terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Memórias em vinil (47)


Quase aposto que poucos se lembrarão do nome de Eric Carmen.
Se vos disser que foi um dos fundadores dos Raspberries, uma banda que há-de passar por aqui, talvez em alguns se acenda uma luzinha.
Mas se acrescentar que  se trata do criador  de sucessos  como "All By Myself", um super sucesso que em 1976  chegou ao 2º lugar  do Billboard ou "Never Gonna Fall in Love Again"  que atingiu o 10º lugar nesse mesmo ano, já muitos de vós começam a trautear estas canções.
Para esta noite deixo-vos apenas a primeira, porque em relação à segunda é uma promessa sempre arriscada.

Nem bons ventos...

Dizia-se , noutros tempos, que "De Espanha, nem bons ventos, nem bons casamentos".
Nas últimas décadas, o adágio caiu em desuso, mas parece que terá chegado o momento de o relembrar.
Pelo menos a pretexto de voltar a falar de Almaraz.
Há por aí muita gente a desvalorizar os efeitos em Portugal de um acidente na central espanhola.
Para os que dizem que os efeitos apenas se sentiriam nas zonas fronteiriças, vale a pena lembrar que um relatório do Laboratório de Protecção e Segurança Radiológica, divulgado em Março de 2016, revelou que amostras de carne recolhidas em 2014 na ilha do Pico apresentaram vestígios de césio, duas vezes superior ao normal. Causas?  O acidente nuclear ocorrido  em Fukushima ( Japão) em 2011, gerou uma nuvem radioactiva que atravessou o Atlântico que depositou radiações nos Açores.
por outro lado, o LPSR revelou  que a  central de Almaraz provoca um aumento de isótopos radioactivos no rio Tejo.
Não são apontadas as causas, não sendo por isso possível afirmar que estejam relacionadas  com os múltiplos incidentes verificados em Almaraz. É no entanto possível  adiantar que há um " repetido incumprimento consciente e voluntário das normas de segurança contra incêndios".  Entre a violação das normas, destaca-se o desrespeito pela proibição de fumar. Com efeito- revela a Visão-  em maio passado, os inspectores encontraram trinta beatas,o que significa que se fuma no interior da central.
Continuam descansados? Óptimo.

Inteligência Artificial? Ôba, ôba, que legal!




Aviso prévio: Este post é bastante longo, mas gostava muito que o lessem e comentassem. O assunto é muito sério.

Todas as semanas leio notícias sobre empresas que estão a despedir funcionários e a substituí-los por robôs. Os japoneses seguem na liderança desta mudança estrutural no mundo do trabalho e  na organização das sociedades
Que a Inteligência Artificial ia mudar o mundo e deixar as  pessoas sem emprego, já eu sabia desde pequenino. Quem o dizia, transparecendo muita preocupação e com muita firmeza era a minha Avó, apaixonada por Charlie Chaplin e pelos "Tempos Modernos".
Pelo menos era o que a minha Mãe contava, pois eu não conheci a minha Avó. Eu ouvia a minha Mãe atentamente e perguntava-lhe se isso era assim tão mau, para a minha Avó ficar preocupada com a possibilidade de as máquinas fazerem o trabalho dos homens. E, invariavelmente, dava como exemplo as vindimas. Então não era bom que os homens vergados  ao peso daqueles cestos cheios de uvas que carregavam às costas fossem substituídos por máquinas?
Também invariavelmente, a minha Mãe olhava para mim com cara de quem está a pensar "este miúdo não cresce", fazia-me uma festa na cabeça e ia à vida, deixando-me sem resposta.
 Quanto a mim, começava a divagar por um mundo onde as máquinas obedeciam às minhas ordens. Fascinava-me, por exemplo,  a ideia de  poder dar ordens a uma máquina para me trazer o pequeno almoço à cama. Coisa de miúdo, obviamente, porque detesto tomar o pequeno almoço na cama. 
Claro que me preocupava a ideia de o meu pai ficar sem trabalho, porque se ele não tivesse emprego, quem me comprava os carrinhos da Dinky Toys?  Mas, na verdade, desejava que em sendo adulto o mundo já estivesse equipado com robôs em número suficiente para  me substituírem nas tarefas laborais, deixando-me tempo para  poder viajar pelo mundo.
(Naquela idade ainda pensava que para viajar não era preciso ter dinheiro. Bastava meter-me ao caminho e deixar as coisas acontecer. Já adolescente, a caminhar para  adulto, saí de Espanha com 5 amigos e 500 pesetas no bolso. Andámos 4 ou 5 meses pela Europa e Norte de África, numa carrinha pão de forma e descobri que  não andava muito longe da verdade. Bastava que a sociedade se organizasse como nós nos organizámos durante a viagem. Tinha aprendido nesse ano, com António Sérgio, as virtudes da cooperação. E tornei-me um cooperativista convicto e praticante. Até perceber que a engrenagem triturava as boas ideias e  que o "Elogio da Preguiça", última esperança numa vida de ócio, era uma quimera. Mas adiante...)
Bem, voltemos então ao que pretendia comunicar com este post. Que aliás é muito simples e se resume em poucas palavras: 
Nunca imaginei viver num tempo em que as pessoas  casassem com máquinas!

