terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Memórias em vinil (37)


Creio que não é preciso explicar as razões da minha escolha para esta noite. E muito menos estar aqui a escrever sobre o intérprete.
Boa noite!

E depois do adeus



Agora que as cerimónias fúnebres terminaram e os indignados com as muitas páginas de jornais ou   longas horas de rádios e televisões dedicadas a Mário Soares já podem voltar a rebolar-se de prazer com os arruaceiros  debates desportivos, as purgantes telenovelas, ou os edificantes Big Brothers,   é tempo para enaltecer a comunicação social.
Apesar da falta de profissionalismo  gritante, traduzida em erros de palmatória próprios de principiantes, ( desde confundir o Colégio Moderno com  o Colégio Militar a chamar carroça ao armão, ouvi de tudo), é de sublinhar a forma como a esmagadora maioria da comunicação social prestou uma última homenagem a Mário Soares.
É certo que as televisões ( especialmente a RTP 3) não se cansou de salientar a reduzida ( na opinião deles) presença de populares durante o cortejo fúnebre, mas perdoem-se estas diatribes a quem chegou ao jornalismo  movido pela única intenção de aparecer na televisão para fazer inveja aos amigos.
A o fazerem esse reparo, naquelas cabeças  estava a comparação com o funeral de Eusébio ou a trasladação de Amália para o Panteão.

Pessoalmente, devo muito mais a Soares do que a Eusébio ou a Amália, mas desde há muito sei que para a maioria dos portugueses é muito mais importante um homem que marca golos, ou uma mulher que canta as nossas mágoas, levando ao êxtase o nosso providencial apego ao miserabilismo e à desgraça, do que um Homem que lutou, (pagando por isso alto preço) pela nossa liberdade e restituiu ao país a dignidade de ser respeitado no mundo.

Afinal, se assim não fosse, as telenovelas não teriam tantas audiências e os canais de informação não dedicariam o horário nobre a programas de debate desportivo, onde a falta de educação e os ataques pessoais são a regra.

Prefiro homenagear e manifestar a minha gratidão a quem lutou para que eu fosse LIVRE e tivesse uma vida melhor.
Por isso confesso que me emocionei muito durante a cerimónia, especialmente com as palavras dos filhos João e Isabel, quando ouvia a Lacrimosa de Mozart pelo coro de S. Carlos,  enquanto estive na fila à espera de poder parar uns segundos diante da urna para agradecer a Mário Soares tudo o que fez por mim e pelo meu país e, MUITO ESPECIALMENTE, quando comecei a ouvir a voz de Maria Barroso a declamar dois sonetos de Álvaro Feijó. 
Como já aqui escrevi, discordei muitas vezes de Mário Soares, mas acabei sempre por reconhecer que a razão estava do lado dele.   Os tributos que lhe foram prestados por todos os quadrantes políticos,  engrandecem-no.  As palavras de Jerónimo de Sousa exprimem-no de uma forma sublime, porque não foram meras palavras de circunstância. Foram o reconhecimento da grandeza de Mário Soares.
Ninguém é santo nem diabo, não há pessoas puras. Como já aqui escrevi, Soares tinha muitos defeitos. Felizmente. Isso não invalida que tenha sido o português mais importante do século XX.
Ignorar que lhe devemos a Liberdade, o Europeísmo , a recuperação da dignidade e  o reconhecimento de Portugal pelo mundo é pura ignorância ou ingratidão. Sem Mário Soares, Portugal não seria o país que é hoje. Razões suficientes para justificar a minha homenagem ao grande Homem que ele foi Mário. E eu, que tenho em Mário Soares a última referência do socialismo democrático, nem sequer fui um seu indefectível. Sou apenas um português que ama a LIBERDADE e está MUITO grato a MS por ter lutado por ela.
Quanto aos que continuam a propagandear mentiras sobre Mário Soares e não vêem razões para os portugueses lhe estarem gratos, dou o conselho que ouvi a Miguel Sousa Tavares: Leiam (para ver se aprendem alguma coisa!)



Ó Manel! Você já viu isto?

Enquanto esperava a oportunidade de prestar a minha última homenagem a Mário Soares vi muitas figuras públicas, mas não é sobre elas que quero escrever. É sobre as pessoas anónimas que comigo pacientemente aguardaram a sua vez. Gente humilde, trabalhadora, classe  média e média alta.
À minha frente, uma senhora elegantemente vestida explicava a uma pessoa aparentemente surpreendida em encontrá-la ali, o que a tinha levado aos Jerónimos:
" Ó Manel! Você sabe que eu não gosto de xuxas, mas tinha que vir aqui agradecer ao Bochechas o que ele fez por nós em 1975. Eu estive na Fonte Luminosa, de casaco de peles, no meio de toda aquela gentalha de maltrapilhos a pedir-lhe que nos livrasse dos bolcheviques.Ele conseguiu correr com eles e nunca o esqueci. Sempre discordei dele, nunca mais votei no PS, mas estou-lhe grata para sempre".