde impera a lei do mais forte e o chico espertismo, ninguém verá problema. Nos países comunistas  essa prática é inadmissível e degradante, porque avilta a condição humana. No neo liberalismo selvagem, dizem que é o mercado a funcionar. Por isso, também não é de desdenhar a hipótese de um novo governo Pafioso vir a  legalizar o arrendamento de contentores e, porque não, a ser um dos primeiros promotores dessa prática.

Overbooking

Umas cenas passadas na "América" e a comunicação social tuga, embasbacada, desatou a falar e escrever sobre overbooking.
Há 20 anos que há legislação nesta matéria, mas a comunicação social trata o assunto como se tivesse acabado de fazer uma grande descoberta.
Como (quase) sempre acontece quando a imprensa segue a moda "Maria Vai Com as Outras", tenho lido por aí muita asneira.
Para que não restem dúvidas e não haja por aí quem pense que pode ser "expulso" de um voo por dá cá aquela palha, fui recuperar excertos de um texto que escrevi sobre o assunto, quando a mais recente legislação foi aprovada.

No caso de chegar a um aeroporto e a companhia lhe disser que não pode embarcar porque o voo está em overbooking ( leia-se: a empresa vendeu mais bilhetes do que os lugares disponíveis) exija que os seus direitos sejam respeitados.
 As transportadoras aéreas são obrigadas a:
- Encontrar voluntários dispostos a desistir das suas reservas em troca de certos benefícios (por exemplo, milhas aéreas, títulos de viagem, dinheiro,direito a bilhetes extra ou a lugares em classe superior noutros voos);
- Oferecer  a opção entre um reembolso total da reserva anterior ou um reencaminhamento;
Durante o tempo de espera terá direito à assistência prevista para os casos de atrasos; 
-No caso de a companhia não encontrar um voluntário que ceda o lugar  e  não puder embarcar terá direito a:
- Voo alternativo ou reembolso do preço total do bilhete;
- Indemnização;
- Assistência em terra durante o período em que aguarda o próximo voo ( refeições, alojamento, etc)