quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Memórias em vinil (39)

Hoje faço uma pequena batota. Na minha discoteca em vinil tenho um disco com esta canção, mas cantada por Roberta Flack e Donny Hathaway.
Obviamente não esqueci  o autor deste magnífico tema. Assim, trago-vos "You've got a friend" na voz do seu criador, James Taylor.
Mas, para quem não conhece a versão de Roberta Flack e Donny Hathaway, aqui fica para fazerem a comparação e votarem na que mais gostarem




Perguntar, por perguntar

Em 2017 ainda há quem acredite que a(s) Primavera(s) Árabe(s) foram levantamentos populares?

Almaraz: contra os espanhóis, lutar, lutar



Espanha está em vias de construir um cemitério de resíduos nucleares a pouco mais de 100 quilómetros da fronteira.
O assunto é debatido há pelo menos dois anos entre ambientalistas, mas a comunicação social só agora, depois de Espanha ter anunciado a firme ( e irrevogável ?) determinação de avançar com o projecto, despertou para o problema.
Diga-se em abono da verdade que nem o governo anterior, nem o actual, manifestaram publicamente qualquer apreensão. A  manifestação realizada em Junho contou com a presença de escassas dezenas de pessoas. Para hoje, às 18 horas, está programada uma manifestação em frente ao consulado de Espanha, na Rua do Salitre.
Não me parece que esteja por lá muita gente  além de nós, os culpados do costume. A maioria das pessoas desconhece ( ou finge desconhecer) os perigos inerentes à construção do cemitério nuclear de Almaraz. 
Talvez seja importante, então, lembrar às pessoas que gostam tanto do Tejo que o rio também está em risco, para ver se se mobilizam.
No entanto, é imperioso reconhecer que se há um desinteresse generalizado sobre as questões ambientais, mesmo quando ameaçam afectar directamente as nossas vidas, a culpa também é disto

Geringonça 2.0 : há vida para além da economia



Repostos os salários e pensões cortados pelo governo anterior e actualizado o salário mínimo, seria salutar se a geringonça  incluísse no seu   caderno de encargos a máxima "Há vida para além da economia".
Com efeito, pese embora a importância da melhoria das condições económicas das famílias, os seus efeitos só serão rentabilizados se a geringonça apostar em medidas que fomentem a cidadania e a consciência social, mais valias que não se contabilizam  no imediato, mas têm forte impacto na melhoria das condições de vida das gerações futuras.
Desde final do século XX,  quando a globalização definitivamente assentou arraiais e foi  assimilada acriticamente, como  uma inevitabilidade benfazeja que resolveria todos os problemas sociais, tem-se assistido a um desinvestimento perigoso na formação e informação em áreas importantes para a cidadania.
Poderia citar os exemplos da educação alimentar e para a saúde, dos direitos humanos, da igualdade, das condições de trabalho e outros, mas atenho-me aos temas com que estou mais familiarizado, porque trabalhei nessas áreas durante décadas: a defesa do consumidor e a protecção do ambiente.
Até ao governo Sócrates, estas áreas estiveram na alçada do mesmo ministério. Parecia lógico, até porque a protecção do ambiente está intimamente ligada ao consumo sustentável. Em 2005, porém, Sócrates ( que até emergiu na política quando foi secretário de estado do ambiente) entregou a defesa do consumidor à tutela da economia e, a partir daí, o tema passou a ser tratado (quase) exclusivamente no âmbito das relações de litigância entre consumidor e produtor/prestador de serviços.
Reduzir a defesa do consumidor a questões financeiras e à aplicação de mecanismos que visem apenas a protecção jurídica de direitos foi um erro clamoroso. Não só porque é uma visão redutora da defesa do consumidor, mas também  porque  esquece os deveres dos consumidores, igualmente importantes para o desenvolvimento sustentável.
Ora acontece que os consumidores conhecem os seus direitos, mas ignoram os seus deveres. Para além de separarem os resíduos e, eventualmente, pouparem energia e água por razões meramente financeiras, os consumidores desconhecem o impacto ambiental das suas escolhas.
Desinvestiu-se na informação e formação dos consumidores ( nos últimos anos apenas a formação em matéria financeira teve algum desenvolvimento) e, por consequência, a pouca formação que é feita em matéria ambiental, perde eficácia por estar normalmente desarticulada com a temática do consumo.
Não se pode exigir aos consumidores comportamentos responsáveis, se  não conhecerem, por exemplo, o impacto do sobreendividamento das famílias na economia do país, ou  do automóvel no ambiente.
Não se pode exigir que façam boas escolhas se desconhecerem os produtos que têm incorporado trabalho infantil e trabalho escravo,  o impacto ambiental dos transportes de mercadorias, as  consequências do endividamento excessivo das famílias, ou os efeitos das opções alimentares na preservação das florestas.
As pessoas olham para a Internet como um oráculo infalível e fiável, onde podem obter a informação de que necessitam. Muitos decisores pensam ( ou fingem pensar, porque lhes dá jeito para justificar o desinvestimento na informação) do mesmo modo. No entanto, todos sabemos que a Internet é uma difusora de mentiras  que rapidamente se tornam verdades irrefutáveis, por força de manipulações de grupos económicos ( e outros) interessados em expandir o seu negócio.
Há mais de 40 anos ligado a estas temáticas, não me lembro de uma época em que os produtos - milagre tenham tido uma difusão tão massiva e tão impune como hoje. Bastam dois ou três artigos criteriosamente difundidos, anunciando as vantagens milagrosas de uma determinada semente ou fruto na cura de uma doença, para que o consumo desse produto dispare. Muitas vezes com prejuízo para a saúde dos consumidores e não para seu benefício.
O mesmo acontece com a divulgação de medicamentos de efeitos prodigiosos, que não são mais do que banha da cobra vendida por feirantes "licenciados" em manipulação internáutica.
Se queremos uma sociedade saudável, temos de garantir uma boa informação/formação aos cidadãos. Isso é (quase) tão importante como garantir a sustentabilidade económica das famílias.