A verdade, porém, é que já vivemos nesse tempo. Descobri  quando li o artigo da  Clara Soares na Visão.
Eu já tinha percebido há tempos ( depois de ler um estudo muito bem feito sobre a geração dos "millenials") que os homens estão a perder interesse em sexo, mas daí a passar-me pela cabeça que há pessoas que desenham o seu parceiro/a ideal, imprimem-no/a em 3D e ficam à espera de legislação que legalize a sua união com "a coisa",  nem em sonhos! Há uns anos, um livro de David Levy, perito em IA, fez-me esboçar alguns sorrisos, nada mais.
No entanto, os especialistas em Inteligência Artificial garantem que a legalização de casamentos entre humanos e máquinas / andróides acontecerá até 2050.
Já estou a imaginar a próxima causa fracturante do BE: exigir a legalização do casamento entre homens/mulheres e máquinas.
Não é caso para rir, nem para fazer graçolas. O assunto é mesmo sério e merece reflexão profunda. 
Para que tipo de sociedade estamos a caminhar? 
Já nem digo que é para o triunfo do nihilismo, pois isso já aconteceu há muito, desde que as redes sociais tornaram as pessoas em receptores de mensagens, às quais reagem em função do estímulo. Pensa-se  cada vez menos, reage-se em vez de agir. Anda toda a gente muito preocupada com a eleição de Trump, mas se as pessoas tivessem ido votar em peso, em vez de ficarem em casa a comer pipocas e a beber Coca Cola, porque não vale a pena votar, hoje Trump não estaria na Casa Branca e na Europa ninguém andaria preocupado com a Marine Le Pen e outros abortos similares que por aí pululam.
A sociedade que filhos e netos estão a construir é a do triunfo do individualismo, da glorificação do que é mais cómodo, rápido e de fácil apreensão. Reflectir para amadurecer ideias será tarefa para um reduzido número de...marginais.
Para quê, no futuro, incomodarem-se com relações e afectos, se podem partilhar a vida com uma figura de um romance, de uma BD, ou de um filme,  "construído" para não nos questionar e estar sempre às nossa ordens, pronta para satisfazer os nossos desejos?

Há uns anos escrevi um post, aqui no CR, onde dizia que as relações entre as pessoas estavam a diluir-se e a ficar reduzidas a uma mera função utilitária, porque estávamos a tornar-nos cada vez mais narcísicos, individualistas e com dificuldade em ineteragir. Fui bastante criticado, mas ao ler o artigo da "Visão" constato que não andava longe da realidade. A psicóloga americana Sherry Turckle, do MIT, concluiu que  "a empatia entre  estudantes universitários caiu 40% em apenas duas décadas" daí resultando um maior isolamento das pessoas e uma nova gama de necessidades, consubstanciadas " no consumo de dispositivos programáveis à medida dos nossos desejos infantis"
Ao fim e ao cabo  esta transformação é o resultado da nossa relação dependente e quase cega com as tecnologias.
No entanto, se em termos de relações afectivas caminhamos inapelavelmente para a "autosatisfação" que culminará,  a breve prazo, na legalização do casamento entre humanos e andróides, sem que as pessoas se preocupem muito com isso, tenhamos esperança nos movimentos que recentemente começaram a nascer no norte da Europa ( especialmente em Inglaterra e na Suécia). 


Preocupados com a concorrência que os robôs sexuais fazem aos trabalhadores e trabalhadoras do sexo, estes movimentos prometem lutar contra a intromissão destas máquinas de prazer que providenciam relações conjugais estáveis.
Li, algures, que 60% dos primatas estão ameaçados de extinção. Não é ainda o caso do Homem mas, por este caminho, não faltará muito.