quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Memórias em vinil (48)



Há dias uma leitora perguntou-me se eu não tenho discos de música brasileira para recordar.
Tenho muitos até, mas todos LP's e, como ainda estou na fase dos 45rpm, as grandes canções brasileiras têm de esperar.
Decidi no entanto abrir uma excepção para satisfazer a Sandra, uma das  primeiras leitoras do CR,  que se mantém fiel a este espaço.
Assim- e porque sei que ela gosta da Maria Bethania, hoje trago uma das canções que me provoca mais pele de galinha.
Espero que goste, Sandra

Para evitar mal entendidos


Na sequência do post de ontem sobre  Inteligência Artificial- para que não haja mal entendidos- esclareço os leitores do CR do seguinte:
Não tenho nada contra aqueles que desenham o/a parceiro/a dos seus sonhos, imprimem-no em 3D e depois ficam à espera de uma lei que legalize o casamento.
O que verdadeiramente me encanita na Inteligência Artificial (IA) é o aumento das desigualdades. Quem tem jeito para desenho fica sempre com os melhores exemplares, enquanto verdadeiros nabos nessa nobre arte, como eu, não têm quaisquer hipóteses de arranjar uma parceira decente.
Eu bem sei que nos prometem, para breve, a possibilidade de ir ao hipermercado comprar um kit com a mulher/homem ideal para nos fazer companhia para o resto da vida, sem nos termos de chatear muito e a possibilidade, nada desprezível, de podermos trocar no prazo de 14 dias úteis. Mais uma vez. porém, a escolha do/a parceiro/a fica condicionada ao poder de compra, pelo que os mais desfavorecidos ficam com os kits sujeitos a doenças ( ferrugem, p.ex), malformações   e outras anomalias de fabrico.
Presumo que haja sempre a possibilidade de comprar um kit androide em saldos, mas ninguém está à espera de poder comprar em saldos uma Angelina Jolie   com 18 anos. O mais provável é que na altura de chegar aos saldos, a preços módicos, já venha sem metade das peças.
A IA irá também favorecer a ascensão social dos desenhadores, já que será possível a qualquer um pedir a um desenhador um modelo à nossa medida (morena, cabelo azeviche, olho verde e medidas 86-60-86.por exemplo) mas corre-se sempre um risco: e se o desenhador se apaixona pelo produto que criou, como é? Pode haver réplicas infindáveis de um modelo? E quem quiser um modelo exclusivo?
São tudo coisas que me apoquentam mas, felizmente, dizem os especialistas, a legalização do casamento entre humanos e andróides  só irá acontecer por volta de 2050. Até lá, porém, talvez não fosse má ideia pensar um pouco sobre o assunto.

O lado B da eleição de Trump



É um dado adquirido que a eleição de Trump representa um perigo para o mundo.
A verdade, porém, é que desde sempre olhei para os EUA como um perigo para o mundo e a subserviência com que a Europa assimilava todos os tiques americanos deixava-me em fúria.
Recebemos Mc Donalds e toda a parafernália de fast food, com admiração  parola.  Consumimos  overdoses de  filmes e  séries de  televisão americanas e permitimos que elas se enraizassem de tal forma nos nossos hábitos de vida que,não raras vezes,  nos confundimos com as suas personagens. Tornámos as nossas vidas um "reality  show". 
Deixámos que a indústria cinematográfica europeia fosse colonizada pelo "american way of life", Que a indústria musical europeia fosse submergida pela sonoridade americana. Que os valores e a cultura europeias fossem  sublimados  pelos padrões americanos. Perdemos identidade europeia. A pretexto da globalização deixámos de questionar  a colonização americana e tornámo-nos americanos de segunda.  Cópias baratas de um  " american way of life" assente na máxima "mais vale parecê-lo do que sê-lo". 
Quando Donald Trump proclama " America First" sinto algum alívio. Sempre fui contra  o TIPP ( Acordo de Parceria Transatlântica que seria ruinoso para a Europa, mas que Berlim e Paris defendem, porque é do seu interesse nacional.) Se Donald Trump o quiser enterrar, ÓPTIMO!
Quando Trump põe em causa a NATO, penso que será uma boa oportunidade para a Europa repensar a sua política de defesa e terminar com a dependência dos EUA.
Quando Trump critica a Europa e vaticina o seu desmembramento agradeço-lhe, porque tenho esperança que a Europa se una  na defesa do interesse comum. E, se isso acontecer, as desigualdades entre os membros da UE podem atenuar-se bastante.
Quando Trump defende o proteccionismo e manifesta a sua arrogância em relação aos valores europeus, vislumbro a oportunidade de a Europa recuperar a sua identidade. 
Quiçá num assomo de optimismo exacerbado, vejo  a Europa a ser novamente protagonista e a recuperar o papel que já teve no mundo. Vejo, enfim, a Europa libertar-se do colonialismo americano.
Lamento é que, muito provavelmente, não passe de um devaneio.